Aliança diz que “não há tempo" para discutir moções no congresso além da de Santana

Militante denuncia a existência de uma “máquina partidária feita para um determinado resultado, fechando as portas a militantes que pretendam apresentar alternativas”

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Pedro Santana Lopes à porta do Tribunal Constitucional Nuno Ferreira Santos
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Celso Nunes DR

Há uma polémica a marcar o primeiro congresso da Aliança que decorre este fim-de-semana, em Évora. Celso Pereira Nunes, que escolheu o partido fundado por Pedro Santana Lopes para se estrear na militância partidária, escreveu uma moção de estratégia global e espera que o partido abra as portas do congresso para discutir as ideias e as propostas que tem para o país e para a Europa.

Mas o partido, pela voz do director executivo, Luís Cirilo, declara que “não há tempo” para discutir documentos estratégicos além do da direcção do partido e avisa que quem apresentar uma moção de estratégia terá de apresentar uma candidatura à liderança do partido, subscrita por uma centena de militantes. “Temos de aprovar programa, hino do partido, estatutos e regulamento eleitoral. Fora isso, só há a moção de estratégia do presidente do partido. Se calhar, no futuro, haverá essa discussão, mas não neste congresso", esclarece o director executivo da Aliança.

Celso Nunes, professor universitário, confessa que o que o levou a inscrever-se no novo partido político foram os princípios e os valores que estão na génese da sua fundação, mas depressa percebeu que o propagado “pluralismo, democraticidade interna, transparência e promoção da participação directa e activa dos militantes” não passam de retórica, porque, afinal, “o aparelho do partido está muito fechado”.

O militante número 112 esperava “total abertura” da máquina partidária para acolher contributos dos militantes, mas teme que isso não vá acontecer. “Em lado nenhum estava escrito que eram precisas 100 assinaturas para quem quisesse levar ao congresso uma moção de estratégia global”, insurge-se, afirmando que tentou “várias vezes” contactar o partido para o informar de que queria apresentar uma moção alternativa à da direcção. “Só esta terça-feira é que consegui falar com alguém do partido, uma senhora que está lá há pouco tempo e a quem disse que ia apresentar a moção de estratégia", conta, garantindo que já enviou o texto através do site do partido e do site do congresso.

Refutando a ideia de que “é bom para um partido estar associado só a uma pessoa”, Celso Nunes, de 45 anos, assume ter opiniões diferentes das do líder em matéria de União Europeia ou em questões ambientais, por exemplo, e revela que foi com base nessa divergência que começou a construir a ideia de apresentar uma moção de estratégia global. Aliás, conta, foi nesse sentido que abordou há cerca de um mês o líder da Aliança e também o director executivo.

“No dia 13 de Janeiro estive em Leiria, numa reunião da Aliança, e abordei o presidente dando-lhe conta de que o regulamento do congresso só previa a discussão da moção de estratégia global do líder e aproveitei para lhe dizer que era necessário que o congresso estivesse preparado para discutir mais do que uma moção”, relata.

A partir dessa altura conta que tentou, sem sucesso, contactar a Aliança. “Fui confrontado com um silêncio total ao qual reajo com muita preocupação”, denuncia, convicto de que "existe uma máquina" que fecha "as portas a militantes que pretendam apresentar alternativas."

Celso Nunes defende um “tratamento igual” entre militantes e presidente do partido e evidencia a necessidade de aproveitar a reunião magna para discutir ideias no plano da política europeia, mas também no âmbito das questões ambientais, de saúde, da educação, diferentes das da direcção.

Ao PÚBLICO, o professor universitário garante que não vai desistir da vontade de levar a sua moção ao congresso, embora reconheça que isso lhe exigir um “esforço muito grande” para arranjar as 100 assinaturas. “Uma centena de assinaturas é um número demasiado elevado”, diz, admitindo tratar-se de uma “luta entre um pequeno militante contra um gigante”.

Referindo-se a Santana Lopes, o autor da moção de estratégia global "Desenvolver Portugal" destaca-lhe o percurso e enaltece-lhe a popularidade, mas confessa que gostaria de “contribuir para que as pessoas na política deixem de ser escolhidas apenas pela popularidade que têm”. E até acredita na capacidade de Santana para levar o partido a “ter bons resultados” nas eleições, mas observa: “Entendo que tenho ideias mais adequadas para o país e para a Europa. Se não achasse, não tinha preparado uma proposta alternativa".

Celso Nunes distancia-se da posição do candidato que lidera a lista da Aliança às eleições europeias, Paulo Sande, especialista em assuntos europeus, e assume-se como um federalista. Já nesta matéria, o director executivo da Aliança assume apenas que o partido espera eleger "pelo menos" dois eurodeputados no dia 26 de Maio.