Na era dourada das arcadas e no início da idade das consolas, o SimCity era um objecto estranho: um videojogo lento e tranquilo onde não existiam níveis DR

SimCity: Há 30 anos a brincar aos presidentes da câmara

O mais popular simulador de cidades está prestes a celebrar 30 anos. O PÚBLICO falou com antigos jogadores para quem o SimCity despertou paixões ou abriu portas para uma carreira política ou académica.

Algures nos anos 90, um anúncio da Lego colocava uma criança a imitar um político numa campanha eleitoral, prometendo em tom solene a construção de casas, pontes, estradas e aeroportos, antes de surpreender o telespectador com a revelação do seu plano final: “E depois destruo tudo!”. Era assim que muitos de nós passávamos dias inteiros na infância, a construir e destruir cidades de Lego. Para outros, porém, as urbes construíam-se no pequeno ecrã, num videojogo de estratégia que celebra em Fevereiro ao seu 30.º aniversário.

Mas o SimCity era mais do que um passatempo. Para alguns antigos jogadores com que o PÚBLICO falou, foi, por exemplo, o início de uma paixão pela política e a economia, ou uma espécie de treino para mais tarde ser autarca – agora na vida real.

“O SimCity foi talvez o primeiro contacto com a realidade política para um jovem adolescente como eu”, conta Fábio Romão Morgado, actual presidente da junta de freguesia de Arruda dos Vinhos, para quem o simulador de cidades (na edição 3000) foi o primeiro jogo que recebeu para o seu primeiro computador. Tinha então 13 anos, e estávamos em 2001. “Apesar de ser um simulador, há uma clara vertente política nas opções que tomamos, e foi também dessa experiência que brotou, alguns anos depois, um interesse em participar activamente na política e que resultou nesta experiência autárquica”, diz.

E quão diferente é ser presidente de junta e gerir uma cidade no SimCity? “Há uma diferença abismal atendendo que o jogo não consegue replicar o algoritmo humano na perfeição”, explica. “Além disso, as escolhas que se podiam fazer eram limitadas face à realidade com que um autarca se depara, mas não deixa de ser um bom ponto de partida até para beber algumas ideias, relembrando o foco que o SimCity 3000 dava já às questões ambientais e que hoje estão tão em voga.”

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Começando com um terreno vazio, o jogador do SimCity tem de construir infraestruturas como estradas, redes eléctricas e de abastecimento de água e equipamentos como escolas, hospitais ou quartéis de bombeiros para poder receber os futuros moradores, comércios e indústrias. Quando a cidade atinge um determinado tamanho, surgem desafios ambientais como a gestão do lixo produzido.

Do SimCity para a Reserva Federal

Foi também o SimCity que fez Miguel Faria e Castro iniciar um percurso que o levaria ao Banco da Reserva Federal de Saint Louis, nos Estados Unidos.

“Tinha 9 ou 10 anos quando joguei SimCity pela primeira vez. Fiquei imediatamente viciado”, recorda o economista português de 30 anos. “Nunca tinha interagido com um sistema tão complexo, onde pequenas alterações em determinados parâmetros podiam ter efeitos noutras variáveis que eram, ao mesmo tempo, grandes em magnitude e pouco óbvios. Por exemplo, pequenas alterações no imposto de vendas podiam ter efeitos significativos na procura por áreas comerciais e na população da cidade: não só foi a minha introdução à análise de sistemas complexos, mas também à Curva de Laffer”, conta, referindo-se à representação teórica que explica a relação entre a receita fiscal do Estado e a taxa de imposto aplicada.

Para além do aspecto físico da cidade, o jogador tem de gerir um orçamento limitado e tomar decisões sobre qual a quantidade de impostos a cobrar e o quanto dinheiro deve gastar nos serviços públicos. Cada decisão tem consequências — muitas vezes, inesperadas.

“Aos poucos, fui aprendendo a domar o sistema, e a perceber o que é que afectava o quê. Ensinou-me, mesmo que de forma muito rudimentar, que pequenas alterações de políticas podem ter grandes efeitos na economia e na sociedade, e muitas vezes estes efeitos são transmitidos através de canais muito pouco óbvios”, explica Miguel.

“Inevitavelmente, isto despertou o meu interesse naquele que é possivelmente o sistema social mais complexo: a macroeconomia. Esta noção de efeitos indirectos de alterações de políticas (aquilo que os economistas chamam de "equilíbrio geral") é, infelizmente, ignorada com frequência no discurso politico e no desenho de políticas públicas”, diz.

“Penso que alguns políticos teriam beneficiado de alguma exposição ao SimCity”, afirma o economista do departamento de estudos da Reserva Federal em Saint Louis.

Um treino para autarcas... e para um Presidente

As intersecções entre a política e o SimCity não são inéditas. Em 2002, os candidatos às eleições autárquicas em Varsóvia participaram num torneio de SimCity 3000. A todos foi dado um orçamento semelhante e uma réplica da capital polaca que, a dado momento, seria atingida por um desastre natural.

