Adriano Miranda
Foto
Adriano Miranda

Megafone

O tanto que está por fazer

Os homens são a parte mais importante do problema. Se é sabido que vivemos numa sociedade com um pendor patriarcal, então a responsabilidade de quem tem poder é maior ainda.

Há um punhado de anos, eu julgava que o Dia da Mulher não era mais necessário. A igualdade estava a chegar a níveis sem precedentes, e isso parecia bastar. Acontece que o silêncio é sempre um veículo para pensarmos, também erradamente, que tudo está bem. Contudo, estes últimos tempos de palavras partilhadas nos fóruns públicos fizeram-me perceber que o Dia da Mulher é imprescindível. Mais importante ainda: só um Dia da Mulher não chega.

Não chegam as paradas simbólicas de luto pelas mulheres assassinadas — são precisas leis e respectivas aplicações eficazes que defendam aquelas que estão em risco de ser assassinadas (senhor António Costa, estou a vê-lo a lavar a cara no programa da Cristina Ferreira, mas não acha que precisa de fazer mais para ajudar as mulheres que não são populares e não têm voz na esfera pública?); não chegam as palavras bonitas que escrevemos em jornais — mea culpa —, precisamos de falar e agir em defesa das mulheres fragilizadas; não chegam as indignações que partilhamos nas redes sociais contra Netos de Mouras e assassinatos — é preciso denunciar as pancadas e os gritos que ouvimos nas casas dos vizinhos, dos conhecidos, até dos amigos — estas coisas acontecem com as pessoas do nosso dia-a-dia, por muito que não queiramos acreditar —, temos de retirar o estigma das mulheres agredidas, fazê-las ver que a culpa não é delas, mas sim de quem as ataca. Se nada dissermos, estamos a ser cúmplices, estamos a aceitar que o mal exista. E, como sabemos, o mal é a ausência de bondade.

Não podemos continuar a atirar as mulheres para um papel secundário na sociedade civil. Não podemos, como sugerem por aí, relegá-las para outra divisão e cingi-las ao seu "potencial matrimonial e materno". E quando digo “não podemos”, refiro-me a todos nós, mas, em particular, aos homens. Porque os homens são a parte mais importante do problema. Deixem-me explicar: se é sabido que vivemos numa sociedade com um pendor patriarcal — não o podemos negar, ainda que estejamos a minorá-lo a passos largos —, então a responsabilidade de quem tem poder é maior ainda. Temos de abrir caminho às mulheres, ouvi-las, deixá-las entrar nos nossos clubes outrora exclusivos, olhá-las como pares e não como um ser estranho, dar-lhes destaque e posições de poder. E, nas relações amorosas, libertá-las, nunca subjugá-las. Porque é quando as vemos livres que melhor as podemos amar e admirar. E, se o amor não permanece, então a urgência da libertação é ainda maior.

Mas este trabalho não é exclusivo dos homens, evidentemente. A mulher não pode ficar especada, de braços cruzados, a queixar-se do patriarcado. As mulheres têm de lutar, mais ainda, fazer-se ouvir, ser incómodas, pôr o pé na porta para que ela não se feche. Há muito trabalho a fazer pelos direitos das mulheres, e não falo de ideias inócuas como mudar nomenclaturas e outras semelhantes.

Não me entendam erradamente: estou muito optimista com o caminho que as últimas décadas têm tomado na emancipação total das mulheres. Vivemos tempos muitíssimo interessantes, em que as mulheres têm um papel ainda mais determinante em todos os quadrantes da sociedade. Mas não podemos deixar-nos cair em dois riscos: fazer com que a defesa seja um arremedo de paternalismo e, por outro lado, deixar que o silêncio obstrua a nossa capacidade de mudar mentalidades e comportamentos. Porque, como bem nos ensina a segunda lei da termodinâmica, se nada fazemos, tudo piora. E regredimos.

Sugerir correcção