Isabel Jonet: “A nossa sensibilidade é que há mais pedidos”

A presidente do Banco Alimentar contra a Fome, Isabel Jonet, diz que quem anda no terreno sente que há mais pedidos. Em 2018 chegaram 184 à instituição que dirige.

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FTX Fabio Teixeira

A presidente do Banco Alimentar contra a Fome, Isabel Jonet, não sente que os pedidos de ajuda que chegam a esta entidade estejam a diminuir. Muito pelo contrário. “A nossa sensibilidade é que há mais pedidos. Temos uma grande proximidade com o terreno e o que sentimos é que além de haver mais pedidos às instituições, há mais salários penhorados e continuamos a sentir que muitas instituições voltaram a ter uma sobrecarga”, diz.

As estatísticas divulgadas pelo próprio Banco Alimentar parecem não confirmar esta situação. Se é certo que em 2017 (último ano para o qual há dados disponíveis) o número de instituições apoiadas subiu ligeiramente em relação ao ano anterior – 2658, contra 2505 em 2016 –, o número de pessoas assistidas pelos bancos alimentares desceu com mais expressão, nos mesmos períodos. De 421.493 pessoas apoiadas em 2016, passou-se para 370.155 em 2017, o número mais baixo dos últimos anos, só ultrapassado pelos valores de 2011, quando os bancos alimentares apoiaram 328.921 pessoas.

Isabel Jonet diz que os dados não podem ser lidos de forma tão simples, porque o facto de os bancos alimentares apoiarem menos pessoas não se prende com uma diminuição de pedidos de ajuda, mas sim com menos bens disponíveis para entregar. “Há menos excedentes de produção. Tínhamos muitas frutas e legumes que resultavam do embargo da Rússia às importações da União Europeia. Tivemos de reduzir o número de pessoas apoiadas”, diz. Segundo os dados que constam da página digital do Banco Alimentar, a entrada de produtos nestes espaços desceu de cerca de 26 mil toneladas, em 2015, para 23.389 toneladas no ano seguinte. Contudo, em 2017, o valor voltou a subir, para as 25.400 toneladas de produtos. Ou seja, neste ano, apesar de um aumento de cerca de duas toneladas de produtos recebidos pelos bancos alimentares, estas estruturas apoiaram menos cerca de 51 mil pessoas do que no ano anterior.

Apesar de não existirem dados globais para o ano passado, Isabel Jonet mantém que o número de pedidos de ajuda subiu, sobretudo “a seguir ao Verão”. “Começamos a sentir um aperto, uma pior situação das famílias. Estão a queixar-se mais e, apesar de podermos pensar que os números do desemprego não têm piorado, até melhoraram, o que sentimos no terreno não é isso”, diz a presidente do Banco Alimentar, avançando que isto se poderá justificar, eventualmente, “pelo facto de haver mais pessoas sem trabalho que não são contabilizadas nos números do desemprego.”

Dados objectivos que suportem esta “sensibilidade” são ainda irrelevantes. “Isto só se pode medir daqui a seis meses ou um ano”, afirma. Por enquanto, os dados que o Banco Alimentar possui e que foram fornecidos ao PÚBLICO indicam que em 2018 foram encaminhadas para estas entidades “184 pessoas”, 68% das quais eram mulheres, tendo havido “um acréscimo nos últimos três meses” do ano. Em 2017 o número de pedidos foi de 165 e em 2016, 189.

No ano passado, em 30% dos casos estavam em causa pessoas “que vivem do trabalho”, enquanto 34% sobreviviam à custa “de algum subsídio”. A mesma fonte indica, sem contabilizar, que “algumas pessoas pedem apoio para um momento pontual da sua vida, ou porque aguardam o primeiro salário (começaram a trabalhar) ou porque aguardam a atribuição do RSI [Rendimento Social de Inserção]”. Há também casos de pessoas “em situação de doença” e entre as pessoas que trabalham, há “uma parte” que tem filhos a cargo, “pelo que o ordenado não é suficiente”.

Ao PÚBLICO, a secretária de Estado da Segurança Social, Cláudia Joaquim, diz desconhecer a informação que o Banco Alimentar possa ter. “Admito que possa haver um aumento”, diz, ressalvando que os dados que possui, decorrentes dos vários apoios ligados à Segurança Social, é que “tem havido uma estabilização”.