Crítica

Um jovem turco de agora

A Pereira Brava é um filme composto por momentos bonitos e por momentos desnecessários, e para se aceder a uns tem que se aceitar os outros.

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A cada momento conseguido de A Pereira Brava corresponde um momento indiferente, às vezes de pura retórica
A cada momento conseguido de <i>A Pereira Brava</i> corresponde um momento indiferente, às vezes de pura retórica
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A cada momento conseguido de A Pereira Brava corresponde um momento indiferente, às vezes de pura retórica
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Nuri Bilge Ceylan continua a dedicar-se ao que tem sido o seu principal tema, observar as diferenças e contrastes no interior da sociedade turca, como se encenasse um diálogo (frequentemente de “surdos”) entre pares de opostos —  urbano/rural, moderno/tradicional, religioso/laico, e etc. De certa forma, A Pereira Brava é o filme que se dedica a essa tarefa de forma mais sistemática, a tal ponto que o diálogo, através das conversas entre o protagonista e as personagens com que se cruza, se torna mesmo na sua figura narrativa essencial (para o bem e para o mal: este é também o filme mais demonstrativamente retórico que Ceylan já fez).

Somos conduzidos, então, pela cidade de Çanakkale e arredores (cidade-natal do realizador), pelos olhos de um jovem recém-saído da universidade, que volta a casa à procura de financiamento para editar o primeiro romance. É um “intelectual”, dado numa caracterização bastante áspera, com uma camada de arrogância a rechaçar a proximidade com o espectador (nada aqui convida à “identificação”), particularmente visivel nas cenas com a família, e em particular na sua relação com o pai, um professor primário enredado em dívidas de jogo. O filme alterna as cenas em família, que também servem para ir construindo a sua história, com as explorações de Sinan (o protagonista) pelas imediações, e sobretudo com o seus encontros, sempre a redundarem em longos diálogos que são a real ossatura de A Pereira Brava (o título, já agora, vem do livro que Sinan tenta publicar). Todos esses diálogos são “temáticos”: Sinan conversa com um amigo de infância que agora está na polícia de choque e fala do seu gozo em “partir a cabeça aos esquerdistas” (alusão, nem por isso muito velada, ao poder “musculado” da Turquia de Erdogan); Sinan conversa com um autor consagrado, mais velho, que está ali como que a representar a classe dos intelectuais desencantados (”a única realidade que me preocupa é a desta terrível dor de costas”); Sinan conversa com um par de jovens imãs, num diálogo onde se dá voz a três perspectivas religiosas diferentes (o laico, o muçulmano conservador e o muçulmano progressista). Sinan conversa ainda com mais gente, em cenas que não vivem sempre muito bem, ou que vivem bem quando Ceylan pôe as personagens a fazer algo mais do que apenas conversar —  por exemplo, na cena com o escritor, o momento em que saem da livraria e caminham à beira rio até a uma ponte, ou a longa caminhada com os dois imãs, filmada de muito longe, como uma reminiscência de Kiarostami.

Com as suas três horas e dez minutos de duração, podíamos dizer que a cada momento conseguido de A Pereira Brava corresponde um momento indiferente, às vezes de pura retórica. Até visual: como aquele final na neve, uma espécie de “duplo final” cujas ordens de realidade ficam a cargo da decisão do espectador, num apontamento pessimista —  ou a sublinhar o pessimismo invernal —  que soa um pouco à falsidade de um truque. Já vimos Ceylan com mais punch e mais integridade “orgânica”: A Pereira Brava é um filme composto por momentos bonitos e por momentos desnecessários, e para se aceder a uns tem que se aceitar os outros.