Há “enorme défice de escrutínio” ao Presidente da República, diz Pacheco Pereira

O antigo vice-presidente do PSD diz que Marcelo Rebelo de Sousa é "o único político amado", cuja imagem é diferente dos últimos 30 anos.

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Rui Gaudêncio (arquivo)

O historiador e comentador político José Pacheco Pereira considerou esta quinta-feira, na apresentação de um livro sobre Marcelo Rebelo de Sousa, que existe um “enorme défice de escrutínio” à actuação do Presidente da República, nomeadamente por parte da comunicação social.

“Há um enorme défice de escrutínio à acção do Presidente”, disse o comentador na apresentação do livro Marcelo - Presidente todos os dias, na qual estiveram os três comentadores do programa da TV 24 Circulatura do Quadrado, que sucedeu à Quadratura do Círculo da SIC Notícias.

Para exemplificar esta afirmação, Pacheco Pereira sinalizou que “o número de notícias hostis sobre o Presidente da República pode ser contado pelos dedos de uma mão”.

A obra, apresentada esta quinta-feira em Lisboa, foi escrita por Felisbela Lopes, investigadora na área do jornalismo, e Leonete Botelho, grande repórter do PÚBLICO.

Numa espécie de recriação do programa, Pacheco Pereira considerou que Marcelo será “o último político amado” e que é “um homem com imensa experiência política e que não nasceu no dia da eleição”.

Na opinião do antigo vice-presidente do PSD, este é “um livro muito simpático”, mas para debater o Presidente da República são necessários “livros menos simpáticos”. Essa simpatia continuou e é visível no facto de “à quarta ou quinta página vir logo com o Presidente dos afectos”.

Mas esta “não era a imagem de Marcelo quando chegou à Presidência”, apontou Pacheco Pereira, acrescentando que o chefe de Estado “foi um político cínico durante 30 anos”.

Apesar disto, Pacheco Pereira disse acreditar que Marcelo Rebelo de Sousa “vai ser reeleito” nas eleições presidenciais de 2021.

“Eu não pretendo dizer mal”, assinalou o comentador, ao que o colega de painel e conselheiro de Estado António Lobo Xavier lhe respondeu: “mas está a conseguir”, o que provocou uma gargalhada na sala.

Lobo Xavier saiu em defesa de Marcelo Rebelo de Sousa quanto à sua genuinidade no que toca aos afectos, vincando que “a agenda [do PR] é incompatível com uma pessoa que não gosta dos outros, que não se preocupa com os outros”.

Na opinião do conselheiro, este “livro não trata só de coisas agradáveis, trata de coisas que não têm sido tratadas suficientemente”.

Para António Lobo Xavier, Marcelo Rebelo de Sousa tem “um enorme poder e uma enorme influência”, podendo ser até “o Presidente com mais poder na vida política portuguesa”, quando comparado com os seus antecessores.

Também o ex-ministro Jorge Coelho esteve na apresentação do livro de Felisbela Lopes e Leonete Botelho. O antigo ministro confidenciou que não votou em Marcelo mas que, “nas actuais circunstâncias”, o apoiará caso se recandidate nas próximas eleições.

“Acho que ele está a ser um extraordinário Presidente da República”, assinalou, não sem advertir que esta imagem de “Presidente dos afectos” pode cansar os cidadãos.

Para Jorge Coelho, existe uma “expectativa criada por ele de resolução de problemas, resolução da vida às pessoas” quando “isso não está nas mãos” do chefe de Estado.

Antes de dar a palavra aos três oradores, e também a Carlos Andrade, que moderou o debate, as autoras registaram que este livro, que começou a ser escrito no verão de 2016, tinha como objectivo fazer uma análise aos três primeiros anos do mandato, com “algum distanciamento”.

“Não tínhamos pretensão de fazer uma biografia”, afirmou Felisbela Lopes, justificando assim o porquê de não terem entrevistado o próprio Presidente.

Leonete Botelho frisou que as autoras foram “sobretudo espectadoras e analistas”.

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