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É preciso dar à língua

Por muito bom que um filme ou série seja, uma má tradução e uma postura de indiferença em relação à mesma pode deitar tudo a perder. É absolutamente necessário que a tradução audiovisual comece a ser vista com outros olhos por parte de todos os intervenientes.

A tradução para legendagem é a variante da tradução audiovisual mais praticada em Portugal desde a década de 50 em televisão e a que melhor contribui, a meu ver, para preservar a mensagem do conteúdo que traduz, seja ele filme, série ou até videojogo, quando comparada, por exemplo, com a dobragem. No entanto, esta é persistentemente criticada por uma deficiência crónica de rigor por parte de tradutores, produtoras e distribuidoras, particularmente no que diz respeito à tradução para televisão.

A esta realidade tem de se acrescentar a agravante fomentada pela percepção da tradução audiovisual, por parte do público, como mera muleta ou apêndice linguístico do filme ou série que consome. Isto é, como um mal necessário que não é para levar muito a sério. No entanto, as coisas começam a descarrilar quando, em séries originais da Netflix, como Maniac, que dispõe de elevados níveis de produção, expressões como “show me the ropes” — no sentido de pedir que se mostre como fazer qualquer coisa — ou “rubbers”— uma palavra informal para preservativos — são transportadas para o português como “mostra-me as cordas” e “borrachas”, respectivamente. Isto acontece sistematicamente tanto no grande ecrã, se bem que a menor nível, como no pequeno ecrã, e o acumular destes erros, e outros mais graves, deturpam a narrativa por vezes ao ponto de a tornar incompreensível e afectam significativamente a sua apreciação. Então, porque continuamos a aceitar estas calamidades linguísticas na tradução audiovisual?

Em primeiro lugar, a origem está nessa fórmula mágica patenteada do “ouvi dizer que até te safas a inglês, traduz-me lá estes textitos, se faz favor”. Sempre que alguém diz isto, garanto que há um tradutor a saltar do edifício mais alto. Não basta “safar-se” numa língua para se poder intitular automaticamente tradutor. Alexandra Assis Rosa, docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e uma das mais prestigiadas investigadoras portuguesas da área, salienta que “a nível europeu há objectivos identificados e desenvolvidos por investigadores de Estudos de Tradução para a formação de tradutores: competências linguísticas, culturais, de tradução, pessoais e interpessoais, tecnológicas e de prestação de serviços”. A tradução pode não ser física quântica, mas também não é pêra doce. Há mais que se lhe diga, como se pode ver.

Uma outra questão está relacionada com a natureza técnica e linguística da tradução audiovisual, situando-a num limbo entre tradução técnica e literária, bebendo um pouco de ambas. Todavia, a prática da legendagem requer a utilização de software específico para esse fim, para além do domínio de técnicas de condensação linguística inerentes à tradução para legendagem. Se bem que esta ferramenta necessária à legendagem não seja um bicho-de-sete-cabeças, ou seja, inserir uma legenda quando uma personagem fala e fazê-la sair quando esta termina de falar não é difícil por si só; existem outros componentes, como velocidade de leitura, número de caracteres por linha, intervalo entre legendas e mudanças de plano, que devem ser tomados em conta pois depende deles a própria leitura da legenda.

Infelizmente, na maioria dos casos, isto não acontece por desinteresse ou falta de informação em relação à evolução dos estudos sobre tradução audiovisual (para além da investigação que é realizada, recentemente foi lançada a primeira edição do JAT - Journal of Audiovisual Translationque se debruça precisamente sobre as investigações mais recentes na área). O resultado desta postura desinteressada é evidente sobretudo na tradução para televisão, streaming e em alguns festivais de cinema, estando o cinema dedicado ao circuito comercial menos propenso a esta realidade devido a um maior rigor na tradução e revisão.

Dois exemplos que ilustram a atitude de alguns festivais quanto à tradução. Recentemente assisti a um filme falado em inglês num dos principais festivais de cinema de Lisboa onde, numa cena em que a uma das personagens principais é recusado um estágio, o entrevistador lhe diz, como se nada fosse, “sorry, we recruit our interns from our intern pool”. A tradução, literal, foi a seguinte “Desculpe, recrutamos os nossos estagiários da nossa piscina interior.” A reacção do público foi evidente visto o inglês ser uma língua relativamente percebida pela maioria dos portugueses: riu-se a valer, como se estivesse a assistir a uma comédia quando a cena em questão pretendia precisamente uma reacção contrária, a indignação. Ironicamente, no entanto, a própria tradução também seria motivo desse sentimento, mas, mais uma vez, perdoa-se esse e outros lapsos de compreensão através de uma postura de “pelo menos as pessoas riram-se” por parte dos responsáveis. O segundo exemplo ilustra como é que estes deslizes acontecem.

Em conversa com uma das principais distribuidoras portuguesas, perguntei ao responsável pelo departamento de tradução e legendagem da mesma qual a sua postura em relação à formação dos seus tradutores e parametrização da legendagem dos seus filmes. A resposta foi absolutamente incrível e parecia saída de um filme de Quentin Dupieux: “Não sei a que se refere em relação a parametrização, mas penso não ser muito relevante. Os nossos tradutores variam de pessoas já com muita experiência a iniciados bastante bons.” A questão é: se o responsável pela distribuição da tradução não sabe sequer o que é parametrização, como é que consegue avaliar a competência dos seus tradutores? E quanto à avaliação linguística dos mesmos, será a postura a mesma?

Numa conversa recente com Sara David Lopes, um dos grandes nomes da tradução audiovisual em Portugal, particularmente para o grande ecrã, esta afirmou que “uma legenda bem feita é aquela que se lê sem se dar por isso. Há instrumentos e técnicas que podem ajudar a criá-la, mas se não há uma sensibilidade para isso de raiz, não há domínio da técnica que nos valha.” O problema é que não só damos por ela, como o silêncio em relação ao conteúdo traduzido que consumimos é ensurdecedor. E se, regra geral, a tradução dos filmes do circuito comercial é melhor por ser submetida a maior rigor, é lamentável que tanto nos festivais, como na televisão, isso seja menos frequente.

Sobre a relação entre a qualidade da tradução para televisão e para o grande ecrã, Sara David Lopes acrescenta que “se de uma maneira geral há um cuidado nos trabalhos que vão para os ecrãs de cinema, com a escolha de profissionais mais experientes e uma revisão posterior, nos canais da televisão isso já não corresponde à grande maioria dos trabalhos que se vêem actualmente.” É nos canais de televisão, nos festivais de cinema e nos serviços de streaming, todos eles assumidamente importantes agentes culturais, que se encontra o melhor exemplo de falta de rigor quanto à parametrização de legendagem.

Isto para dizer que por muito bom que um filme ou série seja, uma má tradução e uma postura de indiferença em relação à mesma pode deitar tudo a perder. É absolutamente necessário que a tradução audiovisual comece a ser vista com outros olhos por parte de todos os intervenientes, para que se exorcize essa postura de “deixar andar” e se veja a tradução como parte integrante do conteúdo visualizado.

Artigo corrigido e actualizado às 17h27 de 30 de Abril