Daniel Rocha
Reportagem

Estrearam-se numa manifestação por causa do Jamaica. “Podia ser a minha mãe”

Cerca de três centenas de pessoas, na maioria com menos de 20 anos, protestaram em Lisboa contra as agressões de há uma semana no Bairro da Jamaica, Seixal. Foi a primeira manifestação da vida de muitos. O PÚBLICO foi saber o que mobilizou alguns destes rapazes e raparigas e como olham para o que aconteceu.

Não pertencem a nenhum grupo activista. Têm por volta dos 20 anos. Uns são estudantes e outros também trabalhadores. Usam a rede social Instagram para comunicar e foi através dela que se mobilizaram para ir à manifestação da última segunda-feira, organizada de forma espontânea. E não, não são todos do bairro da Jamaica: são do Cacém, do Seixal, de Loures, de Oeiras, de Lisboa, da Amadora, de Rio de Mouro... Vieram de bairros como o 6 de Maio, Cova da Moura, Casal da Boba, Quinta do Mocho, Penha de França, Campolide...

Para muitos, esta foi uma estreia em manifestações. Um protesto que começou no Terreiro do Paço, em frente ao Ministério da Administração Interna, prosseguiu até ao Marquês de Pombal e no regresso pela Avenida da Liberdade acabou com a polícia a atirar balas de borracha e a acertar em alguns manifestantes — a PSP justificou-o com a necessidade de dispersar e de se defender de “pedras” que lhe foram atiradas.

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Polícia de intervenção na Baixa de Lisboa no dia da manifestação Nuno Ferreira Santos

A manifestação foi inédita porque não foi marcada por nenhuma organização oficial nem activista, nasceu espontaneamente nas redes sociais e teve maioritariamente jovens, muitas mulheres, alguns adolescentes, dizem os testemunhos; a maioria eram pessoas negras mas havia também brancas entre as 300 que a PSP contabilizou.

Há anos a ir a manifestações, o vigilante Sinho Baessa Pina, do Casal da Boba, 42 anos, diz que nunca viu nada assim. Confirma que não houve activistas por detrás da organização: eram jovens a liderar. “Foi um dia histórico. Aqueles miúdos não vão ficar nos livros de história mas vão ficar na cronologia da mudança de Portugal”, afirma dias depois e ainda emocionado. “Eles fizeram uma coisa espectacular, queriam ser ouvidos, queriam dizer ao Estado: ‘somos daqui, estamos aqui’. Foi um dos dias mais emocionantes da minha vida”.

O que os fez sair à rua mobilizados foi a indignação contra o que viram no vídeo da actuação da PSP no bairro da Jamaica, Seixal. “Podia ser a minha mãe”, dizem ao P2 Júnior Dias, Ana Rita Victor, Raquel Borges, Yane Brazão. Mas dizem-no também moradores do bairro da Bela Vista que não foram ao protesto como David Santos e “António”, jovem negro agente das forças de segurança que não quer ser identificado. Afinal, todos já sentiram – ou têm amigos e família que sofreram – “abuso de poder”, excesso de força pela polícia, queixam-se.

Agora, ao contrário da era pré-Instagram e pré-Facebook, ao contrário da geração dos seus pais, quem vê uma cena injusta começa a filmar. Como diz Raquel Borges: “Já não dá para esconder e mandar para debaixo do tapete.”

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Julieta Joia, mãe de Hortêncio Coxi, o homem que foi detido no domingo após desacatos entre moradores e agentes da polícia. Julieta também foi agredida Daniel Rocha

Mas o que mobiliza estes jovens e os amigos? O que levou tanta gente desta geração Instagram à rua?

Nas imagens do vídeo que se tornou viral, e que foram gravadas há uma semana, vê-se um grupo de agentes da PSP, pelo menos sete, a chegar numa carrinha. Primeiro um dos polícias aproxima-se de um homem que está a agarrar no braço de um rapaz e, sem que ele tenha reagido, dá-lhe dois socos e uma joelhada (é Fernando Coxi, 63 anos). O filho Hortêncio será depois detido, acusado de agredir a polícia. A família reage: a mulher, Julieta Joia, 52 anos, vai em sua defesa e é empurrada por um polícia, cai ao chão de imediato; a filha também intervém no conflito e fica igualmente deitada, depois de empurrada. A família acusou os polícias de uso excessivo e injustificado de força.

