Crítica

Little Simz contra-ataca

Com o novo álbum,a rapper londrina sobe de patamar: na escrita de canções, no flow pugilista, no modo versátil e coeso como manobra as intersecções entre hip-hop, funk, soul e jazz.

Temos rapper, temos ópera rap-funk comandada por uma voz que impõe respeito
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Temos rapper, temos ópera rap-funk comandada por uma voz que impõe respeito

Logo à primeira canção do novo disco, Little Simz parte tudo. Mas sem espalhafato, com uma classe e assertividade dos diabos. Temos rapper, temos ópera rap-funk comandada por uma voz que impõe respeito (Missy Elliott, estás aqui?), à qual o baixo polposo e a bateria infalível servem de trampolim. Há flautas em piruetas, sopros impertinentes em revoada, um coro de raparigas que marca posição, tudo calibrado numa tensão e adrenalina latejantes que nunca chegam a explodir. Offence é uma das músicas mais intrigantes que ouvimos este ano. Sem medos: é já uma das melhores músicas que ouvimos este ano.

Ao terceiro álbum, a rapper londrina de 25 anos Simbi Ajikawo, mais conhecida por Little Simz, sobe de patamar. Se o anterior Stillness In Wonderland (2016), inspirado em Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, era um disco conceptual com demasiadas coisas a acontecer — e com Simz a querer mostrar, um pouco sofregamente e na defensiva, tudo o que conseguia fazer —, GREY Area é coeso, directo e seguro, em modo contra-ataque, com um punhado de canções de que não nos esquecemos no dia seguinte. Como Venom, directa à jugular com um flow velocista e pugilista, cordas num nervoso miudinho, uma batida telúrica e assombrada que nos afunda na canção. Como Pressure (com Little Dragon), outra vez Simz fast and furious num gospel-rap a borbulhar de urgência emocional — black power e black pride numa reflexão incisiva sobre a violência contra pessoas negras. Ou como Selfish, onde a ouvimos em versão soul deslizante e dulcífico, muito anos 90 mas também muito do presente, coadjuvada pela cantora inglesa Cleo Sol (atentem neste nome). Ao longo das dez canções de GREY Area, há ecos de Nas, Lauryn Hill, com quem Simz andou em tour, Jay-Z ou Kendrick Lamar, fã assumido da rapper.

Desde as primeiras mixtapes que a voz de Simz encaixava que nem uma luva no grime, mas o grime não se encaixava muito bem nela. Preferiu explorar as intersecções entre hip-hop, funk, soul e jazz, sem descartar a crueza do grime — versatilidade certificada neste disco, exemplarmente produzido por Inflo, seu amigo de infância que já trabalhou com The Kooks e com Michael Kiwanuka, que aqui podemos ouvir no eflúvio jazzístico pouco interessante de Flowers. Em GREY Area dá-se primazia aos instrumentos tocados ao vivo em vez dos samples, coloca-se a voz intensa e inabalável de Little Simz na linha da frente — o que faz todo o sentido, sobretudo em canções tão íntimas e viscerais como estas. Ultrapassada a magia do início dos vintes, a rapper percebeu que o mundo está/ é/ vai sendo um bocado uma merda (riscar o que não interessa), fazendo deste disco uma forma de terapia e superação. Ao mesmo tempo que drenava impurezas, aprimorou a sua escrita e a sua análise da sociedade, debruçando-se sobre assuntos como a depressão, o racismo estrutural, o sexismo.

“I’m a boss in a fucking dress”, diz ela entre o funk digitalizado e suculento de Boss, num verso rugido através de um megafone, qual bluesman, ou blueswoman, millennial. Little Simz não vacila. Ela está aqui e está a fazer-se ouvir. Espalhemos a palavra.