“Onde está Salvator Mundi?”: o mistério do paradeiro da pintura milionária de Leonardo da Vinci

Foi o negócio do século e uma atribuição de autoria rodeada de polémica. Agora, o Louvre de Paris e de Abu Dhabi não comentam ou não sabem onde está a pintura, que será afinal do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman. Parte do mundo da arte parece voltar a duvidar se se trata de um Leonardo.

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Como pode uma das mais mediáticas obras de arte do mundo estar desaparecida? Ou, como escreve este fim-de-semana o New York Times numa investigação sobre a mais valiosa pintura alguma vez vendida em leilão, “onde está Salvator Mundi?”, a obra atribuída ao mestre Leonardo da Vinci e que há seis meses deveria ter sido exposta no Louvre de Abu Dhabi. Fala-se num rasto que esfriou, em príncipes árabes silenciosos e em novas dúvidas quanto à autoria de Salvator Mundi. Só há uma certeza: Salvator Mundi vale 401 milhões de euros e o seu paradeiro é tão desconhecido quanto a sua reputação é problemática.

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Como pode uma das mais mediáticas obras de arte do mundo estar desaparecida? Ou, como escreve este fim-de-semana o New York Times numa investigação sobre a mais valiosa pintura alguma vez vendida em leilão, “onde está Salvator Mundi?”, a obra atribuída ao mestre Leonardo da Vinci e que há seis meses deveria ter sido exposta no Louvre de Abu Dhabi. Fala-se num rasto que esfriou, em príncipes árabes silenciosos e em novas dúvidas quanto à autoria de Salvator Mundi. Só há uma certeza: Salvator Mundi vale 401 milhões de euros e o seu paradeiro é tão desconhecido quanto a sua reputação é problemática.

Estamos no ano em que se assinala o 500.º aniversário da morte do ícone do Renascimento, autor de tão magistrais quanto escassas obras de arte. O mundo, entre Florença, Paris e outros tantos centros de arte globais, programa os museus para celebrar Leonardo e, de caminho, recupera velhas suspeitas e tenta encontrar novas obras - é o caso da escultura de um Cristo que ri e que está exposto em Itália, talvez a única sobrevivente da obra do florentino. Há dois anos, era Salvator Mundi (1506-13) coroado com essa aura de raridade e o brilho da descoberta: o último Leonardo, a pintura de um Cristo que permanecia nas mãos de coleccionadores privados e a última negociável no mercado.

A sua atribuição ao mestre foi um caso bicudo, tendo a pintura feita para o rei francês Luís XII andado séculos de mão em mão e começando, com restauros, a perder alguma da sua identidade e a ser associada aos discípulos de Leonardo. Passou décadas desaparecido, voltava aos leilões, e no século XXI viu a sua autoria disputada apesar de existirem dois desenhos preparatórios de Salvator Mundi e várias reproduções pintadas por alunos de Leonardo. Foi o especialista Robert Simon, historiador de Arte e consultor do Museu Metropolitan de Nova Iorque, a certificar a sua autoria: era o primeiro Leonardo “descoberto” desde 1909. Foi exposto na National Gallery e acabaria, no âmbito de um mediático divórcio do oligarca russo Dmitri Rybolovlev, a ser vendido pela Christie’s de Nova Iorque em Novembro de 2017. O preço foi o recorde dos recordes, 401 milhões de euros ao câmbio actual, o comprador era anónimo.

Um mês depois da compra que salvou o mercado da arte em 2017, o Louvre de Abu Dhabi anunciava que era seu o Salvator Mundi e que este seria mostrado ao público com pompa e circunstância em Setembro de 2018. É o que recorda o New York Times antes de contar como tal nunca chegou a acontecer e como, agora e depois dos seus contactos, tanto o museu quanto os seus responsáveis, incluindo Mohamed Khalifa al-Mubarak, presidente do Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi, estão em rigoroso silêncio sobre Salvator Mundi. O mesmo fizera já o jornal britânico The Times, preocupado sobre o seu paradeiro desconhecido em Novembro de 2018, ou o Guardian em Outubro, focando-se mais no estado e conservação de Salvator Mundi.

