Maria Granel, a mercearia de produtos biológicos onde se compra "à medida"

É tudo vendido a granel na nova loja de Alvalade. É uma mercearia como “as de antigamente” mas com um toque moderno.

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Guilherme Marques
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Tem chás, sementes, frutos secos, cogumelos, preparados de arroz, mel, gomas. São produtos a granel e biológicos, os dois factores que dão a esta mercearia o título de pioneira nacional na actividade. Na Maria Granel, pode-se levar o recipiente de casa ou usar um da loja e só se leva a quantidade desejada, nem que seja só um bocadinho para experimentar.

O som ambiente é de sementes e cereais a caírem nos sacos e nos frascos. Catarina Palma, com alguns frutos secos num saquinho e curcuma noutro, conta ao PÚBLICO que é a primeira vez que vem à Maria Granel, que abriu a 16 de Novembro. “Gostei tanto que até já me inscrevi para trabalhar aqui”, brinca, acrescentando em tom sério que o que lhe despertou curiosidade na loja foi o conceito de fair trade, “de poder comprar as coisas na quantidade pretendida”.

A mercearia fica em Alvalade, na Rua José Duro, perto da Avenida da Igreja. Os responsáveis pelo projecto são Eunice Maia e Eduardo. Ele é economista, ela é professora de Português e Literatura; ele vem dos Açores e ela do Minho. São casados e fizeram uma aposta num “projecto a dois”, tanto no que lhes concerne, como nos dois elementos que uniram: os produtos vendidos a granel e que têm origem na hortas e campos que não usam químicos.

Na Maria Granel até as gomas são biológicas: há umas vegetarianas, feitas com gelatina de origem vegetal e também há a Doctor Gummy, uma goma sem açúcar, adoçante, glúten, lactose, aromas, corantes ou conservantes. Aldara e André descobriram a loja na Internet e decidiram visitar para perceber que produtos estão à venda. “As gomas, pelo menos, levamos de certeza”, ri André, sublinhando que pretendem regressar.

Helena Cruz, cliente da mercearia, foi cativada pela “grande variedade de produtos”, razão que, afirma, a fará continuar a voltar à loja. Dos mais de 240 produtos ali disponíveis, só seis não são biológicos, mas ainda assim são feitos através de processos artesanais. Um dos exemplos é o chá açoriano da Gorreana, presente nas prateleiras “por motivos afectivos”, brinca Eduardo.

Há gengibre, caju com molho de soja, millet, quinoa, uma montra só de especiarias, na qual a diferença de preço “é flagrante”, quando este é comparado com o dos frascos vendidos nos supermercados, diz Eduardo. Há misturas de cereais, de frutos secos ou de farinhas para fazer pão.

Há uma “parede de arroz” em dispensadores, onde se pode encontrar arroz selvagem, perfumado, integral, vermelho, risoto “e ainda há espaço para mais”, diz Eunice. Agora, os donos da Maria Granel procuram ir ao encontro das necessidades do cliente, procurando disponibilizar os produtos com maior procura. “Na semana passada tivemos imensa solicitação de matcha [chá verde em pó] e já fizemos a encomenda”, exemplifica Eunice. Nas categorias de produtos mais procurados destacam-se os exóticos e os superalimentos — alimentos com elevado teor de nutrientes e benefícios para a saúde, como as sementes de chia ou goji.

Voltar aos velhos tempos
Esta “é uma homenagem às mercearias tradicionais”, explica Eunice, referindo-se ao nome escolhido. “Maria”, por ser um nome tipicamente português, e “Granel”, para que se possa “recriar o conceito e dar-lhe uma vertente inovadora e adaptada aos tempos modernos”.

O casal começou a pensar no projecto em 2013, ao ver lojas do mesmo género noutros países europeus. A ideia original era vender azeite a granel, mas teve de ser posta de parte, porque “o azeite tem uma legislação mais restritiva do que os outros produtos”, explica Eduardo, acrescentando que esta intenção original tem potencial e que ainda espera conseguir vir a contornar a situação.

Face ao desaparecimento da venda a granel, Eunice e Eduardo decidiram reaproveitar a tradição antiga. Os produtos estão colocados em dispensadores automáticos ou em caixas transparentes, com doseadores. Os clientes servem-se sozinhos em todos os produtos à excepção do mel. O preço é apresentado ao quilo, mas existem balanças para que o cliente possa saber quantos gramas leva.

Escrito a giz, nas paredes, as vantagens oferecidas pela loja são claras: “Aqui não há químicos, todos os nossos produtos são biológicos” ou “consumo responsável = zero desperdício”. Eunice acrescenta que não há quantidade imposta e que as pessoas podem trazer as suas próprias embalagens. Eduardo conta, com entusiasmo, que as pessoas têm aderido a esta iniciativa e que há já quem traga vários frascos de casa.

Os donos da Maria Granel têm uma relação directa com os fornecedores, mas lamentam que em Portugal a agricultura biológica ainda não exista a grande escala. “Tentamos sempre garantir os produtos a nível nacional, mas, se não conseguirmos, recorremos à importação”, explica Eunice. Eduardo adianta que os produtos biológicos, apesar de terem potencial de crescimento, “têm sido conotados com um maior custo” e, nesta mercearia, tentam desmistificar essa associação, fazendo com que sejam “produto acessíveis a todos”.

Para além da ideia do azeite, a dupla pensa ainda criar um espaço onde possam vender detergentes biológicos também a granel. A partir de Janeiro de 2016, organizarão workshops que aliam “saber e sabor”, diz Eunice. Serão as Quintas da Maria e a ideia é mostrar como se confeccionam alguns alimentos de forma saudável, com degustações.

Na loja, “pensada à medida”, em alusão ao slogan da mercearia “à sua medida”, o mobiliário é todo nacional. “É uma loja mesmo portuguesa?”, perguntamos. A resposta não diverge da esperada: “Com certeza”.

A Maria Granel está aberta das 09h30 às 19h de segunda a sexta-feira. Aos sábados fecha às 17h e está encerrada aos domingos. “O feedback tem excedido as nossas expectativas”, revela Eduardo, enquanto Eunice concorda e diz que tem sido “mesmo muito positivo”.

Texto editado por Ana Fernandes

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