Mercado da arte 2017: um ovni chamado Leonardo da Vinci e um Médio Oriente cada vez mais forte

Leonardo da Vinci arrebatou o mercado em 2017 com um recorde esmagador, mas não foi o único a “salvar” o ano no mundo da arte. Basquiat, Warhol e Twombly parecem confirmar uma preferência pelos artistas do pós-guerra, embora Van Gogh não se tenha portado mal.

Na noite em que <i>Salvator Mundi</i>, de Leonardo da Vinci, foi leiloado em Nova Iorque
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Na noite em que Salvator Mundi, de Leonardo da Vinci, foi leiloado em Nova Iorque LUSA/PETER FOLEY

Nas habituais listas que nos propõem um olhar sobre o que nos trouxeram as artes no ano que está prestes a terminar, entre livros e discos, teatro e dança, ópera e arquitectura, exposições e filmes, há sempre um espaço reservado aos leilões. Os recordes, as tendências, os artistas mais cotados, ou o equilíbrio de forças entre o Ocidente e o Oriente quando se trata de avaliar o estado do mercado, são sempre objecto de reflexão para que, de imediato, se possam avançar estimativas para os meses seguintes. O ano de 2017 não é excepção, e no que lhe diz respeito convém mesmo alargar a análise a outras geografias, para dar ao Médio Oriente a importância que vem conquistando.  

Visto de Nova Iorque, concluído que estava um ano de 2016 marcado por uma quebra de 30% no volume geral de vendas e por batalhas judiciais e debates sobre a autenticidade de obras, 2017 parecia ser pouco auspicioso para o mercado da arte. A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos deixava inquietos os galeristas e as grandes casas leiloeiras, como a Sotheby’s, a Phillips e a Christie’s, escrevia em Janeiro o diário britânico The Guardian. Mas os piores receios parecem não se ter confirmado.

Os resultados dos grandes leilões de Outono do ano passado, mesmo depois de Trump ter garantido o seu lugar na Sala Oval, mostravam que a sua eleição, afinal, não parecia estar a ter um impacto negativo no mercado da arte, defendia Edward Helmore no Guardian, o mesmo diário que agora garante que os detentores de grandes fortunas, atingidos pela quebra dos preços nas obras de arte na sequência da crise 2007-2008, voltaram em força em 2017.

O ano, claro está, foi marcado pelo recorde absolutamente esmagador de Leonardo da Vinci e do seu Salvator Mundi (1506-1513), que se tornou a obra de arte mais cara de sempre vendida em leilão, apesar de, para alguns historiadores de arte e especialistas em conservação e restauro, a sua autoria estar ainda por apurar em definitivo (tanto quanto se pode ser “definitivo” quando se fala de pinturas com mais de 500 anos).

O “efeito Leonardo”

O “efeito Leonardo da Vinci” – expressão que condensa o eterno fascínio que provocam o trabalho e a história do autor de Mona Lisa, verdadeiro paradigma do homem polifacetado do Renascimento –, a sua diminuta (em número) obra pictórica e o facto de os actuais donos de outras pinturas do mestre florentino (todos entidades públicas) não estarem dispostos a desfazer-se delas terão contribuído para a escalada das ofertas dos potenciais interessados, dizem os analistas do mercado da arte. E nem mesmo as suspeitas sobre a sua autoria que foram lançadas ao longos dos últimos anos, desde a sua redescoberta e reatribuição, reforçadas pelos restauros desastrosos de que foi alvo e que obrigaram a extensos repintes, bastaram para travar o entusiasmo dos interessados.

Em 20 minutos, na noite de 15 de Novembro, Salvator Mundi, pintura em que Cristo surge com a mão direita levantada, numa bênção, e a esquerda segurando uma esfera transparente, a obra foi arrematada pelo telefone por 382 milhões. Do outro lado da linha estaria, foi dito depois, um príncipe saudita que falava em nome de outro, o reformista Mohammed Bin Salman. Afinal, confirmou a leiloeira, a pintura foi paga pelo Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, e teve como destino a sucursal do Louvre que fora inaugurada na semana anterior ao leilão naquela poderosa federação de Estados do Golfo Pérsico.

O novo Louvre já causara grandes expectativas – o arrojado edifício do Pritzker francês Jean Nouvel e o rótulo de “primeiro museu universal do Médio Oriente” muito terão contribuído para o entusiasmo internacional –, e o facto de se ter transformado na nova casa do polémico Leonardo só as reforçou, escreve Iker Seisdedos, editor de Cultura do diário espanhol El País.

A combinação destes dois elementos, e os outros museus e centros de arte e de conhecimento anunciados para emirado em que proliferam colecções alimentadas a petrodólares (o novo museu nacional, projecto de Norman Foster, e um novo braço da Fundação Guggenheim, de Frank Gehry, por exemplo), fez com que os analistas passassem a olhar para o Médio Oriente como antes olharam (e ainda olham) para o Extremo Oriente – como um mercado consolidado, capaz de rivalizar com o ocidental, com coleccionadores dispostos a gastar rios de dinheiro nas praças tradicionais de Londres, Paris e Nova Iorque. E não é só para Abu Dhabi que viram as suas atenções.

