Teresa Pacheco Miranda
Reportagem

Uma autocaravana (e um drama) que percorre o interior

Três jornalistas e mais de 400 quilómetros junto à fronteira. E um drama — o despovoamento — que faz com que as memórias sejam substituídas por silêncios, ausências e abandonos. Pelo caminho, a Fugas e o P3 descobriram gente informada que sabe o que quer e que tem um novo olhar sobre o campo. Dobada como um novelo de lã, esta viagem está cheia de pessoas esdrúxulas.

Uma semana e uma autocaravana. Tomai e desfrutai. A Indie Campers desafiou, a Fugas aceitou, o P3 apanhou boleia. Encostamos os sacos a um canto, tiramos as medidas ao bicho e definimos os pontos de partida e de chegada. Nem agenda, nem mapa, nem apps, nem nada. Estradas estreitas do interior — todas as estradas são estreitas nas primeiras horas de autocaravana nas mãos —, aqui vamos nós! Domingo começamos em Bragança. Domingo estaremos em Fronteira. 312 quilómetros em linha recta, 382 pela via mais rápida e muitos, muitos mais se contarmos com os desvios de percurso fruto do diz-que-disse, do boca-a-boca, do passa-palavra de uma pessoa esdrúxula, que conhece outra pessoa esdrúxula, que conhece mais pessoas esdrúxulas — pessoas “esquisitas” e “exóticas” — que reconhecem uma cultura riquíssima algo empoeirada, que agitam as tradições com um sopro, que chegam ao interior e que não querem sair do interior. Por nada. E por tudo.

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Luís Octávio Costa

Não pensámos nisso, mas estamos na estrada porque em 2013 um português e um austríaco decidiram lançar um projecto juntos. Formados em Gestão, os amigos Hugo Oliveira e Stefan Koeppl sonharam proporcionar aos turistas mais independentes e aventureiros uma alternativa ao aluguer de autocaravanas. Juntos, criaram uma empresa de aluguer online de veículos a “preço competitivo” e que é actualmente uma das startups com maior crescimento no sector turístico europeu. A Indie Campers arrancou com duas pessoas e três veículos. Hoje opera com seiscentas carrinhas em dez países, empregando mais de cem pessoas (na sua maioria jovens) que contribuem para um volume de negócios agregado de seis milhões de euros. Até ao final do ano, a empresa (Hugo é actualmente o único sócio) quer chegar às mil carrinhas e elevar o volume de negócios para doze milhões de euros. Estamos mais preocupados com o volume da nossa “casa” nos próximos sete dias.

Nesta road trip não há tempo a perder. Nesta odisseia, não há tempo para contemplações — ok, uns minutos quando o sol nasce e a luz revela o Castelo de Bragança, as vistas de Figueira Castelo Rodrigo ou as amendoeiras em flor, que nos acompanham de Norte a Sul. Como resistir ao canto das sereias? Não queremos. Deixamo-nos ir atraídos pela voz das pessoas esdrúxulas. Recentemente alguém usou a palavra para descrever Isabel Sá, mãos a mexer, mãos a falar, fios de lã Lhana espalhados pela oficina, onde trabalha o que o planalto mirandês lhe dá. “Nunca pensei viver noutro sítio. Sou muito privilegiada. Acho que vivo no sítio mais preservado de Portugal. É uma área muito genuína, muito autêntica.” Começou a desenvolver os seus próprios projectos. Encolhe os ombros. “Vou saindo, vou lá fora ver as coisas e quando volto dou muito valor à qualidade de vida que aqui tenho.” Em todos os projectos a que se atira, junta uma fotografia das pessoas que com ela colaboram. Quase sempre, com idade para serem seus avós. “Não vejo muita gente como eu a pegar nisto. Não vejo muita gente a fazer coisas mais… esdrúxulas”, ri-se. O território, olha pela janela, “está cheio de recursos, é muito rico”. “E acho que se as pessoas forem criativas, se tiverem gosto no que fazem, se forem curiosas, podem conseguir criar o seu emprego de muitas formas. Porque estas coisas se aprendem. Eu vou ter com quem sabe e eles que me expliquem.” Pausa. “É uma grande mágoa que estas pessoas têm, não poder passar este conhecimento. Porque sabem que vai morrer com elas.”