O desafio foi ganho pelo candidato que terminou com mais habitantes e mais dinheiro nos cofres públicos — o conservador Lech Kaczynski (na foto abaixo), que viria a presidir à autarquia e, anos mais tarde, tornar-se-ia chefe de Estado polaco (acabaria por morrer num desastre aéreo em 2010).

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O mesmo desafio foi repetido na Alemanha, com candidatos ao Bundestag, e no estado norte-americano de Rhode Island, logo em 1990, com cinco candidatos nas eleições primárias democratas à presidência da câmara de Providence a jogarem SimCity para provar que seriam bons gestores – neste caso venceria Buddy Cianci, que na vida real ficaria conhecido por múltiplos escândalos financeiros e de abuso de poder.

Brincar com o que é real

Nem todos os jogadores de SimCity descobririam um talento escondido para a gestão, nem acabariam por se tornar dirigentes políticos ou economistas, claro. João Martins admite que começava cada jogo a prometer a si mesmo que não faria batota (no SimCity há códigos que permitem aumentar o orçamento): “Confesso que nunca consegui! Esbarrava sempre com o problema financeiro e como era jovem achava que aquilo ficava resolvido com mais impostos — uma vez fiquei com bairros inteiros vazios, porque toda a gente saiu da cidade”.

Mas foi com o jogo que aprendeu algumas noções sobre “a importância das ligações entre cidades, da estabilidade financeira e especialmente da importância de um bom planeamento da cidade para a manter equilibrada e sem tensões sociais”.

“Lembro-me de ser alvo de algum descontentamento por parte de professores e médicos”, recorda João, que acabou por seguir Geografia e fazer um mestrado em Planeamento e Projecto Urbano.

E como é que um geógrafo vê hoje o SimCity? “É um jogo que nos faz reflectir e permite-nos brincar um pouco com algo que é real — o planeamento do território e as políticas urbanas. Somos confrontados com problemáticas do nosso dia-a-dia no mundo real, tais como o uso do solo e a organização do espaço urbano, a definição de redes (como os transportes, saneamento, energética, etc.), a intermodalidade entre os diferentes meios de transporte. Mas também é possível verificar a existência da componente social. Lembro-me que podíamos criar “Sims” [pequenos habitantes da cidade, que conquistariam espaço próprio no jogo Sims] com o objectivo de obter informações sobre a nossa cidade como o emprego, a saúde, a educação, a segurança”.

Uma ajuda na escola e uma prenda romântica

Rute Correia, 30 anos, locutora na rádio Oxigénio, começou a jogar SimCity com “9 ou 10 anos” e lembra-se de, anos mais tarde, ter tido um 18 num trabalho da escola, para Geografia, ao exemplificar no jogo o que aprendera no capítulo de planeamento urbano. “Ajudou-me muito a perceber as dinâmicas do espaço urbano”, conta, recordando o difícil equilíbrio entre as necessidades de gestão de uma cidade e as exigências dos seus habitantes: “Nem valia a pena criar zonas residenciais perto da lixeira ou do centro de reciclagem”.

Bernardo, 35 anos, médico, também se recorda do SimCity na escola, nas aulas de informática, e sobretudo das “gargalhadas de um colega perante a destruição” gerada no seu ecrã. Não só as cidades virtuais podiam ser vítimas de uma catástrofe inesperada como, mais frequentemente ainda, eram os próprios jogadores a arrasar as suas urbes perante as dificuldades financeiras ou, a dado ponto, o tédio — a certa altura inevitável num jogo em que não existe um fim ou um conceito claro de ganhar ou perder.

Mais regrado, Paulo Neves, 40 anos, director de unidade de negócio da Petcare, diz que o jogo pode ter influenciado a sua carreira em gestão. "Pelo menos deu uma ajuda gigante a aprender inglês, principalmente a parte técnica e financeira", conta.

Para Ruben Martins, 23 anos, jornalista no PÚBLICO, que não gostava especialmente de videojogos, o SimCity era uma excepção e acabou por marcar o início de um forte interesse pela política local e pelo universo dos transportes públicos. Hoje edita o podcast Poder Público, onde aborda frequentemente os temas com que, na adolescência, brincava no SimCity.

Já para Marta Lino, gestora de marketing digital, o SimCity é também uma memória sentimental. Da adolescência, recorda-se que "planear e pensar na construção de uma cidade passo a passo era aliciante" e de "ficar horas e horas" a resolver os problemas de gestão da urbe — e de se sentir "muito mal" por "poluir muito". Anos mais tarde, o SimCity e outros jogos de estratégia foram um dos primeiros temas de conversa com o homem com quem acabaria por casar — e uma cópia pirata do simulador de cidades seria a primeira prenda que receberia do futuro marido.