Usar água da chuva e capturar CO2: como se combatem as alterações climáticas na indústria do vinho?

A conferência que traz Al Gore ao Porto arrancou nesta quarta-feira e pôs a tónica na forma como as alterações climáticas afectam a indústria vinícola. As soluções para dar a volta são muitas, e passam sobretudo pela reutilização: seja da água da chuva ou de dióxido de carbono.

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A conferência Climate Change Leadership está a decorrer até quinta-feira na Alfândega do Porto Paulo Pimenta

“É quando se abre a torneira e não se tem água que nos apercebemos do seu valor e importância”, começa por explicar André Roux, que vem da província do Cabo Ocidental, na África do Sul, uma das regiões mais afectadas pela seca. “As alterações climáticas são uma realidade e temos de viver com isso”, assegurou nesta quarta-feira o responsável pela gestão sustentável de recursos na autarquia sul-africana, na conferência Climate Change Leadership, que decorre até quinta-feira na Alfândega do Porto.

A escassez de água e as formas de a contornar na indústria do vinho foram dois dos temas em destaque na conferência promovida pela produtora vinícola Taylor’s, que junta dezenas de especialistas nacionais e internacionais para discutir soluções e tentar tornar esta indústria mais sustentável – em todas as suas fases de produção e distribuição.

Para o investigador da Universidade da Califórnia Roger Boulton, uma das formas de reduzir a pegada hídrica e reduzir as emissões de dióxido de carbono é capturar e filtrar a água da chuva. Tendo em conta que cada tonelada de uvas resulta na emissão de um oitavo de uma tonelada de dióxido de carbono (CO2), este método gasta pouca energia e, desde que haja filtragem, não há preocupação a ter com bactérias e contaminações. Segundo a Water Footprint Network, são precisos cerca de 120 litros de água para produzir 125 mililitros de vinho num clima ameno.

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Os investigadores presentes na conferência alertaram para a importância de não negligenciar as alterações climáticas e para encontrar soluções para tornar a indústria do vinho mais amiga do ambiente, assumindo responsabilidades: “Temos de ser mais honestos, a fermentação tem emissões, sim”, asseverou nesta quarta-feira o investigador norte-americano Roger Boulton, temendo a irreversibilidade do aquecimento global e insistindo no desenvolvimento de técnicas de captura de carbono resultante da fermentação das uvas.

Por base na sua comparação tinha a Leed Platinum, uma “adega sustentável” criada na Universidade da Califórnia em Davis: esta adega tornou-se um exemplo mundial não só pela sua utilização de energia solar e de água da chuva, mas também pela redução e aproveitamento das emissões de dióxido de carbono resultantes da fermentação.

Outra das soluções apresentadas passa pela edição genética das uvas, para as tornar mais resistentes e para adaptar o seu ciclo de amadurecimento às temperaturas cada vez mais altas. Desdramatizando este método, o investigador suíço José Voullamoz comparou a edição genética ao Photoshop, mas reconhece que “isto não é levado de forma leviana pela sociedade em geral” – é, portanto, preciso reduzir o estigma e admitir que esta solução pode ajudar a salvar certas castas de uva, como a Pinot Noir.  

Uma preocupação transversal repetida em todas as palestras foi a forma como as alterações climáticas têm vindo a afectar a indústria vinícola: o aumento da temperatura tem condicionado as etapas de amadurecimento das uvas, a seca tem-se tornado mais preocupante e isso reflecte-se até nos incêndios, que se têm acentuado com o aumento da temperatura global e têm destruído vinhas. Ainda assim, tira-se uma certeza: “as alterações climáticas são tanto uma ameaça como uma oportunidade para o sector vitivinicultural”, afirmou o chileno director de viticultura da Organização Internacional da Vinha e do Vinho, Alejandro Fuentes Espinoza. Só é preciso adaptar.

Na edição deste ano da Climate Change Leadership, o grande convidado é o antigo vice-Presidente norte-americano e activista ambiental Al Gore, que falará na quinta-feira, assim como outros nomes conhecidos do activismo ambiental: o advogado que fez a maior limpeza de praia, Afroz Shah, ou o responsável sueco pelos hambúrgueres “amigos do ambiente” da Max Burgers, Kaj Torok.

No ano passado, a conferência ganhou destaque pela presença do antigo Presidente norte-americano Barack Obama – que continua a fazer das alterações climáticas uma das suas bandeiras, tendo alertado nesta terça-feira, no Canadá, para a forma como a luta para travar o aumento da temperatura global resultará num panorama político mais tóxico.