Líderes do movimento democrático de Hong Kong foram condenados

Considerados culpados de conspiração e incitação à perturbação da ordem pública, podem ser sentenciados a penas de até sete anos de prisão.

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O pastor Chu Yiu-ming, Chan Kin-man e Benny Tai ALEX HOFFORD/LUSA

Nove líderes do movimento pró-democracia de Hong Kong foram considerados culpados, esta terça-feira, de conspiração e incitação à perturbação da ordem pública, deixando indignados os seus apoiantes e de organizações de direitos humanos. Podem ser condenados a penas que vão até sete anos de prisão.

Foram as últimas condenações entre dezenas de processos relacionados com as manifestações de há quase cinco anos a pedir mais democracia em Hong Kong, que levaram à paralisação de partes da cidade e que duraram 79 dias. O Ministério Público considerou que os nove inspiraram os manifestantes a bloquear artérias principais e a provocar dificuldades numa tentativa de alcançar as suas exigências políticas.

No entanto, os nove activistas argumentaram que foram as acções da polícia e do Governo que levaram milhões de pessoas a protestar, prolongando aquilo que estava previsto ser um “sit-in” (protesto pacífico sentado) de curta duração.

Conhecidos como Movimento do Guarda-Chuva por causa do único objecto que os manifestantes tinham para se defender contra o gás-pimenta e o gás lacrimogéneo da polícia, os protestos de 2014 visavam conseguir aliviar Hong Kong do controlo apertado de Pequim. Os manifestantes desejavam alargar os direitos democráticos e acabar com o plano da China de vetar candidatos para o mais alto cargo político da cidade.

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Damir Sagolj/Reuters

Quando Pequim se mostrou inamovível nas suas intenções e a polícia começou a usar o gás-pimenta e lacrimogéneo, o “sit-in” transformou-se num movimento de grande dimensão. Calcula-se que 1,2 milhões de pessoas foram para as ruas de maneira pacífica, cortando ruas icónicas e acampando em bairros de grande movimento, num protesto que se prolongou por mais de dois meses.

As condenações chegam numa altura em que países como os Estados Unidos e o Reino Unido criticaram aquilo que consideram como uma interferência de Pequim nos assuntos de Hong Kong. O congressista democrata James McGovern e o senador republicano Marco Rubio afirmaram, numa declaração conjunta, que o Governo chinês “tem aumentado a sua interferência nos assuntos de Hong Kong e o Governo de Hong Kong tem sido cúmplice activo na supressão da expressão e participação política” desde os protestos de 2014.

“O ano passado foi especialmente preocupante, com a contínua erosão da autonomia de Hong Kong dentro do quadro de ‘um país, dois sistemas – do qual as relações EUA-Hong Kong dependem “, acrescentavam.

A Amnistia Internacional chamou aos veredictos “um golpe brutal para as liberdades de expressão e de protesto pacífico” com base em “acusações vagas”.

O movimento não tinha líderes oficiais, mas os nove sentenciados esta terça-feira – em que se incluem um deputado eleito, um especialista em direito e um pastor aposentado ­ foram acusados pelo MP de Hong Kong como os principais responsáveis pela perturbação. Entre eles estão três co-fundadores do Occupy Central with Love and Peace, que defende a desobediência não violenta para conseguir a mudança política.

“O propósito da desobediência civil não é a perturbação da ordem pública, mas estimular a preocupação pública com a injustiça na sociedade”, afirmou Benny Tai, um dos três co-fundadores e um dos condenados esta terça-feira, durante as suas alegações finais.

“Este caso é sobre as pessoas de Hong Kong que amam Hong Kong e acreditam piamente que só com a introdução de um verdadeiro sufrágio universal se pode abrir uma porta para resolver os conflitos profundamente arreigados em Hong Kong”, acrescentou o professor Tai.

Esta terça-feira, antes do veredicto, centenas de apoiantes juntaram-se em volta do tribunal a pedir o sufrágio universal. Os acusados chegaram garantindo que não se arrependem das suas acções, enquanto os seus apoiantes seguravam estandartes amarelos, a cor adoptada pelo movimento.

Os activistas pró-democracia de Hong Kong querem que o chefe do Executivo, o mais alto cargo político de Hong Kong, seja escolhido em eleições directas. Actualmente é designado por um comité com representantes dos diferentes círculos eleitorais de Hong Kong que passam por um processo de nomeação muito restrito que os críticos dizem ser controlado por Pequim.

A soberania da antiga colónia britânica passou para a China em 1997. De acordo com a política “um país, dois sistemas”, a economia e o sistema político de Hong Kong – assim como o sistema judicial – têm de permanecer intocados durante 50 anos depois da entrega, até 2047, e manterem-se distintos do resto da China. Exclusivo Público/Washington Post