Porto integrado na discussão sobre impacto do prolongamento do quebra-mar de Leixões

Rui Moreira tinha lamentado na semana passada não ter sido ouvido durante este processo, que desencadeou algumas dúvidas relativamente ao impacte negativo que pode ter no Ambiente e em actividades ligadas ao mar, como a pesca e o surf.

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Teme-se que com esta intervenção a praia de Matosinhos deixe de ser um local de excelência para a prática do surf Paulo pimenta

Até agora o grupo de trabalho para avaliar os impactes do prolongamento do quebra-mar de Leixões estava circunscrito a três entidades — ministério do Mar, câmara de Matosinhos e APDL - Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo. Mas agora o Porto vai entrar.

O presidente da câmara do Porto, Rui Moreira, já tinha lamentado não ter sido ouvido sobre o projecto para a extensão em 300 metros do molhe exterior e do aprofundamento do canal de entrada, anteporto e bacia de rotação do porto. Tinha também revelado alguma preocupação relativamente à falta de conclusões do estudo do Estudo de Impacte Ambiental por não garantir que nas praias de Matosinhos, mas também do concelho que lidera, continue a haver espaço para a prática de desportos náuticos ou que a qualidade do ar, do areal e da água não seja afectada.

Após reunião realizada nesta terça-feira de tarde, nas instalações da APDL, que contou com a presença do autarca portuense, da presidente da câmara de Matosinhos, Luísa Salgueiro, e com representantes da APA – Agência Portuguesa do Ambiente e da comunidade portuária de Leixões, a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, também presente, disse aos jornalistas, em comunicado sem direito a perguntas, que o grupo de trabalho vai ser alargado ao Porto.

A obra da extensão do quebra-mar e do Porto de Leixões deu origem a alguma contestação por parte de pescadores de Matosinhos e de surf, que temem, os primeiros, não conseguirem ver salvaguardadas as condições de segurança dos homens do mar durante o trabalho que executam, e, os segundos, que deixe de ser possível praticar a modalidade tanto em Matosinhos, como na praia Internacional.

Diz um parecer da câmara de Matosinhos acerca do estudo de impacte ambiental do prolongamento do quebra-mar na prática de desportos de deslize realizado pela NEMUS, que após as obras as ondas podem diminuir em 60%, o que tornaria a pratica da modalidade impraticável: “Decorrente dos dados obtidos nas simulações, pode haver uma diminuição generalizada das alturas da onda e da respectiva velocidade na zona abrigada pela obra. Na Praia de Matosinhos/Internacional, em especial quando a direcção da ondulação for proveniente de Norte a Oeste este efeito pode ocorrer em toda a extensão da praia, mas com maior probabilidade na metade norte”.

Possíveis alterações na morfologia da praia

O mesmo parecer dá conta de que além da alteração das características das ondas, podem existir mudanças na “morfodinâmica” da praia. Mais concretamente, será a pesca um dos sectores mais prejudicados. De acordo com o parecer, perspectiva-se que a obra possa induzir “um reforço da corrente de deriva litoral” ao longo da praia.

“Este incremento poderá induzir o reforço da rotação da praia no sentido anti-horário. Este efeito decorre da possibilidade de haver uma diminuição da quantidade de sedimento mais a sul e a acumulação de sedimento mais a norte, junto à estrutura mais interior do porto”, diz o documento.

Esta acumulação de areia, dizia-nos na semana passada o mestre da embarcação Camacinhos, Ricardo Pereira, que pode tornar insegura a entrada e saída de barcos de pesca.

Outro potencial impacte negativo será o da redução da extensão dos areais, em especial na Praia Internacional: “A acontecer, as ondas terão tendência a rebentar mais próximo da praia ou levar a que se perca completamente a componente arenosa neste local, criando um potencial acrescido de galgamentos marinhos”.

Ana Paula Vitorino não revelou, a não ser de forma genérica, quais os assuntos debatidos na tarde desta terça-feira e as suas conclusões, mas, ao lado de Rui Moreira e Luísa Salgueiro, garantiu que “todas as entidades presentes reafirmaram a importância para o país e para a região do porto de Leixões”, considerando estas obras fulcrais para o seu crescimento.

Agora com o município do Porto e em conjunto com a APA, diz que continuarão a trabalhar para que sejam identificadas “soluções para eventuais problemas”, programando “a sua concretização” e sublinhando que esta é uma estrutura “fundamental” que emprega directa e indirectamente 280 mil pessoas, cujo impacto sobre a economia nacional representa “mais de 5 mil milhões de euros”.

Já o negócio do surf, em Matosinhos, diz o parecer que vale cerca de um milhão de euros. Continuam a não existir garantias de que a actividade não sairá prejudicada. Porém, a ministra do Mar já tinha anunciado anteriormente existir uma almofada de compensações para os potenciais visados no valor de dois milhões de euros.

No mesmo dia, em reunião privada do executivo camarário matosinhense, foi votada favoravelmente, por unanimidade, a proposta do agendamento de uma reunião extraordinária marcada para a próxima terça-feira, que contará com a presença da APDL.