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Joana levou máquinas que descascam arroz para a Guiné-Bissau — e as meninas ganharam tempo para a escola

Joana Benzinho quis dar tempo às meninas guineenses, para que pudessem ir à escola. Levou-lhes cinco máquinas descascadoras de arroz, libertando as mulheres e crianças dessa tarefa. Ficou em terceiro lugar no Terre de Femmes, prémio da Fundação Yves Rocher.

Não são máquinas do tempo, mas são máquinas que dão tempo. Cinco, espalhadas por vários pontos da Guiné-Bissau, que, pelo simples facto de descascarem arroz, dão tempo a meninas e mulheres guineenses para irem à escola ou se dedicarem a qualquer outra actividade. A responsável pela instalação das descascadoras é Joana Benzinho, vencedora do terceiro lugar do prémio Terre de Femmes, que, depois de umas férias na Guiné-Bissau, nunca mais perdeu a ligação ao país.

“Percebi que as crianças tinham muita dificuldade em aceder à escola”, explica ao P3 a jurista de 42 anos. Fosse por falta de dinheiro para pagar a matrícula, greves ou qualquer outro motivo, “no ensino público, os meninos ficavam muitas vezes com o ano lectivo partido”. E foi isso que a levou a criar, em 2009, a Afectos com Letras — uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento que tem como objectivo “ajudar as crianças a ter escola”. Desde então, já fez nascer quatro escolas e bibliotecas no país.

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Com a vida dividida entre o Parlamento Europeu, em Bruxelas, e as visitas à Guiné-Bissau, Joana foi desenvolvendo trabalho na região e percebeu que “as meninas muitas vezes eram privadas de ir à escola, porque ficavam em casa a descascar manualmente o arroz”, juntamente com as mães. Este cereal é “a base da alimentação na Guiné-Bissau” — e muitas vezes a única — e tem, por isso, um papel preponderante na vida dos guineenses. Joana quis “permitir às meninas que fossem à escola e que as mães se dedicassem a outras actividades económicas, como a fazer hortas para aumentar os orçamentos familiares”. Para isso, levou a primeira descascadora para a aldeia de Barambe, em 2014. O resultado? “A escola [dessa aldeia] passou a ter mais meninas do que meninos a estudar. As mães dedicaram-se a outras actividades e alargaram um pouco a cultura do arroz.”

A diferença entre os processos é que “uma descasca normal leva quatro a cinco horas e, com a máquina, em cinco minutos são descascados 50 quilos de arroz”. Porque o arroz é “despejado dentro da máquina” por um dos lados e sai descascado pelo outro. Simples. Ao contrário do processo manual. Imagine-se o cenário: “Os molhos de arroz, depois de secos, são dispostos no chão, numa serapilheira, e malhados com um cabo que tem uma espécie de triângulo de cabedal na ponta. Depois, são colocados num recipiente grande de madeira, onde duas ou três crianças batem de forma ritmada, para dividir o arroz da casca.” No final, colocam tudo num cesto e vão atirando os grãos ao ar, para finalizar a divisão. O processo rudimentar faz com que o arroz acabe por ficar “muito partido”. Com a utilização da máquina, o cereal “sai menos partido, com um valor nutricional maior”.

Joana Benzinho está a preparar-se para dar o próximo passo: comercializar os excedentes. Primeiro na Guiné-Bissau, depois para a Europa. “Em Maio, vamos tentar fazer o primeiro ensaque nas aldeias. Assim que conseguir a certificação biológica, vamos começar a internacionalizar o arroz”, afirma. Para isso, conta com a ajuda do prémio monetário de três mil euros, atribuído pelo terceiro lugar no Terre de Femmes, concurso promovido pela Fundação Yves Rocher.

Além do arranque do processo de embalamento e comercialização, a jurista revela que, em breve, uma nova máquina chegará a Quilum. Pouco a pouco vai tentando colmatar as necessidades dos guineenses, que por vezes têm de viajar sob condições adversas para conseguirem descascar o arroz de forma automática na aldeia mais próxima. Antes de haver uma máquina na ilha de Jeta, por exemplo, as meninas e mulheres viajavam até Caió, a aldeia mais próxima com uma descascadora, onde podiam ter de permanecer durante “um, dois, três dias a dormir ao relento, até conseguirem voltar a casa”.

O prémio é “um reconhecimento enorme e uma homenagem às mulheres e meninas guineenses”. “Elas são o motor da economia e da vida social”, refere. Ainda assim, perante “o que há para fazer na Guiné”, todas as “ajudas futuras serão boas”. “Estamos a tentar mudar vidas.”