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“Desde miúdo” que Miguel Schreck sentia essa mesma “atracção pelo meio rural”. Conhecemo-lo no dia seguinte, na paragem seguinte, na paisagem seguinte. Parece que as conhecemos. Mas só nos lembramos de nomes no mapa. Em 2011, o artista plástico resolveu fazer uma viagem de três meses pelo Douro, “desde a foz à nascente”. Ficou-se por Miranda do Douro, onde as placas toponímicas também estão escritas em mirandês. “Decidi que era o sítio onde queria viver. Há sítios que andam a inventar coisas para serem um chamariz cultural. E em Miranda do Douro está tudo inventado. Isto é um diamante superlapidado. Isto tem uma cultura riquíssima, a língua, os pauliteiros, a gastronomia, o vestuário, a música, os instrumentos com um timbre único. Tem é um bocadinho de pó por cima”, comenta. “Uma vez parti uma costela e tive que fazer quase 50 quilómetros. Aí senti mesmo as dificuldades de viver no interior. Há uma falta de investimento muito grande num país que tem uma cultura riquíssima. Miranda do Douro é um caso único de cultura em estado puro. Mas o apoio é insuficiente”, diz o presidente da Lérias, uma equipa de artistas que luta todos os dias pela cultura — a toque de gaita, caixa e bombo. “Sinto que há coisas a desaparecer”, lamenta. “Os artesãos e as técnicas. Isto morre com as pessoas. É um cliché, mas é verdade. É muito frágil. Há coisas que estão em risco de se perder. É um discurso tristíssimo, mas é verdade.” Não são Lérias.

“O drama”, garante Mário Correia, “passa pelo despovoamento destas regiões que faz com que as memórias desapareçam”. “Temos consciência de que pouco podemos fazer”, admite o fundador do Centro de Música Tradicional Sons da Terra, em Sendim, um espaço que luta contra o tempo que contraria a paisagem de silêncios e de ausências. São milhares de horas de gravações, milhares de livros, milhares de registos fotográficos, filmes, produção de texto, fotos — como uma longa viagem de autocaravana. “É uma colecção de borboletas”, descreve. “A ideia é registar, registar, registar, registar”, resume Mário. “O que podemos fazer? É correr contra o tempo para registar estes referentes, para registar esta memória que desaparecerá. Não é trágico. O mundo pula e avança e outras coisas novas virão. Perde-se de um lado, ganha-se do outro. O drama que nos move é que há elementos desta cultura tradicional que na nossa opinião poderiam continuar a ser válidos em termos culturais. Há elementos que pelo menos têm que ser documentados. Não queremos ser a geração que cruza os braços. E pouco mais podemos fazer. Se servirão ou não para o futuro? Fazem parte do património cultural desta gente. E estamos no limite. É este o desencanto que temos nestas regiões que nos leva às raias, à procura de uma cumplicidade do outro lado, cumplicidade de abandono. É um trabalho de arqueologia já. Há dias fiz um inventário e reparei que cerca de 70% dos meus informantes já morreram.”

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A experiência de estrada diz-nos que as culturas nunca morrem. Apenas deixam de ser funcionais. Deixam de ter utilidade. E o projecto Sem Fronteira reencontrou uma geração que começou a vir ao campo — ou a ir ao campo. “A vir ao campo colher o seu melhor”, como diz Mário Correia. A chamar a atenção para determinados patrimónios culturais, sinergéticos, ambientais, de arquitectura, etc. “O velho gaiteiro foi jovem. Ele tinha que incorporar temas novos para agradar às audiências. Tinha que acrescentar um ponto para contar um conto. Nos últimos anos, as escolas, a própria pressão das cidades, levou a que gente muito bonita, gente informada, gente que sabe o que quer, tenha um novo olhar sobre o campo. E isso tem sido muito positivo. Vejo isso com optimismo. É insuficiente, mas é o possível”, assume Mário, que chegou ao interior pela música e ficou pelas pessoas.

