A avó vai trabalhar para a Morais Soares para continuar a crescer

O projecto de intervenção social “A avó veio trabalhar” não pára de crescer e, em Maio, muda-se para uma casa nova onde vai poder acolher mais avós, visitantes e até estudantes de outros países que queiram explorar as artes manuais, cruzando sempre o design contemporâneo com a mestria da comunidade sénior. Os avôs também estão convidados.

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A animação salta à vista da montra. Lá dentro, a mesa está posta: um comprido rolo branco de linho, carrinhos de linhas de várias cores, agulhas e tesouras. Uma dezena de avós, dos 63 aos 80 anos, está sentada à volta da mesa, mas hoje também há uma jovem visitante da África do Sul que veio aprender a manejar a agulha. Aqui, as mãos nunca param, borda-se em cores garridas e conversa-se pela tarde fora. Na casa que o projecto de intervenção social “A avó veio trabalhar” ocupa há quatro anos, na rua do Poço dos Negros, não há paredes nuas, nem espaço de manobra. 

É entre almofadas triangulares, tapetes entrançados e bonecos de padrões coloridos, fotografias e cartazes que se trabalha todos os dias para criar peças originais que aliam lavores tradicionais à linguagem inovadora do design contemporâneo. Mas o projecto, lançado em 2014 pela associação Fermenta, é hoje muito mais do que isso e a ambição já não cabe dentro destas quatro paredes a rebentar pelas costuras.

“Se continuássemos aqui, não conseguíamos crescer enquanto projecto”, explica Ângelo Campota, um dos mentores. Em Maio, mudam-se para uma casa nova, no Largo Mendonça e Costa, junto à Morais Soares. Em 250 metros quadrados, quase cinco vezes a área do actual espaço, vai ser possível dar asas a novas ideias: reunir mais avós à volta da mesa, receber mais visitantes nas oficinas de lavores, montar um estúdio de serigrafia, dominar a tecelagem em teares manuais, criar um showroom de peças originais. “Vai ser um mar de oportunidades”, antecipa.

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A ocupação de um espaço próprio, em 2015, já tinha sido um ponto de viragem para este projecto, que começou com meia dúzia de avós que se reuniam duas vezes por semana no Centro Paroquial e Social de São Paulo, no Cais do Sodré, mas que pretendia afastar-se de uma lógica assistencialista e defender os direitos sociais da comunidade sénior. “A nossa intenção com este espaço sempre foi dar palco às pessoas que o frequentassem”, esclarece Ângelo Campota e “valorizar as pessoas como pessoas”. E isso fez-se sem definir hierarquias na equipa, realça o psicólogo de formação, que fundou a iniciativa com a designer Susana António. “As pessoas sentiam que faziam parte de um todo. E, sobretudo, aqui ninguém é infantilizado”, resume. E começaram a aparecer mais pessoas, desafiadas por vizinhos, amigos e familiares: três meses depois, já eram três dezenas.

Trabalhar após a reforma

Quando encontrou a sua primeira casa, atraiu também um novo público. “Adoro estar aqui”, sorri Luísa Silva, de 80 anos, para quem a entrada na reforma em 2013 havia sido “um grande desgosto” (chegou mesmo a dirigir-se pessoalmente à Caixa Geral de Aposentações para fazer o pedido, inédito, disseram-lhe então, para continuar a trabalhar após os 75). É das mais antigas do grupo e das mais assíduas no espaço. “Foi muito bom para mim ter encontrado este sítio. Não sei o que seria de mim se ficasse em casa”, reforça. Para Emília Tavares, de 63 anos, que se juntou ao grupo em Fevereiro, foi a maneira de “quebrar a solidão”, após a reforma e a viuvez precoce. Um dia viu um anúncio no Facebook a pedir ajuda para dobar lãs e decidiu aparecer. “É uma maneira de conviver. E além disso, obriga-me a andar a pé”, frisa ainda.

Hoje em dia, há setenta pessoas a colaborar com o projecto, abrangendo uma janela de idades que vai dos 57 aos 94 anos. Cerca de metade frequenta o espaço semanalmente e vêm de todos os cantos de Lisboa e arredores –  de Benfica a Arroios, de Cascais a Odivelas – e de todos os estratos sociais. “Há pessoas que tiveram carreiras internacionais e que, num espaço de 50 metros quadrados interagem com outras que trabalharam a vida toda no Mercado da Ribeira”, ilustra Ângelo Campota. “Isso é o lado mágico da questão”.

