A sociedade será igualitária “quando tivermos mulheres incompetentes como CEO de empresas”

Demógrafa Maria João Valente Rosa lembra que desigualdades nos ganhos se agravaram nos últimos tempos, nas profissões mais qualificadas. Na esfera pública, as mulheres invadiram territórios tradicionalmente masculinos, mas, na esfera doméstica e familiar, “as coisas congelaram”.

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As mulheres avançaram em força para o mercado de trabalho, mas continuam a fazer o dobro das tarefas domésticas Infografia PÚBLICO

As mulheres representam mais de metade da população portuguesa, mas as desigualdades continuam a pespegar-se-lhes à pele nos mais diversos campos. Apesar de mais escolarizadas, as desigualdades adquirem expressão material logo à entrada do mercado de trabalho, onde obtêm salários mais baixos, têm condições contratuais mais precárias e uma maior probabilidade de ficarem no desemprego.

Nas profissões menos qualificadas, as diferenças salariais chegam a ultrapassar os 200 euros, como quantificou o estudo Igualdade de Género ao Longo da Vida: Portugal no Contexto Europeu, um dos mais recentes sobre a desigualdade de género, lançado no ano passado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) sob coordenação da socióloga Anália Torres.

Apesar de pesarem mais nas profissões pouco qualificadas, porque os salários são baixíssimos, as diferenças salariais tendem a aumentar à medida que os salários sobem: entre os representantes do poder legislativo e de órgãos executivos, e entre os dirigentes e directores ou gestores executivos, eles chegam a ganhar mais 900 euros do que elas – 292 euros entre os especialistas das actividades intelectuais e científicas –, segundo o mesmo estudo.

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“A diferença [salarial] torna-se muito mais agressiva quando, para além do ordenado, olhamos para os prémios, as horas extraordinárias, os subsídios...”, explica a demógrafa Maria João Valente Rosa, ex-directora da Pordata, a base de dados da FFMS, sublinhando que, ao invés de decrescerem, estas diferenças “têm vindo a acentuar-se ao longo do tempo”.

Curiosamente, elas apresentam-se mais com muito mais qualificações no mercado de trabalho: em 2015, protagonizavam 53,5% do total de doutoramentos – e, representando 51,4% dos trabalhadores por conta de outrem (dados de 2018), invadiram redutos profissionais tradicionalmente masculinos: representam 54% dos profissionais da advocacia, 58% dos juízes, 62% dos procuradores, 54% dos profissionais de medicina...

O trabalho doméstico, não pago, continua, porém, fortemente feminizado. Em Portugal, as mulheres entre os 15 e os 49 anos de idade dedicam em média o dobro das horas dos homens ao trabalho doméstico e a cuidar da família. A meio da idade adulta, quando tradicionalmente existem filhos pequenos, elas dedicam 16 horas por semana a cuidar da família e eles dez, ao mesmo tempo que a casa lhes absorve outras 18 horas (oito, eles). “Continuam a ser as pessoas sobre cujas costas recai a responsabilidade pelas solicitações domésticas, por tudo o que possa acontecer aos filhos, aos pais.

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Aqui, neste espaço privado, doméstico e familiar, as coisas congelaram, a evolução não se fez ao mesmo ritmo, o que, mesmo em relação à maternidade, faz com que as coisas se tornem incomportáveis para as mulheres”, acrescenta Valente Rosa, para rematar: “Entraremos numa sociedade profundamente igualitária quando tivermos mulheres altamente incompetentes como CEO de empresas.”

Com o tempo disponível eclipsado pelas responsabilidades familiares e domésticas, “as mulheres acabam por ter uma participação cívica e política menor”, aponta o estudo coordenado por Anália Torres. Logo, “a justiça social e a democracia podem estar em causa”.

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Fora da esfera profissional, mas muito por causa das desigualdades que operam neste campo, as mulheres estão em maior risco de pobreza, são 51% dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção e 59% dos beneficiários do subsídio de doença (números relativos a Dezembro de 2018, retirados da Pordata).  Quanto à violência, quando a pergunta é, como no referido estudo, quem comete crimes de violência contra as mulheres, a resposta aponta para os homens em 75% dos casos. Nestes primeiros meses do ano, vamos em 11 mulheres mortas às mãos dos homens.