Reportagem

Abriu a primeira fábrica em Portugal que transforma cannabis em medicamentos

Empresa canadiana Tilray abriu unidade em Cantanhede para exportar cannabis, mas está de olho no mercado interno. É a primeira a ter em Portugal uma licença não só para produzir, como também para transformar cannabis em produtos medicinais.

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Sérgio Azenha

As primeiras exportações de cannabis e produtos derivados devem começar a sair de Cantanhede no Verão. Pelo menos é esse o desejo manifestado pelo CEO da Tilray, Brendan Kennedy, empresa canadiana que inaugurou esta quarta-feira, em Cantanhede, uma unidade de produção e distribuição de cannabis medicinal.

Se há mais três licenças para produzir cannabis em Portugal (e também mais interessados em fazê-lo), a Tilray é a única empresa com autorização do Autoridade Nacional do Medicamento – Infarmed para transformar o produto em solo nacional.

Quando a empresa canadiana iniciou o processo de licenciamento para plantar cannabis em Cantanhede, distrito de Coimbra, a ideia era fazer de Portugal o ponto de entrada no mercado europeu. As plantas seriam ali produzidas para depois serem distribuídas por outros países. No entanto, as recentes alterações na legislação portuguesa abrem a porta à criação de um mercado português.

“Não estávamos a construir para o mercado português porque não havia um”, afirmou Brendan Kennedy, em conferência de imprensa, no final de uma visita às instalações no Parque Tecnológico de Cantanhede, que serviu para inaugurar a unidade onde serão produzidos produtos de cannabis medicinal e medicamentos derivados de canabinoides. No entanto, os responsáveis ficaram entusiasmados quando o governo português começou a legalizar a cannabis medicinal, conta Kennedy, acrescentando que esse acabou por ser um “benefício desconhecido” à partida.

Mas se a autorização do Infarmed para cultivar, importar e exportar cannabis medicinal a granel chegou à Tilray em 2017, a empresa aguarda ainda a aprovação dos pedidos pendentes de licença de fabrico e certificado de boas práticas de fabrico, sem os quais não pode fabricar e distribuir produtos acabados de cannabis medicinal.

A localização do investimento de 20 milhões que actualmente emprega 109 trabalhadores  mas que deve chegar a 200 até ao final do ano  foi escolhida com base no clima e na mão-de-obra qualificada, referiu. A justificação de Kennedy contrastou com o dia chuvoso, audível pelo impacto das gotas na superfície da tenda montada para o evento. Nas alturas do ano em que o clima não é o mais favorável, a produção é feita exclusivamente no interior, em ambiente controlado. A primeira colheita da plantação exterior foi feita em Outubro de 2018 e a colheita da primeira da plantação interior foi realizada já em Fevereiro deste ano.

No entanto, a Tilray não divulga o número de pés que tem em Cantanhede nem a capacidade de produção anual. Questões de segurança e segredo de mercado são os motivos adiantados. Apenas foi divulgada a área das instalações: 24 mil metros quadrados, que incluem áreas de cultivo interior, exterior e em estufa, assim como laboratórios e locais de processamento, embalamento e distribuição.

Flores inteiras ou moídas 

Os produtos desenvolvidos pela companhia canadiana vão de flores inteiras ou moídas de cannabis a óleos e compostos clínicos. De acordo com o responsável, destinam-se a situações de dor crónica, quimioterapia ou epilepsia pediátrica, exemplificou.

Depois dos discursos, de descerrada a placa e de calçados os protectores plásticos, seguiu-se a visita às instalações. Não foi possível visitar a parte da produção, nem entrar na divisão climatizada onde as plantas crescem a vários ritmos, consoante o sector. Apenar foi permitido observar através de um vidro. As justificações dadas pelos responsáveis pela Tilray foram, mais uma vez, os motivos de segurança e o segredo de mercado, medidas que não se resumem ao interior da unidade. O perímetro do complexo é rodeado de arame farpado, protegido por seguranças e decorado com sinais virados para o exterior estabelecem a proibição de captar imagens.

Actualmente, a empresa produz no Canadá e exporta para 13 países, mas o CEO da Tilray, espera começar a exportar a partir de Portugal no Verão. Não só para a União Europeia, referia o responsável, mas também para África do Sul, Austrália ou Nova Zelândia, onde já vendem produto. No entanto, a Tilray está atenta à possibilidade de vender noutros países, como Irlanda, Reino Unido, França, Grécia e Itália, refere Kennedy.

“É impossível saber” o tamanho do mercado mundial de medicamentos à base de cannabis, afirma. “Sabemos que os pacientes e médicos estão a substituir medicamentos prescritos por cannabis medicinal. O que não sabemos é até que ponto essa substituição está a acontecer”, prossegue. A empresa que dirige quer aproveitar a “mudança de paradigma na indústria a nível mundial”, em que se passou de um clima de proibição generalizada para uma legalização progressiva.

O secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias, destacou o papel deste novo investimento nas exportações do país e o facto de a unidade gerar emprego qualificado. Para além de Brilhante Dias, a comitiva integrou responsáveis de vários organismos do Estado, como a presidente do Infarmed, Maria do Céu Carvalho ou a presidente da Câmara Municipal de Cantanhede, Helena Teodósio.

Na inauguração das instalações esteve também Jaime Gama, ex-ministro socialista e ex-presidente da Assembleia da República. Gama, que integra o conselho consultivo da empresa, não é caso único, uma vez que a Tilray tem uma política de recrutamento de ex-responsáveis políticos nos países onde opera.