“Os funcionários do Louvre de Abu Dhabi dizem em privado que não têm conhecimento do paradeiro da pintura”, escreve agora o diário norte-americano, e o mesmo se passa com o Museu do Louvre de Paris, que este ano (entre Outubro e Fevereiro de 2020) terá nas suas salas Leonardo da Vinci, a mostra antológica que assinala o 500.º aniversário da sua morte e que queria incluir a pintura do Cristo com a mão erguida numa benção. Em Fevereiro, num comunicado, o mais conhecido museu do mundo dizia: “O Museu do Louvre pediu o empréstimo de Salvator Mundi e deseja apresentá-lo na sua exposição de Outubro. Aguardamos a resposta do proprietário”.

“Profundamente injusto”

Em 2017, o comprador anónimo de Salvator Mundi acabaria for se revelar ser o príncipe saudita Bin Salman, ou Bader bin Abdullah bin Mohammed bin Farhan al-Saud. Conhecido como “MBS”, é um jovem membro da família real da Arábia Saudita e amigo próximo do príncipe Mohammed, que acabou por nomear MBS Ministro da Cultura - a primeira vez que tal cargo existe no reino. A mecânica da passagem de Salvator Mundi das mãos de MBS para o Louvre de Abu Dhabi é desconhecida e fontes governamentais americanas disseram ao New York Times que o verdadeiro dono da obra é o príncipe Mohammed, conhecido pelos seus gastos extravagantes e que recentemente foi ligado à encomenda do rapto e homicídio do jornalista Jamal Khashoggi, e que Bin Salman terá sido apenas o intermediário na compra. O seu depósito no Louvre de Abu Dhabi seria parte da mesma operação de relações públicas, estima o New York Times, que dá conta da existência de especulações sobre a possibilidade de o príncipe ter decidido simplesmente ficar com o Leonardo só para si e por isso o seu paradeiro ser desconhecido.

Do lado dos peritos, e de alguns que contactaram com Salvator Mundi e o estudaram, as dúvidas quanto ao paradeiro da pintura não são tanto sobre a posse e a cortina de fumo em torno de um milionário negócio, mas sobre como esta situação afecta a reputação da obra. “É trágico”, disse ao New York Times Dianne Modestini, que trabalhou como conservadora em Salvator Mundi e que considera “profundamente injusto” como o público está a ser privado de “uma obra-prima tão rara”. “Também não sei onde está”, diz por seu turno Martin Kemp, historiador de Oxford que estudou a obra.

O regresso de Salvator Mundi à obscuridade fez reavivar as suspeitas de que não se trate de um Leonardo, de facto, escreve ainda o jornal norte-americano, que recorda como o perito francês em Leonardo Jacques Franck escreveu ao Presidente Emmanuel Macron sobre as suas dúvidas quanto à autenticidade da pintura como um Leonardo e diz ter recebido uma resposta que indicava que o tema estava a ser escrutinado pelas autoridades francesas.

Segundo o New York Times, fontes do Governo francês esperam ainda que Salvator Mundi reapareça para que possa integrar a grande exposição em que estarão as principais obras de Leonardo do museu francês (Mona Lisa, A Virgem dos Rochedos, A Virgem e o Menino e Santa Ana). Mas o mesmo Franck dizia em Fevereiro à edição semanal do jornal britânico Telegraph que os governantes e mesmo funcionários do Louvre “sabem que Salvator Mundi não é um Leonardo” - o jornal escreveu mesmo que o plano de expor a pintura fora cancelado, o que o Louvre desmentiu. Em comunicado, o museu frisa que Jacques Franck não está a trabalhar na exposição de Outubro “e nunca foi curador do Louvre. A sua opinião é pessoal, não a do Louvre”.

O New York Times termina a sua história com o tal rasto que arrefeceu - uma fonte diz que Salvator Mundi veio para a Europa depois de ter sido pago e, apesar do silêncio do perito em restauro Daniel Fabian, que terá sido contactado por uma seguradora para examinar o precioso quadro em Zurique antes de ser novamente posto em trânsito, Dianne Modestini diz ter sabido dessas movimentações. Mas essa inspecção foi cancelada, escreve o diário, que fica sem mais pistas depois dessa possível estadia europeia.