Opinião

"Genocídio de Srebrenica"

Uma mentira repetida cem vezes, mas que não se torna verdadeira. Mesmo durante o período em que aqueles que estavam no poder na Sérvia entregaram todos os sérvios a Haia, Srebrenica foi declarado como crime, mas não como genocídio.

Foi publicado no jornal PÚBLICO, no “período nobre” do final do ano, um artigo de duas páginas (16-17), com uma chamada que ocupa metade da primeira página, intitulado "Há cada vez mais gente a negar o genocídio de Srebrenica".

A primeira coisa que me chama a atenção é que todo o texto se baseia apenas em fontes bósnio-muçulmanas ou muçulmanas": “diz Hikmet Karčić"; "Hikmet Karčić, que investiga genocídios"; "Al Jazeera"; "Emir Ramić, DireCtor do Instituto de Investigação sobre Genocídio do Canadá", etc.

No entanto, uma das regras básicas em que a lei se baseia é a de audiatur et altera pars, ou seja, o outro lado também deve ser ouvido, e isto tem sido muitas vezes negado ao lado sérvio!

Hoje quase ninguém sabe que a guerra na Bósnia e Herzegovina começou com o ataque e assassinato de convidados de um casamento sérvio em Sarajevo; ninguém se lembra mais (excepto os portugueses) de que a guerra acabou efectivamente com a aceitação do plano de paz de Cutileiro pelos lados envolvidos, embora o líder muçulmano Alija Izetbegović se tenha afastado do plano de paz assinado, tal como é sugerido por algumas potências ocidentais; de que o lado muçulmano rejeitou a oferta sérvia para um cessar-fogo quando Sarajevo foi cercado, etc.

No que diz respeito a Srebrenica, se tivesse havido uma premeditação, condição necessária para a existência de um acto de genocídio, o exército sérvio teria cercado Srebrenica e não teria deixado ninguém sair da área. No entanto, Srebrenica foi atacada em duas frentes (sul e leste), tendo sido deixados dois corredores (a norte e a oeste) para os muçulmanos se retirarem. O exército bósnio-sérvio forneceu dezenas de autocarros e carros para a evacuação (em 12 e 13 de Julho) de 17.000 crianças, mulheres e idosos para territórios muçulmanos, sendo que muitos deles decidiram ir para a Sérvia(!), onde chegaram e onde vivem ainda hoje em segurança! O número de mortos em Srebrenica nunca foi determinado com exactidão por razões que se prendem com as operações de guerra, a discrepância interna do exército muçulmano e a execução de alguns prisioneiros de guerra. Há ainda que ter em conta o facto de que 3000 pessoas que haviam sido declaradas desaparecidas em Srebrenica apareceram posteriormente inscritas nas listas eleitorais de 1996. O general português Carlos Branko escreve sobre isto com detalhe no seu livro A Guerra nos Balcãs - jihadismo, geopolítica e desinformação, Lisboa 2016. Ele afirma explicitamente que, tendo em conta todas estas razões, este “não poderia ser um acto de genocídio, tal com foi dito em muitos lugares, notadamente no Tribunal da ONU em Haia, sendo usado como argumento para fins políticos". No entanto, o autor observa que foram cometidos crimes de guerra contra cerca de 2000 soldados capturados, um número que é igualmente precisado pelo oficial da inteligência americana John Schindler. O que a maioria das pessoas não sabe é que Osama Bin Laden estava com os seus mujahidinistas, tanto na Bósnia como no Kosovo, e que os seus combatentes cometeram crimes terríveis - por ex., decapitações com sabre de prisioneiros sérvios, usando as cabeças para jogar futebol. É também um facto pouco conhecido que Osama Bin Laden tinha um passaporte (incluindo a cidadania) da Bósnia e Herzegovina, sendo contudo conhecido quem, cumprindo ordens de Alija Izetbegović, emitiu o passaporte.

Simultaneamente, temos que ter em mente que os soldados muçulmanos capturados foram os mesmos que, antes do ataque a Srebrenica, mataram 2500 sérvios em aldeias ao redor de Srebrenica, incluindo crianças, mulheres, idosos, pessoas com deficiência e até mesmo gatos e cães. Mataram tudo o que encontraram pelo caminho, pois os sérvios aptos a lutar estavam destacados em unidades distantes das suas aldeias, uma vez que se considerava que Srebrenica, sendo um enclave, estava sob controlo da ONU, logo não era esperado um ataque. No entanto, o exército muçulmano entrou tranquilamente em Srebrenica e eliminou cerca de 30 aldeias sérvias. Isto foi um verdadeiro genocídio, enquanto o assassinato de prisioneiros de guerra pelo pelotão de fuzilamento é certamente um crime de guerra, mas motivado pela vingança. O genocídio por vingança simplesmente não existe.