Às vezes, ao volante, entre mil e uma paragens sem explicação aparente, sentimos que estamos no fim do mundo. Estamos na caverna de Ali Babá — ou na oficina de Carlos Ferreira. “O sangue demora mais a chegar às extremidades do corpo humano, aos dedos dos pés e das mãos. E por isso temos mais problemas de circulação”, sugere. Aqui, ficou um espaço, “um território que preservou muito a ancestralidade (como o mirandês, uma língua que se manteve viva por causa do isolamento).” Os caminhos “vão afunilando”, explica o artesão. “Para entrar em Lisboa temos cinco ou seis auto-estradas, com várias faixas em cada uma. E depois os caminhos vão estreitando, estreitando, estreitando até aqui chegarmos. Aqui há alcatrão desde que se fizeram as barragens. Antes havia caminhos de terra batida para os burros.” Das fraquezas, os artesãos e outros criativos fazem forças, formões e goivas em riste. “Hoje em dia, estamos numa outra fase a nível civilizacional. Vivemos um tempo de mundialização. O facto de nos termos preservado, ajuda-nos. Porque do ponto de vista das potencialidades turísticas o que conta mais é a diferenciação. Nós somos diferentes dos outros. E por sermos diferentes vale a pena ver. Hoje há que cultivar a diferença. Porque a mundialização uniformiza-nos.”

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Estas terras têm potenciais que atraem e cativam. “O Miguel Torga dizia que estas terras têm um feitiço mágico, que as pessoas, depois de as conhecerem uma vez, nunca as esquecem”, lembra Mário Correia, consciente do “silêncio do abandono” e da “ausência dos que partiram quer pela emigração, quer pela morte”. “Quem fica e quem vem procura manter essa banda sonora perdida. Se fosse possível povoar o Nordeste Transmontano com os sons, as falas, os cantos, as danças, os bailes que eu gravei... Se fosse possível colocar tudo isto no ar, o som desta terra seria absolutamente espantoso. Hoje são silêncios, ausências, abandonos...” Ouvimo-los na caravana, sempre sem rádio, antenas atentas.

“Entrem”, convida Valerie Censier. “Mas a vossa vinda só faz sentido se saírmos”. Quer levar-nos do atelier com cheiro a lavanda em Almendra para o campo onde nascem as plantas que depois transforma em óleos essenciais e bálsamos. O cheiro acompanha-a e entra com ele na autocaravana. Foi também numa carrinha que a francesa deixou Amiens e “caiu de pára-quedas” em Vila Nova de Foz Côa. “Aqui o tempo é muito extremo. É extremo em tudo. É rude. Em pedra. Reencontrei aqui a minha inspiração como artista”, diz, como para justificar a estadia de 25 anos. Faz cerâmica e vidrado inspirados nas gravuras rupestres de Foz Côa, azulejos incluídos. “Tenho uma visão de vida muito simples. Não gosto de complicar e as coisas acontecem. As coisas aconteceram.” Simples. “Para querer ficar por aqui é preciso não ter grandes ambições.” Ela tem uma montanha. Ri-se: “Aquela é a minha.” Está coberta de uma variedade antiga de amendoeiras, que já perderam a flor há uma semana. Tem um pombal (“os pombos voltam sempre”), no sopé uma horta e uma capela dedicada à Nossa Senhora do Campo. E, tirando os pássaros e a água do ribeiro, “o silêncio engole-nos”, assim, diz, imitando o som de sugar por uma palhinha. “É um santuário. Eu disse. A vossa vinda só fazia sentido se vissem isto.”

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Valerie é um daqueles estrangeiros esdrúxulos. “Se calhar”, diz Mário, rodeado de memórias etiquetadas, “devíamos olhar para os estrangeiros, que vêm de países com o índice de evolução tecnológico e industrial superior ao nosso, e que chegam à procura de muitas das coisas que nós ainda não valorizamos: a tranquilidade, as tradições, os saberes ancestrais, toda essa riqueza.” Estrangeiros de fora. Estrangeiros do Porto e de Lisboa. “Na cidade”, diz Telmo Roque, que vive na Aldeia Nova do Cabo, “agarramo-nos ao relógio e esquecemos a natureza”. Os dias já são maiores e ele começa logo a trabalhar mais. Facas imaculadas, madeira “absolutamente lindíssima”, cerdas de javali. “Vivo com aquilo que anda à nossa volta.”

