miguel manso
Manuel Vilas

“A felicidade é um pacto que se faz com a vida”

Após a morte dos pais e com a vida a desmoronar-se, o espanhol Manuel Vilas escreveu um romance em busca de redenção. Em tudo havia beleza é um livro autobiográfico, uma crónica de uma Espanha que já não existe, e uma longa carta de amor.

O poeta e escritor espanhol Manuel Vilas (n. 1962) meteu ombros à tarefa de ordenar o seu passado para ter condições de viver o futuro. A sua vida desmoronava-se quando a mãe morreu: divorciara-se, o álcool passara a ser uma das coisas mais importantes da sua rotina, e deixara o emprego. A cabeça sentia o abismo em que a vida se transformara. Com os pés junto ao precipício decidiu reconstruir os seus então 50 anos de vida, ordenando-os, escrevendo um livro em busca da redenção. Mas esse livro — Em tudo havia beleza, acabado de publicar pela Alfaguara, e considerado em Espanha um dos melhores romances de 2018 — não foi apenas essa tentativa de se recompor. Mas já lá iremos.

De passagem por Lisboa, Manuel Vilas falou com o Ípsilon, e confessou, entre sorrisos: “Poderia ter ido a um psiquiatra ou a um psicanalista, mas escolhi escrever um livro e saiu-me mais barato. Escrevê-lo foi uma catarse no sentido em que a literatura clássica grega a define: dar um nome ao que nos causa dor, e com esse processo encontrar a cura.” Em tudo havia beleza é uma reconstrução fragmentada — uma sucessão caótica de memórias que surgem quase aleatoriamente — do seu passado, e sobretudo das histórias de vida dos pais numa Espanha que já não existe.

Nos últimos anos, e um pouco por todo o lado, têm surgido romances escritos na primeira pessoa, assumidos como “retratos verdadeiros” do que realmente aconteceu. Chegam como se os escritores tivessem perdido o pudor de se exporem e de se manterem escondidos por detrás daquela cortina, mais ou menos transparente, a que se chama ficção — talvez o caso mais exemplificativo e conhecido, pelo número de leitores que teve, seja a obra em seis volumes do norueguês Karl Ove Knausgård, A Minha Luta. Para Manuel Vilas, as razões desta “onda”, que oscila entre a chamada autoficção e o romance biográfico, poderão ser várias, mas que a principal, pelo menos em Espanha — Vilas não foi o único autor a fazê-lo nos anos recentes — é de natureza sociológica.

“Acho que em Espanha tem a ver com a classe média. O meu pai não pôde estudar, mas eu fi-lo. O meu pai não lia livros, e eu não só os leio como os escrevo. Daí surge uma necessidade de contar a história. Como foi possível que tendo vindo de uma classe social onde não havia livros, se tenha começado a escrevê-los? Há muitos escritores que contaram as suas histórias e as da família por esta vontade de explicarem a sua origem social. Há uma espécie de necessidade sociológica de fazer isto. Não tive pudor em me expor porque o sentimento que domina o livro é o amor, se fosse ódio ou ajuste de contas seria diferente.” E acrescenta, ainda a propósito do escritor norueguês referido acima: “Penso que com ele [Knausgård] também havia, em parte, essa necessidade sociológica. Logo no primeiro volume, A Morte do Pai (Relógio d’Água, 2014), ele tenta explicar a família, a história de vida da avó, do pai, a separação dos pais. A família é a origem de todos nós, todos temos lá as grandes referências que marcaram a nossa vida.”

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Manuel Vilas, com os pés junto ao precipício, decidiu reconstruir os seus então 50 anos de vida, ordenando-os, escrevendo um livro em busca da redenção. Ordenou o seu passado para ter condições de viver o futuro miguel manso

Mas Manuel Vilas não concorda que o seu romance seja incluído nesta nova “prateleira” denominada autoficção, mas antes naquela dos romances autobiográficos. Apesar de confessar que a sua narrativa tem de maneira inevitável algumas partes ficcionadas, apenas para lhe dar forma, considera que a diferença entre as duas categorias passa pela distinção entre invenção (para a primeira) e confissão (para a segunda). “O que se conta no livro é verdadeiro, aquelas fotos que incluí são verdadeiras, são do meu pai e da minha mãe. Eu sou o que se divorcia, o que deixa o seu trabalho, é tudo autobiográfico. Mas isso não significa que não haja nele alguma ficção. Quando se quer falar na nossa vida, escolhemos um ponto de vista, e nisso há sempre muita subjectividade.”

Manuel Vilas é também um reconhecido poeta — tem mais livros de poesia publicados do que livros de ficção. Não admira, portanto, que a sua linguagem narrativa se aproxime muito da linguagem poética, no entanto sem nunca se confundirem — o epílogo do romance, esse sim, é constituído por uma sequência de uma dúzia de bons poemas. Mas, dada a natureza do material narrativo, havia sempre o risco (e isso percebe-se bem pela leitura de algumas partes do romance) de a escrita resvalar para um registo “lamechas”, a fronteira entre uma coisa e outra é ténue e permeável — tal não aconteceu. Manuel Vilas mostrou-se consciente desse risco: “Não me interessava escrever um romance lírico, mas sim utilizar o trabalho da poesia na linguagem, mas para contar uma história. Sentia que eram maiores os riscos de contar uma narrativa pessoal, da minha própria vida, do que os de cair num registo lamechas, ou mesmo piroso. Mas eu tinha uma necessidade de contar esta história, e isso acabou por se sobrepôr aos riscos.”

