Um reencontro de excepção

Nos últimos anos, Martha Argerich e Stephen Kovacevich têm voltado a tocar em conjunto nalgumas ocasiões.

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Martha Argerich dr

Martha Argerich é um(a) das maiores pianistas da actualidade — “actualidade” sendo neste caso um conceito já com mais de 50 anos! Como é sabido, é particularmente idiossincrática, quer nas suas características interpretativas, quer no facto, bem conhecido, de a partir de certa altura ter renunciado a apresentar-se sozinha em recital, por pavor da solidão em palco — mas também evita o recital solo em estúdio. Só muito ocasionalmente, e em recital com a colaboração de parceiros, se “atreve” a incluir também peças a solo, como sucedeu na passagem pela Gulbenkian em 2016, com o Quarteto Quiroga, em que tocou duas Partitas de Bach, autor a cujas características é, de resto, completamente alheia.

Se, de quando em quando, sucede ser solista com orquestra, um traço distintivo particularmente saliente dela é a dedicação à música de câmara, ao diálogo musical, com relevo para o Projecto Argerich, que fundou e dirige em Lugano, para o qual convida inúmeros músicos, com destaque, pela sua notoriedade e regularidade de presença, para o violinista Renaud Capuçon e os violoncelistas Mischa Maisky e Gautier Capuçon, além dos vários jovens pianistas que ela vem “apadrinhando”, os dois pianos ou o piano a quatro mãos sendo por ela objecto de especial dedicação — e as gravações radiofónicas desses concertos têm-nos valido recorrentes edições discográficas de caixas de Martha Argerich and Friends. Argerich tem também vindo a participar noutro festival suíço, o de Verbier, e também daí, embora mais esparsamente, nos têm chegado alguns ecos discográficos.

Stephen Kovacevich é outro pianista de excepção, em particular beethoveniano, como outro assim não há — pesem ainda Pollini, Perahia ou Levit, que, contudo, o não são tão integralmente. Os dois, Argerich e Kovacevich, foram brevemente casados na década de 70 e, nos últimos anos têm voltado a tocar em conjunto nalgumas ocasiões. Para além dos factos biográficos, a reunião destes gigantes pianísticos — porque de facto o são — era motivo mais do que justificativo das mais altas expectativas para o recital de quarta-feira passada na Gulbenkian.

Todavia, havia também um óbice: a primeira parte do programa era preenchida com a transcrição para dois pianos das Danças Sinfónicas de Rachmaninov. Sucede que há apenas um ano, na anterior passagem de Argerich na Gulbenkian (no caso com Lilya Zilberstein, pianista que tem vindo a ser a sua mais habitual parceira), essa mesmíssima obra constava do programa, e mais sucede que se o compositor russo é daqueles mais “congénitos” a Argerich não o é, de modo nenhum, a Kovacevich. A interpretação foi certamente de relevo, com destaque para o andamento lento central, mas faltou-lhe aquele “qualquer coisa” de genial de que uma dupla pianística deste calibre é certamente capaz.

E foi um “qualquer coisa” que veio na segunda parte, inteiramente consagrada a Debussy, com o tríptico En blanc et noir, o quase ignorado Lindaraja e a transcrição do célebre Prélude à l'aprés-midi d'un faune.

No período de maior cumplicidade entre eles, nos anos 70, a dupla gravou um excepcional disco, dos mais extraordinários para dueto pianístico, com a Sonata para Dois Pianos e Percussão de Bartók e, justamente En blanc e noir. Tantos anos volvidos mantém-se intacta a prodigiosa miríade de matizes na interpretação da obra de Debussy.

Quanto às outras obras, faço duas notas pessoais, na medida em que não o são apenas: 1) foi a primeira vez que ouvi ao vivo o raríssimo Lindaraja, uma obra de juventude, e esta inclusão no programa de uma peça praticamente desconhecida é também sintoma de uma ética musical, aliás, muito recorrente nas gravações de Argerich com outros pianistas; 2) foi a primeira vez que a transcrição do celebérrimo Prélude me “convenceu” na medida em que, se mais habitualmente, e mesmo por pianistas de grande craveira, se perde na transcrição a sinuosidade tão particular da obra, a começar no distintivo solo de flauta, desta vez essa sinuosidade esteve marcadamente patente.

Mas a apoteose viria em extra(s), com piano a quatro mãos, numa peça suponho que de Brahms e, sobretudo, num extracto de outra obra de Debussy, creio, a Petite suite, En bateau, que foi prodigiosa!

Feito o percurso crítico, recorde-se então que as Danças Sinfónicas são recorrentes em recitais de dois pianos e que, mesmo tocadas a alto nível, não tiveram o distintivo toque de génio que Martha Argerich e Stephen Kovacevich patentearam depois numa segunda parte e nos extras, em relação aos quais cabe de facto falar de genialidade!

Corrigido a 2 de Abril às 17h30 o nome da peça Lindaraja

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