Dias antes, dia de banho no parque de campismo com água quente, Rafael Dias, 41 anos, cogumelos selvagens nos olhos, falava do interior como “um paraíso, uma coisa melhor do que a cidade”, boletos “carnudos” nas raízes dos carvalhos, castanheiros, sobreiros, espargos, azedas. “Eu aqui tenho tempo para pensar. Quando vens cá encontras pessoas como eu, que te relaxam. Descontrais. E as pessoas, saturadas, vão perceber a importância disso. Foi isto que nasceu comigo. Isto é um mundo que só eu conheço.” Os cogumelos selvagens transforma-os em pickles, pâtés, lava-os, fatia-os e desidrata-os ou redu-los a “farinhas com sabor a monte”. Começou a criar a Alfa Selváticos, um negócio de apanha, venda e transformação de cogumelos há mais de 15 anos, quando os espanhóis ali tão perto de Alfândega da Fé se aperceberam “dos milhares de euros que apodreciam no monte”. Mas “caçar cogumelos”, como lhe chama, já o fazia desde pequeno, numa aldeia ali perto. O pai levava uma arma a sério e ele “uma de madeira”, que apontava para o chão. Hoje, durante os passeios no Nordeste Transmontano grava pequenos documentários, só para ele, só para documentar o que lá há, caso deixe, um dia, de haver. Aprendeu sozinho mas teve uma ajuda que se apressou a absorver: “É, estou sempre a ouvir os velhos”, ri-se.

Um destes dias, ia Mário Correia pela rua acima até à igreja “a ver as casas”. “Ia a pensar ‘desde que aqui estou já morreram 12 pessoas, tudo isto fechado...’”. Quando um senhor lhe perguntou se ia comprar alguma, respondeu que não, que estava só a ver as casas que estão fechadas. “Ele respondeu ‘Ah, tio Mário. O problema não é estarem fechadas, o problema é que nunca mais vão abrir’. Esse é o drama”.

As mãos de Isabel não perdem o fio à meada

As mãos de Isabel Sá trabalham o que o planalto mirandês lhe dá. E o que ela foi à procura de aprender. Lã, mel, plantas, tradições. A oficina em Bragança é uma casinha de outros tempos que a engenheira do ambiente quer transportar para os de agora. Estava entre o lobo e a aldeia quando encontrou as ovelhas. Raça churra galega mirandesa, “lã bastante desafiante”. E Isabel Sá cheia de ideias, a vê-las a pastar. Diziam-lhe muito que a lã, “uma matéria-prima natural que demora um ano a ser produzida”, em vez de valor, “só trazia problemas”. A venda “a custos irrisórios” não cobre os gastos da tosquia anual e “muitas vezes os pastores não tinham sequer quem lhes tirasse a lã de casa”. Isabel não lhe resistiu. Porque não resiste a matérias-primas “associadas a elementos culturais da região”, “interessantes”, provenientes de animais autóctones que ajudam na manutenção de paisagens e ainda sustentam parte da população. Isabel, 38 anos, acompanha todo o processo da tosquia, no Verão. Trabalha com três produtores no planalto mirandês. Interessam-lhe rebanhos bem cuidados, “pequeninos”, em regime extensivo. “A lã boa que encontrar, trago toda.” E depois transforma-a, sempre com as mãos. As dela e as das fiandeiras — e de um fiandeiro, “que tem vergonha de dizer que fia” à mão. São estes artesãos que lhe devolvem a lã já em fios. Ela enche-os de cor. Recorre a tintura natural à base de plantas, líquenes e cogumelos ou a corantes sintéticos, para cores mais garridas. Ao projecto que dá “aproveitamento à lã, pagando um preço justo e promovendo ofícios em desuso com a fiação manual, a malha e a tecelagem” chamou Lhana, a palavra em mirandês para lã. Além dos fios 100% fiados à mão, vende sabonetes de esfoliação revestidos de lã cardada e depois feltrada e estojos com um kit de iniciação à fiação manual e à malha (com uma mecha de lã, um fuso de madeira feito à mão e instruções também em mirandês). Renata Monteiro

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"Sinto que há coisas a desaparecer"

Gaita, caixa e bombo. O nome tem que ser dito com energia e ritmo. Como a Lérias, associação com sede na aldeia de Palaçoulo e que em 2016 recebeu o edifício da antiga prisão de Miranda do Douro para transformar numa incubadora cultural e artística. Miguel Schreck, que um dia decidiu subir o rio Douro, é hoje presidente da Lérias, uma equipa de artistas que “trabalha e luta todos os dias pela cultura”. “Era uma cadeia mista para pequenos casos de contrabando e rixas familiares”, apresenta o presidente da associação com tantos braços como o rio. Há duas celas femininas, seis masculinas — congeladas no tempo: lavatório, persianas que são grades, mesa de dobrar presa à parede, portinhola do penico, cama de ferro, colchão esburacado de palha e a bandeirola com que os presos chamavam o carcereiro — e um corredor onde foram colados 120 cartazes das actividades de dez anos da Lérias.

