Conan Osíris
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Conan Osíris Nuno Ferreira Santos

Megafone

A estima em odiar Conan Osiris

Conan Osiris não é a melhor coisa que a pop portuguesa já viu nascer – é cedo para afirmar uma coisa dessa envergadura —, mas também não é uma merda.

Eram duas da madrugada de uma sexta-feira recente quando ouvi o novo álbum de uma das minhas bandas favoritas. Estava entusiasmado e as expectativas eram elevadas, mas, à quarta música, eu fervia de raiva: aquilo não era a banda a que eu estava habituado. A emoção à flor da pele queria fazer-me sentenciar, de viva voz, que aquele álbum era, afinal, uma merda. Só porque eu não gostava dele. Dormi sobre o assunto e regressei ao disco no dia seguinte.

Os Bring Me The Horizon são cinco rapazes de Sheffield, em Inglaterra, e têm passado boa parte da carreira metidos em controvérsia. Por um lado, revestem-se dos preceitos habituais de uma banda de heavy metal — gritaria valente, guitarras com afinações sustentadas em tons mais graves do que aqueles que são habituais noutros géneros, baterias robustas e velozes —, por outro, imiscuem-se de sonoridades mais ligadas à pop. Dentro do metal, há quem diga que são muito leves. Dentro da pop, há quem diga que são demasiado pesados. Eles próprios costumam definir-se assim: “não somos a banda mais pop do metal, somos a banda mais metal da pop”. Neste último álbum, amo, levam a pop ao extremo e não dá para perceber ao certo o que aquilo é. Muitos fãs abandonaram-nos, em debandada, e os BMTH chegaram a novos públicos, mais habituados a outro tipo de sons, semelhantes ao rejuvenescido Justin Bieber e a Post Malone. Ainda assim, a sonoridade metal persiste, num álbum que desconforta e nos deixa montes de perguntas na cabeça: perderam o talento?, enlouqueceram?, as drogas começaram a fazer efeito?, o que é um género musical?, as bandas têm de obedecer a géneros, ou são os géneros que catalogam a arte?

Boa parte dos portugueses tem uma certa estima em odiar Conan Osiris. Já o havíamos visto em várias ocasiões recentes, este último sábado foi só mais uma. As redes sociais encheram-se de fotografias do artista em palco, na primeira semifinal do Festival da Canção RTP, e, entre sátiras e demonstração de asco assumido, abriu-se uma guerra entre fãs e haters. De um lado, há os que acham que é a melhor cena que se inventou desde que foram criadas as barritas de cereais; de outro, aqueles que deram a mesma sentença que eu havia dado à minha banda de eleição: é uma merda. Como em todas estas cisões de opinião, dá-se o caso de nenhum dos lados ter razão. Conan Osiris não é a melhor coisa que a pop portuguesa já viu nascer – é cedo para afirmar uma coisa dessa envergadura —, mas também não é uma merda.

Comecemos pelo ódio: as críticas que pude ver por aí assentavam em três eixos. Talento (ou a falta dele), a pessoa/personagem e, a mais importante de todas, o gosto. Quem afirma que falta talento a Conan Osiris pouco ou nada percebe de artes performativas. O rapaz encontrou um estilo que não tínhamos visto até agora em Portugal e conseguiu construí-lo e sublimá-lo a um ponto que toda a imagética seja tão forte quanto a música. Depois, as críticas sobre a pessoa, ou a persona: é habitual ver quem teça comentários xenófobos ou homofóbicos, mas também quero crer que o asco não se resume a essas ideias básicas e idiotas. Creio que, para quem critica Conan Osiris, a maior força motriz seja a estranheza e o desconforto causados por ele – e não é isso a boa arte, que nos desafia e coloca em causa aquilo que achávamos que estava certo e descoberto?

Finalmente, há a questão do gosto: “Como não gosto, é uma merda, não presta, é acabar com isto.” É muito frequente observarmos este tipo de confusão na cabeça de quem consome um produto artístico, seja ele um filme, uma música, uma peça de teatro ou um livro. Há a confusão clara dos conceitos de qualidade e de gosto. Muita gente não consegue perceber que, apesar de não gostar de Dan Brown ou António Lobo Antunes, ambos os textos estão extremamente bem construídos, embora se dirijam a públicos totalmente diferentes. O mesmo para o cinema: há filmes esteticamente irrepreensíveis, com uma narrativa imaculada, e mesmo assim é possível não se gostar deles. Mas isso não significa que sejam maus; significa, isso sim, que não gostamos, porque as nossas referências não têm um gancho emocional nessa obra cinematográfica em particular.

Pessoalmente, não gosto da música de Conan Osiris. Não por achar que não tem talento (porque tem, e muito) ou por não gostar da persona que construiu, mas apenas porque os nossos universos estilísticos não têm pontos de contacto – ao contrário, recuperando o exemplo, com o que aconteceu com amo, que, embora esteja pejado de pop e electrónica, continua a utilizar frases melódicas, temáticas e sonoridades próximas do metal. Mas o meu gosto não pode ter a presunção de querer sentenciar a qualidade de um artista. Se eu não gosto, isso não é definitivo sobre a qualidade de um determinado produto artístico, porque o meu gosto não está acima do de ninguém. A legitimidade que é conferida ao artista por quem gosta e elogia aquele estilo dá-lhe um colete à prova de bala perante as críticas: se há público, o artista ganha força e tem razão de existir. E ainda bem.