“Precisamos de captar novas populações para Marvila”

Câmara municipal e junta de freguesia apostadas em resolver o problema de habitação da classe média e, ao mesmo tempo, regenerar os bairros. Mas os moradores actuais pedem mais atenção.

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Nuno Ferreira Santos

O edifício da Junta de Freguesia de Marvila, inaugurado há dois anos na Avenida Paulo VI, domina a colina do Vale Fundão e dali vê-se a Outra Banda, o Tejo largo, o Braço de Prata. O arquitecto João Gomes, da Unidade de Intervenção Territorial Oriental (UITOr) da câmara de Lisboa, propõe que no topo do prédio se ponha um cartaz que diga às pessoas do lado de lá que Marvila é o sítio para morarem.

“Isto é o centro da Área Metropolitana de Lisboa”, argumentou o arquitecto num seminário realizado esta terça-feira. “Há aqui muito espaço para ocupar, desde casas devolutas a espaço vago”, disse.

“Marvila: e agora?” era o tema deste encontro promovido por um investigador do projecto europeu Rock, que procura aliar o património cultural à regeneração urbana, para se discutir as actuais e futuras mudanças da freguesia. A proposta do cartaz pode ser apenas blague, mas vários oradores coincidiram na ideia de que é preciso atrair novas pessoas para Marvila.

“Dentro de três, cinco, dez anos teremos mais população aqui na freguesia”, previu João Gomes, alegando que “este território tem mais coisas do que outros” e que há que lhes dar valor. “O Parque das Nações não tem uma biblioteca”, exemplificou. “O Parque das Nações não tem um ringue e aqui em Marvila há três ou quatro por bairro”, disse ainda. E congratulou-se com os investimentos em curso na “downtown Marvila”, onde estão a surgir “montes de coworks, bares e restaurantes, cervejarias, a urbanização Prata, ateliers e galerias, o Parque Ribeirinho Oriente”.

O presidente da junta, José António Videira, tinha também já dito que atrair moradores é uma prioridade. “Felizmente temos muitos espaços para construir”, afirmou o autarca. “Precisamos de captar novas populações, fazer de Marvila uma freguesia cada vez mais jovem.”

Os discursos chocaram com algumas intervenções do público. “É escusado pôr-se o cartaz porque aqui não consegue casa. Há centenas de casas fechadas. Eu não sou contra fazerem casas. Mas porque é que não se faz primeiro a ocupação das casas que estão fechadas?”, questionou Cristina Santos, moradora da freguesia. “Para que vão trazer gente de fora se não tomam conta dos que estão cá dentro? Querem casais jovens? Eu sou jovem. Tenho 28 anos e três filhos. Tenho uma ordem de despejo. Quero ficar em Marvila, foi aqui que cresci”, afirmou outra pessoa.

“A câmara tem feito um grande investimento na reabilitação de casas", respondeu Miguel Brito, do Departamento de Desenvolvimento Local da câmara. "Há um investimento enorme. Tem acontecido de forma maciça. Mas não fica tudo feito em meia dúzia de dias." 

"Marvila sempre teve a tradição de receber pessoas", acrescentou João Gomes. “É lógico que temos de nos preocupar com as pessoas daqui, mas mais cedo ou mais tarde vamos ter essa pressão [de pessoas de fora].”

“Depois vêm dizer que temos cervejarias. Que me interessa a mim? Aqui precisamos de uma zona verde para as nossas crianças brincarem em segurança”, afirmou ainda Cristina Santos.

Recentemente, um dos projectos que ganhou o Orçamento Participativo de Marvila foi a criação de um espaço verde no bairro dos Alfinetes – previsto para um local onde a câmara quer construir prédios do Programa de Renda Acessível. “Se queremos ter renda acessível, também temos que ter espaços verdes e equipamentos”, disse Miguel Brito. “O desafio é fazer a conciliação.”