Um plano para pôr Lisboa na Liga dos Campeões da energia solar

Autarquia vai lançar uma plataforma para incentivar e esclarecer cidadãos e empresas sobre o potencial solar da cidade. O objectivo é multiplicar a produção até 2030.

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Helder Olino / PUBLICO

Quase não há um postal turístico de Lisboa que não mostre a cidade banhada de sol e o céu bem azul. A realidade nem sempre é tão soalheira, mas a capital apanha tanta luz solar que, se toda ela fosse aproveitada e convertida em electricidade, Lisboa seria energeticamente auto-sustentável.

A cidade está ainda muito longe de alcançar essa meta e só agora se começam a dar os primeiros passos para lá chegar um dia. “Não estamos na Liga dos Campeões” nem em Lisboa nem no país, lamenta Maria João Rodrigues, directora-executiva da Lisboa E-Nova, agência municipal de energia e ambiente, responsável pela estratégia Lisboa Cidade Solar, que tem objectivos ambiciosos até 2030.

Essa estratégia foi apresentada esta terça-feira no encontro Solar Cities, que juntou em Lisboa autarcas de vários países da Europa para assinarem um compromisso conjunto de promoção da energia solar. “Temos uma quantidade de radiação solar nos nossos telhados que é sete vezes superior ao consumo de electricidade registado em 2016”, disse Maria João Rodrigues, acrescentando que 44% dos telhados lisboetas têm uma boa ou muito boa exposição solar.

Neste momento estão instalados 322 sistemas de painéis fotovoltaicos na cidade, o que corresponde a uma capacidade produtiva de quatro megawatts (MW). A ambição da câmara municipal é que, até 2021, se dê um salto para os 13 MW e, até 2030, para os 103 MW. “É um objectivo bastante arrojado”, assume a directora-executiva da Lisboa E-Nova, que diz que a autarquia tem de ser a primeira a dar o exemplo. Edifícios municipais, incluindo os das empresas municipais e os das juntas de freguesia, terão estes sistemas. Seguem-se os prédios do Estado central e os privados.

Uma grande ajuda para a meta de 2021 virá da central fotovoltaica que a câmara quer construir em Carnide e que se destina a abastecer a futura frota de autocarros eléctricos da Carris. “Ainda este mês vamos lançar o concurso”, garante o vereador da Estrutura Verde, José Sá Fernandes, que diz que Lisboa é “a primeira cidade que faz uma central local, especificamente para o transporte colectivo”.

“Temos de promover uma boa integração do fotovoltaico na cidade, se não vamos introduzir muita poluição visual”, alerta Maria João Rodrigues. “É possível fazê-lo e fazê-lo bem com tecnologia convencional”, acredita. Mas, porque “os agentes [económicos] ainda são muito medrosos” e “muitas vezes há um desconhecimento dos próprios serviços [camarários]”, a autarquia vai criar termos de referência que possam ser aplicados a qualquer edifício, facilitando procedimentos.

Antes disso, em Maio, a câmara lança uma plataforma para promover a energia solar e esclarecer dúvidas comuns. “O meu telhado tem um alto potencial solar? Quanto custa um sistema fotovoltaico? Quanto tempo vai demorar até recuperar o meu investimento? Vou evitar significativamente a emissão de dióxido de carbono para a atmosfera?” É a este tipo de perguntas que vai responder a Solis, assim se chama a plataforma, além de trazer mapas actualizados de radiação solar, dos sistemas instalados e da electricidade produzida.

“É, sobretudo, uma plataforma de informação à cidade, para as pessoas perceberem que têm este potencial e que podem aproveitá-lo”, diz José Sá Fernandes, vereador da Estrutura Verde, que diz que esta “é uma fase decisiva” para a energia solar “se tornar irreversível”. Na Solis vai-se falar de tecnologias, legislação e benefícios, explica Maria João Rodrigues, para quem o principal objectivo da nova ferramenta é “tentar reduzir a complexidade” do assunto. “Isto é um processo, não é uma coisa que vá estar pronta amanhã, mas creio que estamos no bom caminho.”