Domingo à tarde Ana Rita Victor, 18 anos, viu no Instagram a chamada para um protesto no Terreiro do Paço. Hesitou um pouco, mas segunda-feira, meteu-se no comboio para Lisboa. “Pensei que tinha que ir porque poderia ter acontecido com a minha mãe. E temos que mostrar a nossa indignação, lutar contra essa violência que não é de agora. A polícia abusa do poder”, diz num café no Seixal, onde vive, no bairro Cavaquinhas, dois dias depois da manifestação.

Encontramo-la à porta da Escola Secundária Alfredo dos Reis Silveira, onde frequenta o 12.º ano. Mãe de uma menina de dois anos, está à procura de um part-time, embora viva com os pais — o pai é instalador de gás e a mãe é cozinheira numa escola. Não quer prosseguir os estudos na universidade, o seu sonho é tirar depois um curso de cozinha, quem sabe um dia abrir um restaurante seu. Ainda sem o cartão de cidadão português, Ana Rita Victor nasceu em Portugal. A lei da nacionalidade portuguesa não permite que quem nasça em Portugal seja português, fá-lo depender dos pais — é necessário que estes cumpram determinados requisitos. Está longe de ser caso único. “Não faz sentido. Nasci cá sou portuguesa. É mau. Acabo por não ter os mesmos direitos que um português. Estou a tratar disso agora mas estão-me a pedir coisas como se tivesse vivido em Angola (por exemplo, o certificado de registo criminal)”. 

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Ana Rita Victor Nuno Ferreira Monteiro

Ana Rita Victor também conta uma história que se passou há “mais de cinco anos” em Lisboa em que os pais foram agredidos por agentes das forças de segurança — o pai tem 48 anos e a mãe 41.

“Não sei se implica só racismo, mas é o facto de eles [polícias] terem mais poder do que nós e não podermos fazer nada. Isso revoltou-me. O que dá mais medo [no vídeo] é a mãe, uma senhora mais velha, não tem essa força que eles têm. O pai foi o primeiro, daí começou tudo. Falei com pessoas que choraram a ver o vídeo”. Ela ficou chocada. “Os polícias querem arranjar alguma ponta para dizer que a família tem culpa. O rapaz tem a culpa, mas a família não tem que arcar com as consequências”, refere. “Mas os polícias, como [representando] a lei, deviam dar o exemplo. Têm que ter mais calma.”

Na primeira manifestação da sua vida para mostrar indignação sentiu que poderia juntar a sua voz a outras para alterar a forma como a polícia age com pessoas como ela, negra. Ouviu muita gente entre os amigos contar episódios desagradáveis com a polícia. “Também sinto isso, não só com polícias como com seguranças. Eu entro numa loja e o segurança vem-me seguir, enquanto há um monte de gente na loja. Parece que vamos roubar. Isso revolta.”

Os pais não foram a manifestação. Há, sim, uma diferença geracional, analisa. “A nossa geração quer lutar mais pelos direitos. Temos mais garra”, afirma.

Tem sido dito por alguns agentes da PSP que há dificuldade em entrar em bairros como o Jamaica pois são alvos de “ataques” e recebidos à pedrada. Ana Rita Victor diz que isso até podia ser verdade. Mas basta ver as imagens que circularam do Jamaica para perceber que aquelas pessoas eram indefesas, não é justificação.

Contra as histórias que se repetem

Raquel Borges tem 19 anos e muito estilo. Estudante de Design de Moda no Colégio D. Maria/Casa Pia de Lisboa, moradora em Oeiras, linha de Cascais, veste um casaco cor-de-rosa forte por cima de umas calças e camisola pretas. Yane Brazão vive no Cacém, linha de Sintra, tem 18 anos e conta que quis seguir esta área por estar cansada de não encontrar roupa que caiba no seu 1,90 metros de altura. A mãe, empregada de limpeza, não está a trabalhar e o padrasto é empregado num hotel.

