Crítica

Harriet Brown sob o signo de Prince

O segundo longa-duração de Brown é mais um capítulo de uma obra obsessiva que se advinha talhada para grandes voos.

Um nome ainda marginal (demasiado), tem tudo para ser um dos criadores mais estimulantes dos próximos anos
Foto
Um nome ainda marginal (demasiado), tem tudo para ser um dos criadores mais estimulantes dos próximos anos

Defeito, obviamente, nunca poderia ser: a profunda influência de Prince em toda a proposta do californiano de ascendência filipina Harriet Brown, em tempos estudante de arquitectura, é feitio que o próprio assume despudoradamente quando se afirma filho do génio dos saltos altos e de Sade. Algo que, já pressentível em Contact, LP de 2017 (roxa era a capa, pois claro…) que sucedeu à estreia em New Era EP (2013), sai agora reforçado de Mall of Fortune, cuja marca vincadamente autoral, laboriosa (multi-instrumentalista, é Brown quem produz, arranja, toca, canta e escreve tudo aquilo com o que o ouvinte se depara), convive, por vezes de forma demasiado conflituosa, com essa omnipresente sombra de Prince (por definição, a sombra, se protege, também retira brilho). Mas, ao contrário do que por vezes se ouve a determinados músicos que se dizem “influenciados” por X ou Y, mostrando-se tal referência tão vaga que passível de substituição por um qualquer outro nome da mesma família, aqui, o caso é (muito) mais sério: apertando o play de Mall of Fortune, rapidamente se percebe como o americano escutou — mais do que isso: estudou — aturadamente o som de Prince, de tal forma ele está entranhado em praticamente tudo o que se lhe ouve.

Da vulnerabilidade sexy que imprime aos falsetes às modulações distintas nos graves (ou simplesmente, no modo repentino como, de um momento em que está a puxar pelos agudos, transita para um registo grave falado, quase rappado), das guitarras eléctricas ora funky, ora rockeiras que assomem inesperadamente a fechar uma malha ao aventureirismo na experimentação de sons e arranjos, enfim, do próprio timbre (!) da sua vocalização a todo o seu mantra ultra-romântico (e “androgenizado”) — tudo nos situa, de facto, no património de The Artist. Se bem que maculado por uma indisfarçável overproduction (demasiados, desnecessários, arranjos e ideias na mesma faixa), Mall of Fortune revela-se um conjunto de canções muitíssimo sólido, coeso, embora até acabe talvez por ser esse um dos seus pontos menos positivos: um resultado-de-conjunto demasiado regular, sem picos, carente de momentos catchy ou orelhudos, ou de um single mais forte — enfim, nada que nos agarre pelos colarinhos, nos interpele desesperadamente, que nos vicie (ironicamente, um sossego que nenhum trabalho de Prince jamais consente ao ouvinte). Por essa razão é que aqui não se encontra nenhuma canção do nível de Mother, Atlantis ou Obsession, todas inscritas em Contact (as que disso mais se aproximam talvez sejam Shower Up, Saddle Up, Outerworld, Method, Driver’s Seat), outra forma de dizer que, de facto, e com excepções pontuais, o LP anterior acaba por nos parecer, em termos globais, mais interessante do que este disco — o que diz muito, portanto, do quanto de prometedor, fascinante mesmo, nele já existia. E a isso não será alheio o facto de que a influência de Prince, embora já então latente, fosse bem menos intensa, com isso permitindo a emergência de um som, de uma voz, próprios.


Que isso não nos faça de perder vista, porém, o que de extremamente valioso sobrevive deste disco, e que se pode resumir nesta ideia de que, efectivamente, nenhuma má canção se vislumbra nesta burilada peça de R&B, funk e (neo)soul (mas também de electro, o de Holy Place ou Paper), mais devedora dos 90s do que Contact era dos 80s. Por aí se posicionando, sonicamente falando, num lugar à parte: nem próximo do R&B e trap contemporâneos, nem revivalista do R&B dos anos 90 (movimento actualmente em força e, em certa medida, “de reacção” à primeira das tendências referidas). Eis Brown, alguém que, mais do que “orgulhosamente só”, orgulhosamente singular — ele que do one-man-show ao vivo (cantando e tocando múltiplos instrumentos, recusando sempre o recurso aos bem mais práticos laptop com que tanta respeitável gente se apresenta em público) passou, actualmente, para uma bem apetrechada banda. Diríamos, por isso, que, libertando-se da excessiva preponderância de Prince (“A ‘Sign O’ The Times’ for our times”, pode ler-se na nota de apresentação do disco…), Brown, hoje um nome ainda marginal (demasiado), tem tudo para ser uma das vozes, dos sons, dos criadores mais estimulantes dos próximos anos — vejamos o que a fortune lhe reserva.