Netanyahu agradece a Putin ajuda no retorno de corpo de militar desaparecido

Corpo do soldado israelita era procurado há 37 anos. O regresso provoca comoção em Israel - a seis dias das eleições.

,Rússia
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Netanyahu e Putin em Moscovo ALEXANDER ZEMLIANICHENKO/EPA

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, esteve esta quinta-feira em Moscovo com o Presidente russo, Vladimir Putin, a quem agradeceu a ajuda num caso extraordinário: o regresso a Israel do corpo de um soldado morto numa batalha no Líbano há 37 anos.

O regresso do corpo de soldados mortos é um acontecimento de enorme importância num país em que o serviço militar é obrigatório para os judeus e os reservistas são chamados regularmente ao serviço.

Zachary Baumel, originário de Nova Iorque, tinha 21 anos quando foi dado como desaparecido em acção numa batalha a 11 de Junho de 1982 durante a invasão do Líbano. Os corpos de dois outros soldados, desaparecidos na mesma batalha, nunca foram recuperados.

Israel procurou durante décadas localizar e fazer regressar os corpos destes soldados. Sabia-se que o corpo de Baumel tinha sido deslocado para a Síria, e quando a Rússia se envolveu no conflito no país, apoiando o regime de Bashar al-Assad, Netanyahu pediu a Putin ajuda na recuperação do corpo.
E Putin cumpriu.

A que preço? Vários analistas israelitas sublinham a coincidência do timing de um acontecimento que provoca tanta comoção com as eleições, que decorrem na terça-feira e que Netanyahu espera vencer, mas enfrentando um desafio considerável da aliança liderada por um antigo chefe do Exército, Benny Gantz.

Mais, o modo como foi feito o anúncio - primeiro soube-se que o corpo estava em Israel, mas a censura militar não permitia nomear o “país terceiro” que tinha ajudado na busca, e a divulgação foi feita apenas no encontro entre Putin e Netanyahu em Moscovo -, provocou indignação de um dos jornalistas veteranos que segue questões de espionagem e serviços secretos, Yossi Melman, do Jerusalem Post.

Melman criticou no Twitter o modo como Netanyahu “desacreditou” os serviços secretos e o exército usando a lei da censura para obter um efeito mediático máximo.

Na véspera, Netanyahu tinha feito um discurso televisivo sobre o regresso do corpo do soldado, entretanto já identificado. A irmã do militar, Osnat Haberman, disse-lhe: “Há anos que disse à minha mãe que não bastava querer e procurar. Era preciso alguém com um trunfo”. Netanyahu teve o trunfo.

Mas “com Putin não há almoços grátis”, sublinhava Melman no Jerusalem Post. “Mais cedo ou mais tarde, irá cobrar o preço da recompensa.” Putin referiu ainda que o corpo foi recuperado por militares russos e sírios. Israel e a Síria ainda estão tecnicamente em guerra (desde 1948) e aviões israelitas têm atacado por vezes alvos iranianos na Síria (o Irão apoia, tal como a Rússia, o regime de Assad).

No Ha’aretz, Yossei Verter diz taxativamente que “não pode ser uma coincidência” que isto aconteça “a seis dias das eleições”. 

Netanyahu esteve na semana passada em Washington, onde o Presidente Donald Trump reconheceu a soberania israelita sobre os Montes Golã. Agora está em Moscovo, depois de anunciar o regresso do corpo do soldado Baumel.

O peso de Netanyahu, primeiro-ministro há dez anos consecutivos, na arena internacional é incomparável, essa é a sua maior força, uma área onde os rivais não podem sequer aspirar a chegar perto e que não foi beliscada por nenhum escândalo. Os cartazes do Likud apresentam Netanyahu como sendo de “outro campeonato”.

“Tudo foi planeado ao pormenor” com o calendário eleitoral, diz Verter. “O mundo mobilizou-se para ajudar Netanyahu.”

Netanyahu regressa de Moscovo durante a tarde. Ao final do dia, está em Jerusalém para o funeral de Baumel.