Muitas delas já dominavam as técnicas. “Tricô, bordado, malhas”, elenca Emília. “Crochê, cestaria, carpintaria”, acrescenta Luísa, que trabalhou a vida inteira em terapia ocupacional e aprendeu a tricotar uma laçada aos cinco anos. “Sei fazer tudo, gosto muito de todos os trabalhos de mãos”, resume. Outras vêm dar os primeiros pontos de costura e acabam por entrar na dinâmica de trabalho. “E aprendemos sempre coisas novas umas com as outras e com os mentores, que nos vão ajudando a inovar”, sublinha Emília. Até porque “a gente jovem não gosta daquilo que a gente fazia há 20 ou 40 ano”, lembra.

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Ângelo Campota, co-fundador do projecto Ricardo Lopes

A criação de peças “diferenciadoras”, combinando estes lavores domésticos com uma estética jovem, colorida e arrojada, continua a ser um dos pilares do projecto. A semana passada, houve plenário para decidir a forma, a palete de cores e os acabamentos da nova coleção de almofadas que ainda está em maturação. De seis em seis meses, lançam uma linha nova, que resulta deste “processo colaborativo”, procurando sempre ensaiar novas técnicas, materiais e tendências. 

“Tentamos sempre inovar para não ser um trabalho repetitivo”, adianta Ângelo. Só no ano passado foram criadas e feitos à mão 627 peças. O que atrai visitantes e compradores não é só a inovação ou a qualidade das peças. Há uma história por trás: todos os produtos incluem a fotografia da avó que o faz e uma descrição da colecção e do projecto.

Extensão em São Miguel, nos Açores

Mas se a premissa passou sempre por valorizar o saber-fazer destas avós, também implicava desafiá-las a saírem da sua zona de conforto e a explorar linguagens contemporâneas e novos espaços ao ritmo da cidade que muda todos os dias. “Inicialmente, houve muitas barreiras”, recorda Ângelo. A maioria nem estava assim tão entusiasmada por regressar ao trabalho: a vista já não é o que era, as mãos tinham perdido agilidade e, afinal de contas, não tinham elas já laborado uma vida inteira? A linguagem visual das peças também gerava suspeita: quem é que haveria de querer comprar luvas bordadas com caveiras mexicanas? Mas a primeira colecção esgotou em pouco tempo e a atitude mudou.

Agora, que a “Avó veio trabalhar” está a montar uma extensão do projecto em São Miguel, nos Açores, Ângelo Campota voltou a encontrar as mesmas resistências. “O que estamos a viver agora é o que vivemos há quatro anos”, garante. Mas não vão baixar os braços. A convite do Centro Regional de Apoio ao Artesanato, com quem colaboram há dois anos, vão viajar mensalmente ao arquipélago, durante um ano, para trabalhar com um grupo de pessoas da terceira idade em técnicas artesanais locais.

Para além de se estender a outras paragens, o projecto tem ganho novas valências. Logo em 2015, começaram a ser organizadas as primeiras oficinas de lavores tradicionais, uma forma de “salvaguardar um legado imaterial” e “aproximar gerações distintas”, nas palavras do co-fundador. Foi também uma oportunidade de sair à rua, com as avós pelo braço, e “reconquistar o bairro”, através de parcerias informais com espaços e negócios fora das rotinas habituais de muitas pessoas idosas. Estes workshops continuam a ser dinamizados todos os meses, quer no espaço do projecto, quer fora de portas, em feiras e eventos, que, só em 2018, agregaram quase 400 pessoas de várias idades. 

“Estarem em acções e eventos com uma faixa etária relativamente mais nova é um factor de rejuvenescimento”, realça Ângelo. A ideia era “desbloquear estes caminhos” e possibilitar que, apesar da gentrificação crescente, estes novos vizinhos pudessem ser, como outrora, “um valor de referência para as nossas avós”.