Descobriu-se agora que o ataque ao mercado "Markale", em Sarajevo, o qual é usado como motivo para o bombardeamento das posições bósnio-sérvias pela NATO, não partiu do lado sérvio, mas do lado muçulmano. Também se confirmou agora que o massacre de Račak, no Kosovo e Metohija, é igualmente falso, mas serviu para justificar o ataque da NATO à Sérvia. De forma lenta mas segura, mais e mais mentiras e falsificações de factos em detrimento dos sérvios estão agora a tornar-se publicamente conhecidas (Branco, Santos, Saraiva. A guerra na antiga Jugoslávia vivida na primeira pessoa, Lisboa, 2018).

Contudo, o artigo prefere atacar o presidente sérvio Aleksandar Vucić, que desde que assumiu o poder "aceitou libertar criminosos de guerra como heróis e permitiu que eles fossem reintegrados na vida pública e política". Prefere atacar a primeira-ministra sérvia Ana Brnabić, por ter afirmado ao Deutche Welle que em Srebrenica houve um massacre, mas não um genocídio. Uma mentira repetida cem vezes, mas que não se torna verdadeira. Mesmo durante o período em que aqueles que estavam no poder na Sérvia entregaram todos os sérvios a Haia (um ex-chefe de Estado sem precedentes na história sérvia), numa Resolução da Assembleia, Srebrenica foi declarado como crime, mas não como genocídio.

Afinal, os sérvios sempre viram os muçulmanos, e até mesmo uma grande parte dos croatas, como parentes de sangue (como sérvios convertidos ao islamismo e ao catolicismo), sendo que também sob este ponto de vista o genocídio é contradictio in adjecto!

O membro da Academia Francesa de Ciências Jean Dutourd saiu em defesa dos sérvios, numa altura em que quase todos os atacavam (considerando a BBC, CNN e a NATO, podemos mesmo dizer “todos”), e a 5 de Dezembro de 1996, sob a cúpula da Academia, entre outras coisas, afirmou: "O maior serviço que as pessoas prestam neste planeta é permitir o domínio da mentira"... "Se alguém vê a realidade tal como ela é, e não pode deixar de a descrever, isso é considerado um assassinato da ordem estabelecida". (...) "É dada uma aparência oficial à desinformação, instituindo um Tribunal Internacional numa pequena, culta e algo desinteressante cidade do Norte da Europa. Na verdade, ninguém pode imaginar que as sessões de um tribunal como este tenham lugar num clima quente - hoje a moral vem das regiões mais frias. Nada como um nevoeiro do norte, canais flamengos, humidade e moinhos de vento holandeses para transmitir seriedade". (...) "A virtude real e cautelosa não pode desaparecer por meio destes processos que essencialmente não diferem muito dos processos de Moscovo, que eram uma cópia dos processos de Paris de 1793". (...) "A maioria dos exemplos educacionais destes processos são os processos contra os sérvios-bósnios, já que estes são os únicos culpados pela guerra civil na Jugoslávia, conquanto são os que realmente mais sofreram; foram eles que enfrentaram as maiores tragédias na sua história recente e distante, e cujo heroísmo e senso de honra dificilmente parecem mundanos.” Este membro da Academia de Ciências, com a sua magnífica ironia, afirmou ainda que uma das desvantagens dos sérvios é a de "eles, como cristãos, induzirem repulsa", pois "não há misericórdia para com aqueles que invocam a cruz de Cristo". Concluindo as suas observações históricas à Academia, Jean Dutourd observa que a virtude é algo difícil de salvar, pois esta encontra-se entre as visões agradáveis da maioria e as exigências rigorosas do nosso coração, o que torna a escolha difícil e perigosa; isto porque "o mundo, ao contrário do que se pensa, não é habitado por lobos, mas por cordeiros, que são animais muito mais perigosos... estão a ser instituidos tribunais internacionais que enforcam os tolos que tiverem coragem de não rugir”. (...) "Porque os cordeiros rugem. Pelo menos no século 20".

Realmente, não sei se é uma coincidência, mas terminei a primeira versão deste artigo a 17 de Janeiro, exactamente no 8.º aniversário do falecimento de Jean Gwenaël Dutourd, que escreveu o seguinte: "Somente as nações e as pessoas que têm alma ou carácter são odiadas". (Scandale de la vertu, Paris, 1997)

Louvado seja.