A missão do grupo é mesmo essa. “Tirar o pó à cultura da região.” Trabalhar “à volta” dessa cultura. Dinamizar uma escola de musica tradicional que ensina pelo método antigo (os músicos da região sempre aprenderam “de ouvido, de olhar e sem a mínima noção de pauta; aprendiam sozinhos, a ir para as festas e olhar para o caixeiro e para o gaiteiro"), fazer mexer um grupo de teatro (o T.R.E.T.A.S. — Teatro Rural Experimental Terreiros Auditórios e Salões), assegurar o futuro de instrumentos tradicionais em vias de extinção (a gaita de fole está segura, a fraita tamborileira ou flauta pastoril para lá caminha) e promover todas as formas de cultura tradicional através das aldeias e vilas vizinhas (seja no formato de poesia pendurada ou no de uma escola de música itinerante). Como a cultura tradicional, também a Lérias “vai sobrevivendo”. “Somos todos voluntários. E sinto que há coisas a desaparecer. Os artesãos e as técnicas. Isto morre com as pessoas. É um cliché, mas é verdade. E há casos de sucesso. O burel, a gaita de fole. Neste momento há gaiteiros e está assegurado o futuro. Já há ensino em algumas artes, mas é uma luta iniciada por nós. É muito frágil. Há coisas que estão em risco de se perder. É um discurso tristíssimo, mas é verdade.” Não são Lérias. Luís Octávio Costa

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"A máscara é o mundo que nos rodeia"

Estamos em Sendim. Estamos à porta da caverna de Ali Babá. “E quem conhece as palavras mágicas é que entra”. Carlos Ferreira disse-as por nós e mostrou-nos os tesouros que lá guarda, a arte por lapidar, os troncos (de nogueira, de choupo, de olmo, de laranjeira, de azinheira, de amieiro...) que vão ser rachados a meio e moldados em máscaras, almas gémeas separadas e penduradas nas paredes como troféus de caça. “A máscara é o mundo que nos rodeia.” “Estamos no sítio onde eu procedo ao crime. Uma coisa singela, muito simples”, diz Carlos, 58 anos, que se lembra de surripiar a navalha ao pai para “afiar paus”. “Emprestar era difícil... que nós partíamos o bico”.

Ainda cá está “a velha enxó” do bisavô Francisco entre muitas ferramentas. “Não há assim muito aparato, muita maquinaria. São essencialmente coisas para furar, lixar e motosserras”, enumera, destacando “os formões e as goivas”. “O meu pai Abílio era artesão. As máscaras não eram a temática dele. Fazia muitas miniaturas: de rocas, de reco-recos, de carros de bois... E a minha mãe era artesã na área da lã de ovelha: fiava, tricotava...” A linhagem de artistas prolongou-se no tempo. Chega um tronco à oficina e Carlos dá-lhe um corte longitudinal, expondo duas faces que depois serão desbastadas. A madeira da máscara deve ser uma madeira leve. “Porque a máscara é para o ritual. E o ritual pode muitas vezes demorar quatro, cinco, seis horas. Quanto mais leve for a madeira da máscara que traz a pessoa que encarna o ritual, melhor. É muito físico. As pessoas correm e saltam!”, explica o artesão que guarda mais ou menos 120 peças em permanência — entre a sua colecção intocável e máscaras que vai vendendo entre os 100 e os mil euros. Estamos no interior da caverna de Ali Babá. Estamos em Sendim. Estamos no fim do mundo. Luís Octávio Costa

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“Os ricos comiam as flores, nós pobres comíamos as filhoses"

A mãe de Orminda tinha cinco filhos. E tinha um forno a lenha onde cozia os bolos. “Era biscoiteira”, diz a filha, que tem a quem sair. “Éramos garotos e íamos para lá ajudar. Ela cozia os bolos nas latas barradas com azeite e polvilhados com farinha e cobrava às pessoas que lá iam por cada tabuleiro.

