Câmara e empresa garantem salvaguarda do que resta de convento quatrocentista em Alenquer

Ambientalistas denunciaram em Janeiro risco de o edifício ser afectado por actividade de pedreira a laborar nas imediações.

Autarquia considera que o convento já não merece ser classificado
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Autarquia considera que o convento já não merece ser classificado DR

A Câmara de Alenquer recebeu garantias da empresa Calbrita de que o conjunto edificado da Quinta de São Paulo e o que resta do convento quatrocentista de São Julião não serão afectados pela exploração das pedreiras vizinhas. A proximidade entre um aterro de terras provenientes das pedreiras e o antigo convento motivaram, em Janeiro, um alerta público da Associação para a Defesa do Ambiente do Concelho de Alenquer (Alambi). Agora, a empresa comprometeu-se perante a autarquia a instalar uma vedação de rede entre o aterro e a quinta e pretende manter um espaço de protecção dos edifícios históricos com características rurais e pasto de animais.

Rui Costa, vice-presidente da Câmara de Alenquer com responsabilidades no pelouro da Cultura, diz que o edifício do antigo convento construído no século XV já perdeu muitas das suas características históricas e que os próprios painéis de azulejos que ali existiram terão sido roubados na década de 90. Ainda assim, considera que é importante manter os vestígios que restam do convento e uma antiga fonte também situada no conjunto edificado da Quinta de São Paulo. 

O caso foi denunciado, em Janeiro, pela Alambi, que reclamou medidas para “travar” a expansão do aterro da Carapinha de Alenquer, utilizado para depósito de terras provenientes da exploração das pedreiras vizinhas, e evitar danos no edifício histórico. A Associação defendeu mesmo a “urgente” classificação do convento quatrocentista como Imóvel de Interesse Municipal. Segundo referiu, o Convento de São Julião “faz parte do património histórico do concelho” e, segundo fontes históricas locais, terá sido fundado em 1441.

“Sobre este convento avança um grande aterro que serve de depósito à terra vegetal que é extraída destas pedreiras. Outro casario desta quinta, de que o convento de S. Julião faz parte, já está a ser engolido pelo aterro. Tendo em conta que os industriais das pedreiras fazem tudo o que lhes for permitido fazer, como ficou demonstrado em Borba, ou, para não irmos tão longe, como acontece na Carapinha, na Serra de Atouguia, ou no Cabeço de Meca, de modo nenhum podemos ter a certeza que este elemento do nosso património não vai ser soterrado por este aterro”, alertou a Alambi, solicitando à Câmara que “proteja com a maior brevidade este monumento com o estatuto de Património Arquitectónico de Interesse Municipal, o que já devia ter acontecido há muito, de modo a proteger também a sua zona envolvente, para que melhor possa impor uma distância de salvaguarda a este convento”.

O executivo municipal explicou, então, que estava a acompanhar o assunto e a verificar as condições impostas nos planos de exploração das pedreiras vizinhas. Agora, segundo Rui Costa, concluiu-se que o aterro estava dentro dos limites da linha de exploração definida pelo Ministério do Ambiente. A Câmara notificou a empresa responsável (Calbrita) e, dos contactos que se seguiram, resultou um entendimento no que diz respeito à salvaguarda do antigo convento e da Quinta de São Paulo.

“Visitámos a Quinta de São Paulo, onde existe o antigo convento medieval e aferimos que a quinta foi toda vedada e limpa. Segundo o que nos foi comunicado, o aterro estava completamente dentro da cota de exploração, está vedado e entre o aterro e a quinta será delimitado um espaço livre e aberto onde serão colocados alguns animais. Será uma faixa intermédia entre a cota das pedreiras e a quinta”, observou o autarca do PS, explicando que a Quinta de São Paulo “sofreu muitas alterações ao longo dos anos, principalmente na década de 80”, o que afectou inclusivamente a própria igreja do convento quatrocentista.

Segundo o vice-presidente da Câmara de Alenquer, nesta altura, praticamente só restam uma pedra tumular sem inscrições e uma fonte que, pelas suas características originais, pode ter algum interesse histórico. “A quinta não está a ser alvo de qualquer intervenção. O que nos foi dito pelo conselho de administração da Calbrita é que a quinta foi limpa e foi vedada e não haverá ali qualquer intervenção”, referiu Rui Costa, frisando que muito do que constava dos últimos registos históricos do convento (década de 1980) foi retirado ou destruído. “Infelizmente nesta altura há muito pouco a proteger e parece-me que não haverá matéria para qualquer tipo de classificação, mesmo de interesse municipal”, concluiu o edil.

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