Desde meados da década de 2000, segundo a publicação especializada The Art Newspaper, o Qatar tem vindo a preparar caminho para se assumir como um dos pesos-pesados do mercado da arte, muito graças ao trabalho, à influência e, sobretudo, à capacidade de investimento de Al Mayassa Bint Hamad Bin Khalifa Al-Thani, filha do antigo emir e irmã do actual.

Foi o Qatar, aliás, o comprador do Cézanne que em 2012 protagonizou a venda privada mais cara da história (que se conheça, claro) – Os Jogadores de Cartas (1895), 190 milhões de euros –, e foi Al Mayassa uma das primeiras “suspeitas” da aquisição, em Novembro do ano seguinte, de um tríptico do pintor britânico Francis Bacon – Three Studies of Lucian Freud (1969) – que na época se tornou a obra a atingir um valor mais elevado em leilão (106 milhões de euros). Já em 2015, as transacções privadas voltaram à ribalta, com um novo recordista a ir parar às mãos da família real daquele Estado do Médio Oriente – Nafea Faa Ipoipo (1892), qualquer coisa como “Quando irás casar?”, do francês Paul Gauguin, terá sido comprado por 300 milhões de dólares (271 milhões de euros).

Presidente da Autoridade dos Museus do Qatar, entidade que tem entre os seus principais projectos os museus de arte islâmica (do arquitecto norte-americano de origem chinesa Ming Pei) e nacional (Nouvel, outra vez), Al Mayassa chegou a ser nomeada pela revista britânica ArtReview a personalidade mais poderosa do mundo da arte e parece não estar disposta a parar, mesmo que o mercado em que se move dê mostras de estar cada vez mais saudável e, por isso, a sua concorrência mais robusta.

A confiança está de regresso

Noutra análise do Guardian, assinada por Rupert Neate, jornalista habituado a escrever sobre os super-ricos e os seus luxuosos hábitos de consumo, é dito, com base no índice da consultora especializada em imobiliário Knight Frank, que a arte vendida em leilão registou um aumento de 16% entre Setembro de 2016 e Setembro de 2017, depois de ter mantido uma quebra significativa nos últimos cinco anos. “A confiança parece ter regressado ao mercado da arte em 2017, [uma confiança] sublinhada de forma espectacular pelo recorde recente da venda do Salvator Mundi de Leonardo da Vinci por 382 milhões de euros”, disse ao Guardian Andrew Shirley, da Knight Frank. “Artistas contemporâneos como [Jean-Michel] Basquiat também estão a ver as suas obras atingirem valores cada vez mais altos.”

Garante este consultor que o valor do Leonardo é, naturalmente, excepcional, mas que há já muitas obras a venderem acima dos 50 milhões de dólares (42 milhões de euros).

Tirando actos isolados, como o que levou à compra de Salvator Mundi, que atingiu um valor quatro vezes superior ao da obra mais cara vendida este ano em leilão, é na arte do pós-guerra e contemporânea que o entusiasmo mais se faz sentir, defende Shirley, com artistas como Basquiat (1960-1988), Andy Warhol (1928-1987) e Cy Twombly (1928-2011) a liderarem as vendas, de acordo com o top da publicação especializada The Art Newspaper.

Untitled (1982), obra do norte-americano Basquiat, ocupa o primeiro lugar e foi comprada por 111 milhões de dólares (92,5 milhões de euros, ao câmbio actual) pelo empresário japonês Yusaku Maezawa. Seguem-se Warhol (Sixty Last Suppers, 1986, 50,6 milhões de euros), Twombly (Leda and the Swan, 1962, 44 milhões) e Bacon (Three Studies for a Portrait of George Dyer, 1963, 43 milhões).

Ainda segundo o ranking do Art Newspaper, o mercado dos impressionistas e modernos também se consolidou em 2017, com obras de Vincent van Gogh (Laboureur dans un champ, 1889, 81,3 milhões de dólares), Fernand Léger (Contraste de formes, 1913, 70 milhões) e Constantin Brancusi (La muse endormie, 1913, 57,3 milhões) a ultrapassarem a barreira dos 50 milhões de dólares (42 milhões de euros), sendo que as duas primeiras terão ido parar, muito provavelmente, a colecções asiáticas. Marc Chagall, Suzanne Duchamp, Emil Nolde e Alfred Sisley também bateram (os seus) recordes.

No que toca à pintura mais antiga, e tirando Leonardo da Vinci, nenhum lote ultrapassou os tais 50 milhões de dólares – o veneziano Francesco Guardi (1712-1793) foi o que ficou mais perto dessa marca, com uma das suas vistas da ponte do Rialto a chegar aos 33,9 (28,2 milhões de euros). Na fotografia, o “clássico” Man Ray ocupa os dois lugares cimeiros do top five com Noire et Blanche, de 1926 (2,6 milhões de euros), e Portrait of a Tearful Woman, de 1936 (2,1 milhões).

O que 2018 reserva para o mercado é melhor não nos arriscarmos a prever. O que se pode dizer é que parece que já não há nenhuma pintura de Leonardo nas mãos de privados.