Era uma vez Escalhão, uma aldeia com muita tradição em doçaria. A dona Orminda, ferro na mão e azeite a ferver, meteu-nos na máquina do tempo e fez com que mergulhássemos nos potes vidrados cheios de biscoitos e nos lambuzássemos à volta de uma flor. “Não quero cá bolos tortos! Comi muitos de garota.” Palavra de Doce Minda.

Pouco sabemos de Escalhão. “Era uma zona onde se semeava e se fazia muito pão”, recorda Orminda, auxiliar de lar que começou por “fazer flores por brincadeira”. Massa de farinha de trigo, ovo em abundância e leite aromatizado com canela. Toda a gente gostou das “florinhas”, uma massa que cresce no azeite a ferver e é moldada por um molde de ferro — feitos por ferreiros da região — que só obedece ao seu dono. “Cada um tem uma marquinha para não nos enganarmos no ferro.” Este é o da dona Orminda. “As flores ficam com a mesma textura e com esta crocância.” E em forma de flor de Calatrava, uma cruz de quatro braços iguais, com flores-de-lis nos extremos dos braços. A família de Orminda “era gente muito pobre”. O pai trabalhava no campo. A mãe era biscoiteira. “E toda a gente que ia cozer ao forno dizia assim ‘ó Celeste, este fica para o garoto!’ O que é que nos davam? Os tortos, os que levavam com a pá, os mais empenados. Quando cresci e comecei a fazer bolos, decidi nunca comer esses.”

Ainda hoje Orminda os divide por categorias: os doces finos (a flor de amêndoa, a espuma de açúcar com amêndoa torrada e os almendrados esquecidos que se desfazem na boca) e os doces grossos, os mais económicos que eram os biscoitos dos pobres (biscoitos de azeite da cooperativa de Escalhão) e que “não têm segredo nenhum”. “As pessoas ricas de Escalhão tinham um bolo mais fino do que os pobres. Tinham suspiro de claras misturado com amêndoa torrada. Nem todos os pobres tinham amêndoa de colheita. Os ricos comiam as flores, nós pobres comíamos as filhoses.” Luís Octávio Costa

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Fundão, “terra de oportunidades”

Francisca Vidal foi das primeiras a ali chegar. Catarina Nobre, de 25 anos, deixou Portalegre e está agora a seguir-lhe os passos, também a fazer sabonetes artesanais, também com sede na incubadora de empresas no Fundão. É lá que encontramos ainda Luís Silva, 29 anos, ex-electricista de Viseu, que decidiu aprender a programar quando andava à procura de um trabalho compatível com viagens longas numa autocaravana. Arranjou emprego na área logo após terminar o curso de três meses e meio que Valentim Patoleia, de 23 anos, ex-estudante de Direito em Lisboa, está a começar a perceber o quão “intensivo é”.

Todos gostam das cerejas. Mas, para eles, o Fundão é antes a “terra das oportunidades” — e já está a dar frutos. “Nós temos muito tempo aqui, não é? Tempo para ir a pé buscar um bebé ao infantário e se quiseres ainda ir ao ginásio e fazer o jantar”, diz Francisca. A designer gráfica foi estrear a incubadora de empresas a funcionar desde 2013 na antiga praça municipal, reabilitada para albergar dezenas de jovens empreendedores e um Fab Lab, um laboratório aberto à população que funciona nas bancadas onde antes se vendiam os queijos.

Há três anos que vende os sabonetes que faz numa loja própria, arrendada à câmara. A oportunidade de se instalar num espaço que até então estava desocupado na zona antiga da cidade é “a terceira etapa do processo de apoio ao desenvolvimento de empresas” promovido pelo município. Objectivo: “fixar talento”, “dinamizar o centro da cidade e o comércio local” e, ao mesmo tempo, “fomentar a reabilitação urbana”. Há metas a cumprir. “Pela incubadora, já passaram mais de 70 projectos”, conta de cabeça Ricardo Gonçalves. Alguns deles, o coordenador do gabinete de investimento e inovação consegue vê-los pela janela do escritório da Câmara do Fundão — que desde 2013 giza uma estratégia integrada para atrair multinacionais e empresas tecnológicas, bem como trabalhadores qualificados. Basta um passeio pelo centro da cidade para perceber os resultados. Renata Monteiro

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Facas imaculadas e madeira “absolutamente lindíssima"

Telmo vive na Aldeia Nova do Cabo — e faz facas. “Lá em casa sempre houve canivetes a dar com um pau. Nem todos bons”, recorda à Fugas, que visitou a “gruta” onde forja as suas criações rodeada por árvores vivas e por madeira que respigou aquém e além, pedaços de marmeleiro, de pereira e de medronheiro, uma torga (a raiz de urze da qual se faz carvão), um cepo de oliveira, madeira “estalada pelo calor dos incêndios, com estrias”, “madeira absolutamente lindíssima” que aprendeu a mimar e a transformar.