Uma carta de amor

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Em tudo havia beleza é um trabalho literário de enorme fôlego, numa linguagem precisa e sem ademanes estilísticos, uma narrativa ao mesmo tempo corajosa e desencantada. De certa forma, vai-se construindo contra a ideia canónica de romance: não há nele uma linha narrativa, e no seu lugar surgem factos que preenchem uma obsessão que se vai tornando recorrente e que ao meu tempo vai surgindo como estilo. Logo nas primeiras páginas do livro, como que para dar o tom das centenas de páginas que se seguem, há um exemplo desse desassombro com que Vilas nos vai confrontar, mas sem nunca cair num pessimismo oco: “O meu pai fez o que pôde com Espanha: arranjou um trabalho, trabalhou, formou família e morreu. E há poucas alternativas a estes factos.” E é essa Espanha em que os seus pais nasceram, cresceram e viveram, que o autor retrata quase sempre em tons melancólicos. Este romance tem uma profunda dimensão sociológica ao fazer um retrato desse país cinzento que já não existe, e sobretudo da vida nas décadas de 1950, 60, 70. É também uma crónica dos anos da ditadura franquista. O tom melancólico da escrita é o tom de uma ausência.

“Tinha que falar destes tempos porque os meus pais viveram nesses tempos. Não é melancolia por essa Espanha que já não existe, mas sim pelos meus pais que a viveram. Era uma Espanha muito cinzenta, havia uma ditadura. Eu cresci em democracia, pude ir à universidade, ler livros, viajar. O meu pai não pôde fazer nada disso. Mas isso não significa que eu seja mais feliz do que ele.”

A questão da natureza da felicidade, daquilo que realmente precisamos para ser felizes, é recorrente ao longo do romance, ora de maneira explícita, ora subjacendo a pensamentos mais ou menos elaborados. E no fim, Vilas tenta defini-la: “A felicidade é um pacto que se faz com a vida.”

Disse no início deste texto, que Em tudo havia beleza não era apenas uma tentativa de redenção por parte do autor. É ainda um “manual de sobrevivência” à perda daqueles que amamos, com os seus exercícios de memória, o procurar lembranças onde elas parecem já não existir, com o acto de as tentar verbalizar (nisto assemelha-se em parte à técnica psicanalítica) tornando-as vívidas e assim as reconstruindo (embora de modo fragmentário) ao mesmo tempo que também o indivíduo se reconstrói. “É mais importante a minha vida escrita no livro do que aquilo que vivi. É um dos mistérios da literatura. Quando se escreve uma memória ela fica mais tangível, ganha uma outra existência. A memória amplia-se.” E, como referiu ainda Manuel Vilas, este romance é também uma longuíssima “carta de amor”: “Ficam sempre coisas por dizer àqueles de quem gostamos. E a tragédia está em que chegamos a uma altura em que já não há tempo nem oportunidade. E então escreve-se um livro, que é a única maneira de dizer tudo. Sim, este livro é uma carta de amor.” É o expiar da culpa pelo não-dito, o exorcizar os efeitos do facto de se ter podido fazer mais.

A narrativa de Em tudo havia beleza parece assentar na ideia de que só existimos em relação com os outros, não apenas a família, mas aqueles com quem nos relacionamos: são eles que dão uma espécie de aval para que “as coisas corram bem”. A existência como luta para nos posicionarmos no mundo. “A estima dos outros acaba por ser a única cédula da nossa existência. A estima é uma moral, molda os valores e o julgamento que existe sobre nós, e a nossa posição no mundo emana desse julgamento. É uma luta entre o corpo, o nosso corpo, onde mora a vida, e o valor do nosso corpo para os outros. Se as pessoas nos cobiçarem, se cobiçarem a nossa presença, a coisa há-de correr-nos bem.” (pág. 16)

Foi um dos romances mais elogiados em Espanha e mereceu boa recepção por parte dos leitores. Uma das razões do sucesso comercial (qualidade literária à parte) foi, para o autor, o facto de ter contado uma história de gente comum que sempre fez coisas comuns e anódinas. “Houve uma identificação dos leitores com este pai e com esta mãe, de uma forma ou de outra, em Espanha.”

A necessidade de amar e de ser amado, algo que espoletou a escrita deste livro, corre nele a par de uma luta contra o esquecimento e a morte. A condição da mortalidade é a condição humana, e Manuel Vilas tem-na agora bem presente: “Quando a minha mãe morreu, eu dei-me conta de que era também mortal, e que pela ordem natural das coisas, serei o próximo, aquele que já tem os dias contados.”