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E se o espaço não é amplo, a porta está aberta e há sempre lugar para mais um à mesa. Através de uma parceria com a Airbnb, a casa acolhe quase todas as semanas visitantes de vários cantos do mundo, interessados em dominar estas técnicas tradicionais ou, simplesmente, levar uma lembrança diferente para casa. Em 2018, passaram por aqui quase três dezenas, de origens tão diversas como o Japão, os Estados Unidos ou Canadá. Alguns visitantes acabam até por ficar. Patrícia veio do Brasil para conhecer Lisboa, durante mês e meio, mas não voltou a fazer as malas. Um dia, passou na rua, olhou pela montra, ficou intrigada e entrou. “Era para voltar em Julho”, revela. “O motivo por que fiquei foram as avós, elas sabem”. Hoje frequenta regularmente a casa.

Para o co-fundador do projecto, esta é também uma forma de “quebrar tabus” sobre os turistas que visitam Lisboa. Algumas das avós já assumiram mesmo o papel de guias turísticos pela cidade histórica no âmbito da iniciativa Follow the granny dinamizada com a organização Remote here que agrega trabalhadores nómadas da área tecnológica que vêm residir em Lisboa por curtos períodos de tempo. Mais recentemente, prepararam um jantar de pratos tradicionais para 40 destas pessoas, a ementa escolhida para promover a gastronomia portuguesa e o convívio inter-geracional. “Foi mais do que mágico”, atira uma das avós do canto da mesa, sob o burburinho constante.

Lucros são para viajar

Entretanto, muitas outras iniciativas foram-se desnovelando nos últimos anos que ajudaram a sustentar o projecto e a proporcionar novas experiências a quem frequenta o espaço. As avós já dinamizaram oficinas para fomentar o espírito de equipa em empresas, personalizaram peças para clientes corporativos e deram o rosto em campanhas publicitárias. Afinal, a zona de conforto é mais elástica do que parecia.  Estes novos serviços têm contribuído para viabilizar o projecto que, após ter recebido, nos primeiros dois anos, mais de 84 mil euros de financiamento da Câmara Municipal de Lisboa, no âmbito do programa BIP-ZIP, e um apoio pontual da Fundação Calouste Gulbenkian em 2017, teve de fazer contas à vida para manter a porta aberta. Os lucros (quando os há) são usados para cumprir uma ambição comum das avós. A preferência tem sido a mesma: viajar.

Mas só através de parcerias e convites, para participarem em feiras, festas e conferências, muitas delas já palmilharam quase todo o País. Em 2018, estiveram em dez cidades portuguesas e quatro cidades europeias, incluindo Eindhoven, na Holanda, onde se realizou a Dutch Design Week, na qual participaram 15 das colaboradoras do projecto.

No quadro negro pendurado na parede, está inscrita a agenda da semana, que inclui não só a entrevista com o Público, mas também uma aula de bordado, um spot para a Rádio Comercial e o corte do linho para o invólucro, concebido por Mallu Magalhães, do novo LP do cantor brasileiro Marcelo Camelo. “Todos os dias é diferente. E eu gosto disso”, sublinha Emília.

… E o avô também 

Talvez por isso, Ângelo não sabe bem antecipar o que o futuro lhes reserva. “É uma incógnita”. Mas há novos projetos na manga. Um deles envolve a organização de residências artísticas, já nas novas instalações, para estudantes de universidades que leccionem cursos na área do design ou arquitectura. Não é uma ideia que surge do nada. Recentemente, uma centena de alunos da Universidade de Gent, na Bélgica, esteve em Lisboa para participar em workshops dinamizados pelas avós e aprender diferentes técnicas e lavores. “Cada vez mais estamos num circuito internacional”, nota.

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A partir de Maio, haverá também residência fixa para as oficinas dinamizadas com homens com mais de 65 anos interessados em desenvolver trabalhos em madeira, serigrafia ou pintura em cerâmica. O projecto “E o avô também”, que foi lançado o ano passado, na LX Factory, e já recebeu um apoio de 50 mil euros da autarquia lisboeta, funciona ainda em regime de oficina ambulante. “Com o novo espaço, queremos fundir as duas realidades: ter um espaço para homens e para mulheres”, adianta Ângelo Campota. “Vai ser um desafio”, remata.