As divisões da sua casa estão recheadas de tábuas e tabuinhas, de testes, desenhos e experiências, de facas finalizadas e de facas que ficam bem assim, espetadas pela ponta afiada, no estado bruto, de coldres de burel pousados ao lado da colecção de palhetas. Por baixo da casa, Telmo Roque escavou uma caverna à sua medida. Avental de pele, óculos e máscara de protecção, máquinas e ferramentas — algumas boas e outras rombas, enferrujadas, encontradas aquém e além. Na Aldeia Nova do Cabo, Telmo faz. A três quilómetros, no Fab Lab Aldeias do Xisto, Telmo pensa e planeia. Ao milímetro — com a ajuda do CNC [Computer Numerical Control]”. O seu “mundo perfeito” é fazer o casamento das tradições com a tecnologia. Começou depois dos incêndios na região. Salva a madeira. Troca trabalho por madeira. E troca tudo por facas. “Ficamos todos a ganhar.”

No seu “laboratório” branco repousam facas, moldes e caixas delicadas, veios da madeira gravados a laser. “Aqui vai ser um Ferrari”, aponta. “Corta-se madeira, corta-se um cabelo”, sugere Telmo, com encomendas à medida para vários destinos (EUA, Inglaterra, França, República Checa, Lituânia e Eslováquia) e com chefs portugueses à espera de luz verde. “Uma faca de chef tem que estar absolutamente imaculada e nada menos do que perfeita. Eles vão andar 12 ou 14 horas agarrados a ela. Como nas guitarras, a partir de um certo nível têm que estar imaculadas.” Luís Octávio Costa

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Uma Orquestra Sem Fronteiras

Só param “em caso de catástrofe”. Que é o mesmo que dizer que devem seguir sem se deixarem afectar por notas fora do sítio ou depois do tempo. É a primeira vez que vão tocar juntos. Têm os olhos a bailar entre a partitura e a batuta na mão de Martim Sousa Tavares, ainda suspensa, à espera. Até que chega nova ordem — “Ok, primeiro andamento” — e a frase acorda as mãos do maestro que despertam as dos músicos.

Nada de mais se passou em Idanha-a-Nova, Castelo Branco, e a Orquestra Sem Fronteiras tocou mesmo até ao fim, na manhã de 9 de Março. Estamos a assistir ao primeiro ensaio de um grupo que, mais do que uma orquestra, é um instrumento para “fixar jovens músicos no interior do país”. “Para levar cultura de forma gratuita e sem comprometer os níveis de qualidade a uma população muito extensa” espalhada, para já, por 20 localidades que vão receber os primeiros concertos até ao final do ano.

No palco do centro cultural raiano, atrás de violoncelos e contrabaixos, a segurar violinos e flautas transversais, estão 42 jovens músicos da raia ibérica, estudantes e profissionais, entre os 14 e os 24 anos, quase todos, por agora, de escolas de música da Beira Interior, mas que chegaram também do outro lado da fronteira. Durante o primeiro ano, a orquestra quer tocar em 200 músicos. Para já, os que aqui vemos ou foram sugeridos por professores das escolas profissionais e dos conservatórios da região ou são estudantes universitários da raia que se candidataram. Era uma ideia “que ficava muito bonita no papel”, rabiscada por Martim Sousa Tavares, 27 anos. Estariam a “agir numa zona que é prioritária nos quadros europeus” e, dentro dessa área, iriam focar-se num “grupo prioritário, que são os jovens”. Pensou o maestro: Se “de repente esta oportunidade lhes aparece no colo”, os autarcas “nem estão em posição de dizer que não”. Estava certo, os apoios apareceram e meses depois já se ouvem os resultados: “Foi um projecto feito à velocidade da luz.” Estão todos a postos: “E um, dois, três”. “Vamos continuar com a nossa aventura. A ver o que acontece agora.” Renata Monteiro

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