Encontramos as duas na cafetaria do Museu do Azulejo, depois das aulas, onde explicam que souberam da manifestação através do Instagram, a rede social que utilizam. “Não tenho Facebook”, diz com voz segura Raquel Borges.

Raquel Borges chegou à manifestação no Terreiro do Paço depois das 16h, com um cartaz que dizia: “Não à brutalidade policial”. Yane nunca tinha ido a nenhum protesto, estava com medo mas acabou por ceder à indignação: “Vi aquilo acontecer com uma família negra, como sou negra senti-me afectada, podia ser comigo ou com alguém da minha família”.

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Yane Brazão Nuno Ferreira Monteiro

Não sabiam sequer quem tinha convocado o protesto. “Estava com medo. Não havia autorização. Pensei: ‘as pessoas vão achar que estamos a invadir Lisboa’. Mas se pensarmos assim ninguém vai”, afirma Raquel Borges, que se descreve como uma “pequena activista” – pequena porque não pertence a nenhum grupo, trabalha “por conta própria”.

Mesmo assim, esta foi apenas a sua segunda manifestação (de resto, ela é a única jovem que entrevistámos que já o tinha feito). Yane Brazão sentiu medo durante a tarde de segunda-feira porque “se atiram pedras a polícia vem para cima de mim porque sou negra”. “Mas vou ficar porque estou a lutar contra o racismo, sou negra, vou lutar por isso. A brutalidade policial nunca se sabe, podem vir para cima de mim sem ter feito grande coisa. E fiquei.”

Raquel Borges lembra-se de histórias de racismo que lhe contou o pai, morador do antigo bairro de construção ilegal entretanto demolido, Pedreira dos Húngaros, concelho de Oeiras – hoje ele é motorista e a mãe empregada de limpeza. Viu ao longo dos anos que essas histórias — “de mandarem para a terra, de fazerem comentários racistas” — se repetiam consigo e com os seus amigos. Pensou: “O que posso fazer para mudar? Vou usar o Instagram”. E assim foi. Hoje, partilha citações de M. Luther King, Malcolm X, Barack Obama ou Nelson Mandela. “Eles tentaram que as coisas mudassem e muitas não mudaram”.

No vídeo, Raquel Borges indignou-se com a agressividade da polícia naquela intervenção. “Quando vi que agrediram a mãe do rapaz tocou-me imenso. Imaginei: ‘se fosse a minha mãe?’ Podia ser a minha mãe como a mãe de outros africanos que moram em bairros sociais. O rapaz fez mal, mas a maneira como a polícia agiu foi pior. Não se podem justificar com o facto de eles terem atirado pedras.” Yane Brazão acrescenta: “Batem no filho. Eu como filho vou ter aquele impulso de ir proteger... Não devem ser julgados.”

Para ela ficou óbvio que os polícias chegaram ao bairro, saíram da carrinha e foram bater ao “pai”. Viu algumas pessoas a agredir a polícia, depois do que se passou com o filho. “Se vir o meu filho a levar da polícia excessivamente vou querer dizer à polícia para parar, não vou deixar a polícia bater no meu filho.”

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Raquel Borges Nuno Ferreira Monteiro

Chocou-a ter ouvido pessoas dizer que “a família mereceu”. “Foi racismo. Nunca iria acontecer com uma família branca. Os polícias ao verem uma família negra associam a malcriados, mal formados, delinquentes. A família branca pode ter feito porcaria mas não vão bater. A nós negros querem dar uma ‘lição’, porque acham que somos ‘animais’.”  

Há umas semanas também circulou um vídeo com um rapaz numa escola do Cacém a ser alvo de uso da força pela polícia por não lhe mostrar os seus documentos. Mas não foi suficiente para mobilizar tantos jovens como este caso. Porquê, já que era até mais próximos da sua idade? “Porque é jovem, podia fazer porcaria. Uma família, um pai e uma mãe apanhar… as pessoas vão-se sensibilizar mais rápido”, diz Yane.

