Enfermeiros trocam almoço por solidariedade a sindicalista em greve de fome

Enfermeiros de diferentes centros hospitalares saem à rua para apoiar a greve de fome do presidente do Sindepor. A "greve cirúrgica" mantém-se até ao final do mês.

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No Hospital de São João, no Porto, dezenas de enfermeiros fizeram um cordão humano INÊS FERNANDES

O presidente do Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal (Sindepor), Carlos Ramalho, iniciou esta quarta-feira ao meio-dia uma greve de fome, como protesto contra a reacção do Governo à greve dos enfermeiros. Ao presidente do Sindepor juntaram-se vários enfermeiros dos hospitais e centros de saúde do país, que saíram à rua à mesma hora em apoio solidário de Carlos Ramalho.

No Hospital de São João, no Porto, o apoio fez-se sentir através de um cordão humano que dezenas de enfermeiros formaram em frente do centro hospitalar.

Filipe Couto, enfermeiro no bloco de oftalmologia, aproveitou o prolongamento da sua hora de almoço, graças a uma cirurgia que acabou mais cedo, para se juntar ao cordão. De estômago vazio, o enfermeiro de 44 anos explica que, dos 12 enfermeiros que trabalham no bloco de oftalmologia, “dez estão a trabalhar de forma coagida, ou seja, vêm trabalhar porque não querem ter problemas”. Filipe Couto diz que os enfermeiros receberam um e-mail do hospital que anuncia faltas injustificadas para quem aderir à greve.

A segunda “greve cirúrgica”, que iniciou a 31 de Janeiro e se prolonga até ao final do mês de Fevereiro, afectou dez centros hospitalares espalhados pelo país. Na génese da greve estiveram dois grupos – o Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal (Sindepor) e a Associação Sindical Portuguesa dos Enfermeiros (ASPE). A ASPE tomou esta terça-feira a decisão de suspender a greve, mas o Sindepor manteve a paralisação, com o seu líder a iniciar uma greve de fome que se manterá, garantiu, até retomarem as negociações com o Governo.

“Nós ousamos desafiar o Governo”, exclama Sandrine Duarte, enfermeira no bloco operatório do Hospital de São João, presente no cordão humano. “O Governo deu uma ordem e nós não aceitamos.”

Apesar de o meio-dia não ser a hora ideal para o protesto, visto que “as pessoas não podem sair dos serviços” (“É muito complicado, não podemos abandonar os doentes”), isso não impediu a massa de enfermeiros que se juntou em apoio do colega Carlos Ramalho, afirma ao PÚBLICO Sandrine Duarte.

Fernanda Cunha, outra enfermeira no bloco operatório que não se encontrava em serviço, mas veio marcar presença para mostrar solidariedade e apoio ao movimento, relata o caso de um colega que “está a trabalhar em mínimos e tem uma falta injustificada”. Para a enfermeira, trata-se de uma coação que está “a ser levada ao expoente máximo”, mas que não impede a greve de continuar.

Na sexta-feira, a paralisação dos enfermeiros foi considerada “ilícita” pelo Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República (PGR), devido à sua forma de financiamento (crowdfunding) e de o pré-aviso não coincidir com a greve realizada.

Apesar do final da “greve cirúrgica” já na próxima semana, a enfermeira lembra que os enfermeiros convocaram uma greve geral para 8 de Março e ainda uma greve de zelo, a iniciar no mesmo mês, que consiste em trocar os registos informáticos das cirurgias por registos no papel.

Texto editado por Pedro Rios