Opinião

O desesperante complexo dos aborígenes da Tasmânia

Sou assistente social e há 20 anos que me confronto com a ignorância arrogante de quem, nada sabendo sobre a área, se outorga legitimidade para produzir afirmações sobre quem pertence ou não à profissão.

Grandes intelectuais contemporâneos têm vindo a chegar à conclusão de que o tempo presente, recorrentemente glosado de “era da informação”, é pura e simplesmente demasiado complexo para ser entendido pelos cérebros individuais de cada um de nós.

Basicamente, o que se tem vindo a tornar cada vez mais claro é que fazemos parte de uma dinâmica colectiva globalizadora, interconectiva, de cariz progressista, de aceleração… mas que, individualmente, somos todos razoavelmente ignorantes, incapazes de compreender o sentido mais geral do que se passa no mundo em que vivemos. Aparentemente, uma maior consciência está a ser acompanhada por uma igualmente crescente ininteligibilidade.

Esta é uma limitação com a qual temos que aprender a lidar, procurando processar informação, mas não descurando um sentido de precaução, responsabilidade e ponderação nas opiniões que difundimos e nos actos que cometemos. Talvez seja este um dos principais requisitos de uma atitude cívica hodierna.

Partindo do pressuposto de que todos somos, então, profundamente ignorantes, encontramos na nossa sociedade diferentes tipo de ignorância. Proponho, pelo menos, três classificações: a ignorância consciente, que se pode traduzir na máxima socrática “Só sei que nada sei”; a ignorância alienada, que se sintetiza no aforismo popular “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”, e a ignorância arrogante, que se verte no lema “Se não sei, é porque não existe”. Se qualquer um destes tipos de ignorância nos confronta com a nossa pequenez, são de facto os dois últimos que redundam em falta de desenvolvimento, de visão e de movimento num sentido de melhoria das condições que o presente nos oferece.

Ora o que é preocupante é que grasse entre responsáveis políticos, alta administração pública e outros decisores esta ignorância arrogante que os faz pressupor um sem-número de coisas sobre um igualmente incontável número de fenómenos, sempre com certezas absolutas e uma convicção inabalável sobre o que estão a dizer.

Sou assistente social, pertenço a uma categoria profissional com mais de 100 anos de existência, com plena inserção no sistema universitário, com uma comunidade científica firmada, com investigação produzida, com provas dadas no exercício profissional, e há 20 anos que me confronto com a ignorância arrogante de quem, nada sabendo sobre a área, se outorga legitimidade para produzir afirmações sobre quem pertence ou não à profissão, que requisitos são necessários e suficientes para a exercer e qual o significado e sentido do exercício profissional do assistente social.

A última destas situações ocorreu com uma sr.ª Directora-Geral que, ouvida em audição pública pelo Grupo de Trabalho Parlamentar encarregado de analisar os projectos de lei para a criação da Ordem dos Assistentes Sociais, aspiração com mais de 20 anos entre esta classe profissional, se achou no direito e com legitimidade para proferir um conjunto de afirmações como: não é necessária uma licenciatura específica para o exercício da profissão de assistente social, existe uma licenciatura em Assistência Social e de que vê como problemática a eventual criação de um código deontológico (que, por acaso, acaba de ser criado e aprovado em assembleia geral da respectiva Associação de Profissionais).

Lá está, “como não conheço, é porque não existe”, mesmo quando as próprias afirmações se mostram incoerentes, e com isto lá se vai toda a cautela e reserva da ignorância consciente, mesmo quando se tem responsabilidades políticas e públicas. Esperar-se-ia desta alta dirigente que estivesse inteirada, pelo menos, da legislação nacional que, num percurso com mais de 75 anos, criou e legitimou o exercício da profissão de Assistente Social, estando definida a qualificação académica exigida para tal: a licenciatura em Serviço Social.

Aprendi recentemente que, um pouco por todo o mundo, se dá por adquirido que os aborígenes da Tasmânia já não existem, apenas porque quem tem acesso à palavra pública, desconhecendo, pressupõe a sua inexistência. Esta é uma situação inaceitável e desesperante para os milhares de descendentes de aborígenes que existem, com as suas especificidades e agenda particular e, mais importante, com aquilo que podem acrescentar ao mundo. Aquilo que um ocidental privilegiado pressupõe sobre a sua condição não é mais do que a expressão de séculos de opressão.

Enquanto assistente social, sinto-me, mais vezes do que gostaria, desesperada com este persistente “complexo dos aborígenes da Tasmânia”.