Há ainda o caso dos seis jovens da Cova da Moura: os 17 agentes da Esquadra de Alfragide acusados pelo Ministério Público de racismo e tortura estão neste momento a responder em tribunal. “Em Portugal estes casos são varridos para debaixo do tapete. Pode haver casos mas ninguém gravou, muita gente não viu”, comenta Raquel.

Mas hoje o potencial de divulgação nas redes sociais está a mudar esta realidade. Os jovens da sua idade quando vêem casos como este pegam no “telefone” e gravam “para haver provas”, continua Raquel. “Os jovens têm uma maior consciência do problema no nosso país. Agora quando acontece é filmado, não dá para esconder e mandar para debaixo do tapete.”

Uma das motivações que a fez ir para a rua foi mudar a mentalidade para que os irmãos mais novos e os filhos vivam numa sociedade diferente, em que estes problemas não aconteçam. Indignou-a ver na televisão apenas as imagens de os manifestantes a atirar pedras, porque “a manifestação foi super pacífica”, “não mandámos pedras à polícia”. “Não nos podemos deixar abalar. Temos que ganhar força e fazer com que nos oiçam.”

Porque já passaram pelo mesmo ou porque já viram alguém passar pelo mesmo muitos foram protestar, recorda. Houve o reconhecimento de que o que se viu no vídeo foi o culminar de uma indignação com outras situações de abuso, analisa Raquel Borges que não tem a certeza de querer seguir design mas tem a certeza que quer vir a “ser importante nestes assuntos”. Objectivo de agora: “Nós do grupinho que estava na manifestação, sozinhos, não vamos conseguir mas vamos chamando cada vez mais pessoas para que haja uma mudança de forma pacífica, não através da violência.”

Ao ir à manifestação, como “pessoa negra”, Yane Brazão demonstrou que quer mudar, afirma. Mas prefere não ver as noticias que saíram porque houve “mentiras” que ficaram à vista. “Quando dizem que os polícias levaram pedradas parece que eu, que estive lá, e todo o mundo lhes atirou pedras. Eu estava lá. O quê? Não atirei pedras nenhumas!”  

Tocar numa senhora adulta é falta de respeito

No dia da manifestação, Júnior Dias, 18 anos, tinha uma ferida no centro da testa a sangrar. Contou nesse dia ao PÚBLICO que lhe acertaram com uma bala de borracha. “Não sei, não vi como fui atingido. Estávamos a subir, afastaram-se todos. Só senti a bala a acertar, não vi o polícia”.

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Júnior Dias Nuno Ferreira Monteiro

Dois dias depois encontramo-lo com um penso no lugar da ferida, perto da Alameda Afonso Henriques, em Lisboa, ao fim do dia. À tarde esteve a trabalhar do part-time no Mac Donald’s – está no 12.º ano, na área de Humanidades, numa escola em Loures, onde viveu até há semanas. Começou por dizer aos pais que tinha sido um acidente, até que acabou por explicar o que se passou. “Disseram para eu ter cuidado e que foi uma sorte não ter acertado no olho.”

O pai, técnico de gás, gostava que ele seguisse medicina mas Júnior Dias não quer estudar na universidade; a mãe é cozinheira. Ele conhecia um dos filhos da família Coxi — Missanguinhas, que tem mais de 35 mil seguidores no Instagram — por isso decidiu que iria à manifestação de segunda-feira. “Na altura quando vi o vídeo estava sozinho em casa. Estava no insta e apareceu. Confesso que até chorei”, diz numa voz baixa, pausada e tranquila. “É normal que nós, jovens, não façamos tudo bem. Mas chegar a tocar numa senhora adulta é uma grande falta de respeito, uma grande falta de respeito mesmo.”

