Crónica

Raça, género e classe: a mesma luta

Não é necessário escolher entre luta de classes ou lutas feministas e anti-racistas. Estamos perante um único processo de metamorfose, em que a multiplicidade de novos vectores se vai opondo à velha cultura patriarcal, colonial e neoliberal.

No seguimento das ocorrências no Bairro da Jamaica, houve quem afirmasse que o racismo é apenas uma questão de pele negra, independentemente da condição social. E existiu quem lembrasse que, mesmo que assim seja, quanto mais fragilizada for a condição social de alguém mais difícil será o acesso a uma cidadania plena. 

Há quem sustente que as lutas identitárias (raça, sexo, género) se diluem quando integradas na luta de classes. E quem defenda que era preciso que a fragmentação das identidades não nos fizesse esquecer questões alheias a esses grupos e que todos esses combates pudessem estabelecer um denominador comum.

Na verdade está tudo ligado. Não é necessário escolher entre luta de classes, crítica do neoliberalismo, defesa do ambiente ou lutas feministas e anti-racistas. Estamos perante um único processo de metamorfose, em que a multiplicidade de novos vectores se vai opondo à velha cultura patriarcal, neocolonial e capitalista.

Não surpreende que, perante um mundo em mudança, as forças conservadoras tentem o retorno idealizado ao passado. É mais fácil. Acena-se com o medo. A desagregação da ordem. E aí temos fascismos, autoritarismos, nacionalismos, eurocepticismo, proteccionismos, machismos ou racismos. Já os que querem reinventar o mundo têm uma tarefa mais árdua: inventar novas instituições e contratos sociais, adaptando-lhe uma linguagem nova. Não é fácil. Parte das designações que utilizamos hoje – como o de luta de classes – situam-nos, mas já pouca ligação com a realidade têm. Não é por acaso que hoje tanto se fala de linguagem. O mundo está a mudar e ainda não conseguimos traduzir, ou encontrar novas palavras, para o que está a ocorrer.

Não é simples fazer ver, por exemplo, a ligação entre a contestação dos coletes amarelos nos Campos Elísios de Paris e dos negros do Bairro da Jamaica na Avenida da Liberdade. Estamos a assistir ao deslocamento das formas de opressão, mas também de resistência e contestação, desde as margens até ao centro. O que acontece hoje em França – o protesto pela neoliberalização do mercado de trabalho, desmantelamento das instituições públicas, o estrangulamento fiscal das classes médias, a precarização, o acentuar da linguagem racista perante os fluxos migratórios – já o havíamos visto, com variantes, na Grécia, Espanha, Itália ou aqui, e alemães e nórdicos, por mais que se julguem a salvo, também poderão não escapar a esta lógica.

As desigualdades entre nações europeias, acentuadas pelas disparidades de classe no interior de cada país, tanto fazem com que os coletes amarelos sejam olhados com desdém por algumas elites, como fomenta a criação de subgrupos marginalizados como os negros do Jamaica. O que não invalida a aposta na modificação de comportamentos e a fomentação de uma catarse histórica sobre o colonialismo, que ajudará a atenuar marcas de racismo.

Não só as novas massas de proletários que vivem na instabilidade (muito diferente daquela que saía todos os dias das fábricas há décadas) carecem de consciência de classe, como desconhecem as inúmeras possibilidades de aliança com a energia transformadora de movimentos feministas ou anti-racistas. De forma simples: os coletes amarelos teriam a ganhar – e não seriam alvo de instrumentalizações da extrema-direita – se a sua luta fosse menos reconhecida como branca e máscula.

Mas também não é menos certo que os trânsitos identitários só poderão ser a génese de mudanças mais profundas, libertando-se de formas de dominação e opressão, se forem capazes de exigir também a renovação dos modos de produção e reprodução mais perversos, geradores de desigualdades, preconceitos e estigmas.