Dezenas de afrodescendentes criticam cobertura mediática de caso Jamaica

Académicos, pessoas que pertencem a colectivos afrodescendentes ou ao activismo anti-racista criticam a forma como “vários media” têm construído conteúdos “que criminalizam os corpos negros e os bairros periféricos". "É pesado o manto de violência racista que se abateu sobre nós", referem.

Manifestação na passada sexta-feira, em frente a autarquia do Seixal
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Manifestação na passada sexta-feira, em frente a autarquia do Seixal daniel rocha

Cerca de 70 personalidades afrodescendentes criticam a cobertura jornalística feita por alguns meios de comunicação do caso do bairro da Jamaica, no Seixal, e da manifestação no Terreiro do Paço e Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Assinando sobretudo em nome individual – académicos, pessoas que pertencem a colectivos afrodescendentes ou ao activismo anti-racista, entre outros (ver caixa) – escrevem que “repudiam” “enérgica e veementemente” a forma como “vários media” têm construído conteúdos que "criminalizam os corpos negros e os bairros periféricos, sem se preocupar com o princípio da presunção da inocência, o princípio do contraditório e a busca da verdade”.

Sem se centrarem num órgão específico, acusam várias peças jornalísticas de “criarem a ficção de que está em curso uma onda de vandalismo” e imputam às populações negras e pobres dos bairros periféricos, "implicita ou explicitamente", a culpa pelos acontecimentos no bairro da Jamaica no dia 20 de Janeiro e do disparo de balas de borracha na Avenida da Liberdade no dia seguinte durante uma manifestação de jovens, na maioria negros, “num puro acto de exercício da sua cidadania”.

Num vídeo que se tornou viral gravado no Jamaica há mais de uma semana agentes da PSP são vistos a agredir moradores do bairro da Jamaica — inicialmente um homem de 63 anos que leva dois socos e uma joelhada, e depois o filho e a mulher. A polícia diz ter sido também agredida, razão que apresentou como tendo motivado o uso da força. A família acusou a PSP de uso excessivo e injustificado de força e o caso gerou polémica na semana passada – o activista do SOS Racismo Mamadou Ba esteve debaixo de fogo depois de um post do Facebook em que criticava a polícia e foi perseguido por membros do partido da extrema-direita PNR mais do que uma vez; tem recebido várias ameaças de morte desde então, tal como a deputada bloquista Joana Mortágua, que também se insurgiu publicamente contra a actuação da polícia no Twitter. 

No dia seguinte, segunda-feira, várias pessoas, na maioria jovens com menos de 20 anos, saíram à rua contra “a violência policial”. A tarde terminou em confrontos, com pelo menos quatro cidadãos detidos. Alguns jovens relataram ter sido atingidos por balas de borracha, como Júnior Dias, 18 anos, contou ao PÚBLICO; já a polícia disse que foram arremessadas pedras contra alguns agentes e carros, razão pela qual disparou.

Na semana passada o alto comissário para as Migrações e presidente da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação (CICDR), Pedro Calado, convocou para uma reunião as estações de televisão RTP, SIC e TVI, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e o Sindicato dos Jornalistas (SJ) por causa da cobertura dos acontecimentos. "O presidente da CICDR tem acompanhado com manifesta apreensão e preocupação os acontecimentos dos últimos dias e o crescendo extremar do discurso xenófobo nas plataformas digitais, redes sociais e caixas de comentários online", lia-se num comunicado, juntamente com uma recomendação.

"É pesado o manto de violência racista"

No documento, os signatários recordam a cobertura de outros casos, como as “falsas notícias” sobre o pretenso “arrastão” na praia de Carcavelos (2005), o suposto meet de “marginais” no Vasco da Gama (2014) e a alegada “invasão” da esquadra de Alfragide (2015).

E acrescentam: “Os episódios de fogo posto e de vandalização, que ocorreram nas últimas noites, em vários concelhos da Área Metropolitana de Lisboa, visam descredibilizar e abafar as nossas reivindicações, silenciar as denúncias de violência policial e sobretudo desviar o foco deste debate premente da sociedade portuguesa, que é a violência policial exercida sistematicamente contra as comunidades racializadas. Aliás, no que diz respeito aos incidentes no bairro da Bela Vista, Carlos Rabaçal, vereador da Câmara Municipal de Setúbal, disse recentemente ter-se apurado que se trataram de reacções de ‘miudismo de gente branca’”.

Sublinhando que “as formas de luta” do activismo se tem baseado em “estratégias positivas e construtivas”, chamam a atenção para o facto de os media não desconstruírem o racismo, e lucrarem "com a nossa desumanização arrastando-nos vezes sem conta para a ficção estereotipada do ‘jovem negro criminoso’”.

Falam das consequências das notícias "que saíram" nos últimos dias: "É pesado o manto de violência racista – da mais inorgânica à extrema-direita organizada – que se abateu sobre nós e sobre todos aqueles que tenham a coragem de apontar publicamente o racismo na sociedade portuguesa. Não há desmentido, retratamento ou contraditório posterior que verdadeiramente repare os danos causados, mas exigimo-lo ainda assim, aos meios de comunicação social responsáveis, à Entidade Reguladora para a Comunicação Social e a outras autoridades competentes”.