Ensaio

Paisagem eléctrica com rebanho

Abrigadas do calor, o rebanho percorre as pastagens comendo e ruminando muita erva e pouca física teórica.

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Álvaro Domingues

Entre o milho semeia-se o feijão, que se enrola aos caules daquele, as abóboras, e plantam-se hortaliças, regadas pela mesma água; na orla dos campos, dispõem-se alinhadas as árvores de fruto ou as uveiras por onde trepa a vinha. Na maior extensão do Noroeste, desapareceram os pomares especializados e as vinhas baixas lembradas nos documentos medievais; decaiu também a criação de gado grosso, que viu ocupados parte do ano os seus terrenos de pastagem. (…) (1)

Assim escrevia Orlando Ribeiro sobre a policultura da Ribeira do Minho. Numa sociedade então marcada pela ruralidade profunda, o que impressionava o geógrafo era o elevado grau de produtividade conseguido pelo sistema de culturas que se estendia por veigas e socalcos com uma variedade de produções que se misturavam e que, sazonalmente, rodavam de modo a manter a terra sempre a produzir alguma coisa. A horta era talvez o exemplo mais diversificado e intenso dessa promiscuidade. Atendendo aos recursos tecnológicos de então, ainda sem adubos químicos, tractores e outras máquinas agrícolas, esta mistura de plantas e animais, pão e vinho, fumeiro e batatas, farinha e galinhas…, viabilizava uma agricultura de subsistência que alimentava uma multidão de gente espalhada por um território sem aldeias mas com milhares de freguesias, lugares e casais, estradas e caminhos e, sobretudo, levadas de rega que conduziam a água à parcela mais minúscula e distante. Dizia Mestre António em 1512 sobre esta província e suas avondanças, que era tão povorada que em poucas partes della se poode dar hum brado que se não ouça em povoado! —, e ainda não tinha chegado o milagre do milho americano, das batatas, do feijão, da abóbora, do tomate, do pimento e de uma boa parte daquilo que hoje existe nas hortas.

Tudo isso resultou num prodígio de construção artificial da paisagem que só terminava nos lameiros da montanha com povoados aglomerados e esparsos, nos montes e encostas pedregosas rapadas por séculos de pastoreio e cortes de mato.

No Alentejo, plano e seco, era tudo ao contrário: especialização em vez da mistura. O trigo era a produção base do latifúndio a perder de vista… aquela monotonia obsediante da planura e suas vastas perspectivas sem paisagem, cenografadas a amarelos de seara e azul de céus: aqueles intermináveis desdobramentos de argila vermelha e enxuta, polvorenta, sangrando às mordeduras inclementes do sol, sem um entreluzir de águas, que lhe matassem a sede; aquela lividez hóstil dos rastolhos. (2)

Entretanto, como tudo mudou, também a agronomia teve de se orientar. Em tempos de intensidade tecnológica — desde os processos de cultivo, rega, mobilização de terra, adubos e fitossanitários, maquinarias as mais diversas, aos plásticos ou à selecção genética — e de integração nos mercados globais, a importância e o papel do solo agrícola na equação complexa dos sistemas de produção está sempre a mudar.

Eis então uma nova policultura — o segredo da mistura minhota das várias culturas no mesmo terreno —, uma espécie de seara fotovoltaica combinada com a produção de pastagem para pequenos ruminantes ditos ovelhas, a negra e as outras.

De factor de produção, a electricidade passou a ser a própria finalidade da produção. Quais filas de árvores bidimensionais a perder de vista no latifúndio alentejano, os painéis procuram o sol para produzir o fogo eléctrico, como dizia Benjamim Franklin, que lançava papagaios para recolher esse fogo das nuvens dos céus trovejantes. Abrigadas do calor que abrasa estas terras quando é Verão e o sol cai a pique, o rebanho percorre as pastagens comendo e ruminando muita erva e pouca física teórica.

A ovelha, natureza doméstica que já acompanhava os nómadas pré-históricos em rebanhos imensos e divagações sem fim, continua inseparável dos humanos e dos seus artifícios, seja no restolho, entre os chaparros ou entre os campos das fotovoltaicas: limpam o terreno, depositam a caganita para manter o solo fértil, impedem que o mato cresça e assombre os painéis, dão leite, lã e cordeiros, agnus em latim.

Do natural ao sobrenatural —​ Agnus Dei, qui tollis peccata mundi —, havendo sol e terra e chuva quanto baste, são os humanos especialistas na produção de natureza sintética, de paisagens tecnológicas como já eram as do Minho rural da rega, dos muros, dos socalcos e da policultura promíscua.

Por assim ser, não se entende porque é que é tão complicado hoje olhar para estas imensidões tão harmoniosamente ordenadas. Se em vez de painéis fotovoltaicos houvesse tractores ou ceifeiras-debulhadoras-enfardadeiras, talvez o povo não se atrapalhasse com a tecnologia; assim, torna-se complicado porque os painéis não lavram nem enfardam.

Fosse a energia eléctrica barata e não tivéssemos todos de pagar exorbitâncias por electricidade gerada pelo sol ou pelo vento, e era um mundo perfeito. O povo é muito difícil de contentar. É por isso que muitos dos que mandam preferem mandar como em rebanhos — adaptam-se a tudo e berram pouco.

1. Orlando Ribeiro (1945), Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico — Estudo Geográfico, Coimbra Editora Lda, p.17

2. José Corrêa d’Oliveira, prefácio a José da Silva Picão, Através dos Campos: Usos e Costumes Alentejanos (Concelho de Elvas), 2.ª ed., Lisboa, Neogravura, 1947, p.VIII. (1.ª ed. 1903) (ed. online)