Cuidados continuados vão apostar em unidades de dia e de promoção da autonomia

Serão unidades vocacionadas para a reabilitação e treino cognitivo para a prevenção de demências. Novos coordenadores da Rede Nacional de Cuidados Continuados querem ter experiências-piloto a funcionar já este ano. Também haverá aumento nas camas de internamento.

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Rui Gaudêncio

Os novos coordenadores da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) querem avançar ainda este ano com projectos-piloto de unidades de dia e de promoção da autonomia. Uma espécie de centros de dia vocacionados para a reabilitação e treino cognitivo para a prevenção de demências, permitindo que os utentes possam estar em casa e que os cuidadores tenham tempo para si. Esta é uma das formas de melhorar a resposta da rede, que este ano terá também um incremento de camas de internamento.

“Queremos aumentar a rede nas suas diferentes dimensões, tendo um foco muito especial nas respostas que permitam a proximidade das pessoas à sua vida familiar e à sua residência. Mas o universo de utentes é tão grande, que temos obrigatoriamente de criar respostas de internamento de diferentes tipologias para que possamos cobrir o mais possível as necessidades da população”, diz ao PÚBLICO Ana Gomes, coordenadora da RNCCI em representação do Ministério do Trabalho e Segurança Social.

Uma das apostas dos últimos anos tem sido o reforço da resposta domiciliária. Miguel Fausto da Costa, que representa do Ministério da Saúde e reparte com Ana Gomes a coordenação nacional, explica que esta pode ser vista de duas perspectivas. “O utente fica no seu domicílio com um cuidador e isso hoje em dia já acontece. O apoio é prestado no âmbito dos cuidados de saúde primários pelas equipas de cuidados continuados integrados. São cerca de seis mil utentes. Mas também está prevista uma outra tipologia, que nunca avançou, que são as unidades de dia e de promoção da autonomia. Que queremos muito que avancem já este ano”, diz.

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O também enfermeiro-chefe do IPO de Lisboa explica o conceito. “São uma espécie de centro de dia, mas direccionados para as questões da reabilitação. A pessoa continua no seu domicilio, mas durante o dia pode deslocar-se a esse centro que terá uma equipa alargada de profissionais na área da reabilitação e também na área do treino cognitivo para prevenção de demências. Ajudam na reabilitação e de alguma maneira promovem algum descanso do cuidador.” Algumas destas unidades poderão vir a estar mais vocacionadas para a demência.

“A ideia é que estas unidades estejam na proximidade ou até na gestão das entidades promotoras das unidades de longa duração e manutenção ou das unidades de média duração e reabilitação”, acrescenta Miguel Fausto da Costa, referindo que a ideia é avançar “com poucas unidades-piloto para afinar um pouco o modelo”. As condições para testar no terreno estão “praticamente criadas” e no Alentejo quatro unidades já se mostraram interessadas em participar. O número de projectos-piloto ainda não está definido, mas Ana Gomes, que é psicóloga de formação, diz que pretendem que exista “uma representação quase distrital”, testando a oferta em “espaços de urbanidade, noutros mais rurais e noutros de interior”.

Meio milhão de utentes

Desde 2006, “já passaram pelas respostas de internamento da RNCCI cerca de meio milhão de pessoas”, afirma Miguel Fausto da Costa, que assume que a oferta nesta componente tem de crescer. “Vamos aumentar a rede, em 2019, em mais 1023 camas. Na rede geral [internamento de adultos/idosos], o que está previsto neste momento são mais 509 camas.”

As restantes são de cuidados continuados na área da saúde mental. “Está assegurada a prorrogação por mais 18 meses das experiências-piloto. A área da saúde mental dos adultos tem uma falha enorme. Temos de ter respostas de apoio moderado, de apoio máximo, de treino de autonomia, residências autónomas”, acrescenta Ana Gomes, que salienta “a necessidade de respostas na infância e juventude”, que ainda está a descoberto.

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A região de Lisboa, que é uma das mais deficitárias em internamento, “vai levar um incremento grande”, diz Miguel Fausto da Costa, recordando os projectos já acordados com a Misericórdia de Lisboa no antigo hospital da Estrela e no hospital Pulido Valente. Ana Gomes salienta que criar unidades na capital “é mais caro”. “É importante referir a questão da especulação imobiliária. O envolvimento da Câmara de Lisboa é fundamental”, reforça Miguel Fausto da Costa.

Ana Gomes diz que “há um grande caminho a fazer de motivação” para que mais entidades adiram à RNCCI, de forma a que surjam novas unidades e se reforcem as já existentes. Outra das grandes apostas, salienta a coordenadora, “é a qualificação das respostas, para que tenham um foco muito grande na qualidade dos cuidados prestados, sendo o utente o actor principal de todo este processo”.

Este trabalho poderá passar “por uma revisão de critérios de qualidade e acompanhamento grande às unidades, com uma motivação muito grande para que haja não só uma arquitectura, mas também um ambiente favorável e um grande respeito por planos individuais de cuidados”. O foco é também o de que “a pessoa cuidada também tem uma palavra activa a dizer”, diz Ana Gomes, que destaca que “a participação e o trabalho das equipas das unidades tem de ser muito valorizado”.