Uma semana antes de se mudar de Santo António dos Cavaleiros, em Loures, para a zona da Alameda, foi parado pela polícia. “Estávamos em Loures. Pararam-nos, não tínhamos feito nada, havia muita gente à nossa volta. Eu disse que não queria falar, mas um deles agarrou-me e começou a ameaçar a dizer que eu tinha que responder. Acabei por responder. Tiraram os nossos nomes e depois fui-me embora.”

Não foi a única vez que sentiu abuso de autoridade da polícia. Por isso também saiu à rua na segunda-feira: “Os polícias fazerem o que lhes apetece tem de acabar. Há formas de resolver as coisas. Não é porque uns fazem que outros levam por tabela, não pode funcionar assim. Há formas de resolver sem ser à pancada.”

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Raquel Borges e Yane Brazão

Júnior Dias incomoda-se com o “simples facto” de estar na rua e ser parado pela polícia, algo que já “aconteceu várias vezes”. Levou com uma bala na testa nesta sua primeira manifestação. Mas não quer desistir. “Quero que haja menos violência policial. Uma pessoa não pode estar na rua e ser parada e humilhada à frente de toda a gente.”  

"Sei como dar a volta às pessoas: falando"

A Avenida da Bela Vista, em Setúbal, tem estado numa azáfama com as televisões depois de a esquadra ter sido alvo de cocktails molotov na madrugada de terça-feira. Quarta-feira e a rua em frente à esquadra está cercada com grades, há carrinhas do corpo de intervenção rápida estacionadas mesmo à porta porque voltaram a existir caixotes de lixo incendiados. Na esquadra os agentes não querem prestar declarações, nem explicar o que se passou nas noites anteriores.

Mas para os moradores o quotidiano é semelhante a outros. Há vários grupos na rua. Rapazes juntam-se a um canto. Não estão interessados em falar. Nem do que se passou mesmo em frente à esquadra, nem do que se passou no bairro da Jamaica a mais de 30 quilómetros dali.

David Santos, 22 anos, é excepção: “Não é preciso três ou quatro polícias para imobilizar uma mulher”, diz. “Não havia necessidade de agredirem uma mulher. Se fosse à manifestação era por isso. O senhor mais velho foi um saco de boxe. Se fossem os pais deles [polícias] não iam gostar.” Diz que tudo podia ter sido evitado com “dois tiros de bala de borracha para cima”. E “toda a gente dispersava”.

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Moradores do Bairro da Jamaica Daniel Rocha

É normal a polícia aparecer naquela rua. David, morador há 20 anos no bairro, desempregado, está habituado a vê-los — até porque a esquadra fica a uns metros de onde estamos a conversar e ele mora por ali. “Eles protegem-nos, mas quem nos protege deles?”, ironiza. Por exemplo: “Há polícias que fazem o trabalho deles impecáveis, vêm por bem, revistam. Mas há dois que ficam a destabilizar com cara feia, com empurrões”, queixa-se. “Ficam à espera que a gente diga qualquer coisa para arranjarem motivo.” Critica, porém, a manifestação de segunda-feira por não ter sido bem organizada. “Pensar em ir? Nem pensar. Já sabia que era só a escurecer…” e os problemas iam começar.

Desde há alguns anos agente das forças de segurança e morador da Bela Vista, “António”, 25, comenta: “Claro que não foi ninguém do bairro que atirou o cocktail molotov à esquadra, se fosse a gente já sabia”. Com o 12.º ano, quis ter um emprego seguro. E fazer as coisas de maneira diferente nas forças de segurança, “não ter a mesma atitude”. “A minha tolerância é diferente, a minha atitude é diferente. Cresci aqui e sei como dar a volta às pessoas: falando. Quando estou com a minha farda não preciso de agir como se não tivesse farda. Muitos agem com a farda como se fossem heróis.”

Ouve os colegas “opinarem” sobre o bairro dele, “mas não percebem nada”. “Chegam aqui, um foge e os outros sofrem a consequência”. Revoltou-o as imagens do bairro da Jamaica. Com um tom sério e olhar directo pergunta: “Se batessem à sua mãe, o que é sentiria?”