Torne-se perito Crítica

Lav Díaz: cinema que não cessa de chamar a atenção sobre si próprio

Singular, sim, esta estreia comercial de Lav Díaz em Portugal, mas que deixa de entusiasmar a partir do momento em que encravamos num declive entre a pose (o gesto arty) e o sentido da sua necessidade.

<i>A Estação do Diabo<i>: gesto arty
Fotogaleria
A Estação do Diabo: gesto arty
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

A Estação do Diabo é o primeiro filme de Lav Díaz a ter exibições comerciais em Portugal e, com as suas três e quarenta minutos de duração, também um dos mais “curtos” filmes de um cineasta que se tornou conhecido e cultivado (como um dos avatares do slow cinema, essa expressão que só se consegue escrever com muitas aspas e os dentes a ranger) pela habitualmente longuíssima extensão das suas obras. O “diabo”, aqui, é o actual presidente filipino, Rodrigo Duterte, evocado sem nome mas de forma quase expressa nas legendas iniciais, e “projectado” numa história que se passa no princípio dos anos 80, durante a vigência do regime de Ferdinando Marcos, num tempo em que nas florestas e regiões rurais das Filipinas se desenrolava uma guerra sem quartel entre milícias afectas ao statu quo e rebeldes comunistas. Particularidade narrativa: os diálogos são por norma “cantados”, num misto de ópera rock com grande fresco folk, e por diversas vezes o canto dispensa a narrativa, ficando apenas longos blocos musicais, numa atmosfera que tanto pode ter a assombração decadente (os bares, os cabarets) de certos momentos musicais em Fassbinder como remeter para a raiz popular de alguns filmes de Straub e Huillet, aqueles rodados em bosques com uma troupe de actores amadores. Mal comparado, certamente, mas que isso nos ocorra (pensar em Fassbinder e Straub/Huillet no mesmo filme não acontece em todos) também dá uma boa medida da singularidade do objecto.

Singularidade que não se nega, mas que pára de entusiasmar a partir do momento em que encravamos num declive entre a pose do filme (o gesto arty a criar a superfície, o preto e branco muito cuidado, as grandes angulares a distorcerem o espaço) e o sentido da sua necessidade. Mais do que isso, e mais do que apenas slow, é um cinema que parece tratar o tempo de forma apenas cumulativa: os blocos sucedem-se, mas com a sensação de que apenas isso, sucedem-se, uns mais interessantes do que outro, mas sem se criar um sentido de estrutura forte ou palpável, e sobretudo sem que se intua uma relação necessária entre a forma e a durée (o que é, para citar um nome frequentemente referido a propósito de Diaz, totalmente diferente do que acontece nos filmes de Béla Tarr, onde por regra não se pode dissociar estrutura e duração). Portanto: um objecto certamente pouco habitual, cuja experiência recomendamos – com cautela – especialmente a quem nunca tenha visto nada de Díaz, mas que também convida, da nossa parte, a uma certa frieza, e mesmo exasperação, como aliás é frequente neste cinema da hipertrofia e do gesto que não cessa de chamar a atenção sobre si próprio.