Crítica

Ciborgues e lutadores greco-romanos em passos de tango

Bisonte, a mais recente criação do coreógrafo Marco da Silva Ferreira, desperta uma empatia energética irresistível que contamina desde o primeiro minuto.

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Paulo Pimenta
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O prazer radioso e cúmplice estampado nos rostos dos seis intérpretes, engrenados numa dança fulgurante, quase faz esquecer o meticuloso trabalho de composição que a sustenta. A grande qualidade de Bisonte é essa empatia energética irresistível que contamina desde o primeiro minuto. Tal injecção de ânimo não terá sido estranha à invulgar afluência do público, maioritariamente jovem, à conversa com os artistas após o espectáculo. 

Apesar do seu vigor, a peça parte de um lugar de fragilidade. Na caixa negra do palco, aberta (a mesa de mistura de som à vista na coxia, uma bateria, um grande painel metálico suspenso ao fundo), Marco da Silva Ferreira acerca-se, silencioso, de um dos microfones de pé na boca de cena. Entoa, em voz lenta e distorcida, uma canção onde aos poucos reconhecemos a popular Lambada brasileira, transfigurada num lamento belíssimo, quase cântico litúrgico.

Como se quisessem sacudir a nostalgia “desse amor que um dia não soube cuidar”, os corpos entregam-se em dinâmica frenética à batida sonora electrizante, em altíssimo volume, a envolver a plateia desde todos os pontos da sala. Movimentos mecânicos e segmentados, como o de organismos cibernéticos, transformam-se em bestas rastejantes, para depois esboçarem ritmos de samba, angulosos passos de tango ou o voltear de uma salsa desconstruída executados por atípicas figuras de mulheres e homens, a solo, em pares ou trios, sem distinção de género. De pele pintada, tops e calções de licra desportivos, joelheiras e coloridas luvas de luta, ora parecem prontos para o ataque num ringue de boxe ou de esgrima, ora em suspensão, exibindo poses viris de silhuetas greco-romanas.

Como em Hu(r)mano (2014) ou em Brother (2017), as danças urbanas, há muito terreno de investigação na criação contemporânea, são já, em Bisonte, traço residual. Delas retém o essencial: ecos de uma trepidação urbana povoada de corpos hiper-saturados.

A peça tenta esquivar-se ao risco de a alta voltagem se esgotar em si mesma. Explora outras modulações emocionais e expressivas, com curiosos jogos performativo-vocais em torno do “poema da besta” (legibilidade auditiva a melhorar) ou da agridoce versão de Superman (Laurie Anderson, 1981), que nos leva pela mão à última cena onde, no chiaroscuro de uma atmosfera intimista e aveludada, uma mulher a acolher o corpo de outra no regaço convoca a imagem de uma pietà renascentista.

Marco da Silva Ferreira (Santa Maria da Feira, 1986) continua em busca de uma linguagem própria, híbrida e difícil de classificar. Receptivo à fonte inesgotável que são os percursos diversificados dos intérpretes, impiedoso na capacidade de seleccionar e excluir materiais, o esforço em resistir à engrenagem dos circuitos de produção, reservando para si tempos de criação distendidos, tem decerto contribuído para a vivacidade do seu reservatório criativo.

Bisonte (animal de aparência portentosa, mas susceptível aos predadores) aborda a vulnerabilidade que se esconde sob as armaduras que socialmente protegem mulheres e homens, agrilhoando-os a estereótipos e a quesitos de infalibilidade e resiliência, dos quais acabam reféns. O gatilho temático fica, quiçá, algo submerso na exuberância da peça. O que, ainda assim, não compromete o impacto de uma dramaturgia bem urdida e, sobretudo, o genuíno júbilo devotado a um expressionismo abstracto muito peculiar.