João Miguel Tavares: "Sou um corpo estranho e irritante no meio jornalístico, político e intelectual lisboeta"

João Miguel Tavares fala com o PÚBLICO a propósito do convite que o Presidente da República lhe dirigiu para organizar as comemorações do 10 de Junho em 2019.

Foto
João Miguel Tavares é colunista do PÚBLICO Adriano Miranda

O convite do Presidente da República ao jornalista e colunista João Miguel Tavares para presidir à comissão das comemorações do Dia de Portugal surpreendeu o país e provocou uma avalancha de críticas, sobretudo nas redes sociais. João Miguel Tavares conta o que lhe tem passado pela cabeça desde que foi convidado, reconhece que a “nomeação iria ser naturalmente polémica” e que “imaginar a cara de espanto de tantas pessoas ao saberem da notícia foi mais uma razão para dizer que sim”. 

Já o Presidente da República, em entrevista à Lusa — ainda que não tenha falado directamente sobre esta escolha —, explicou que a comunicação social é um dos sectores dos quais tem procurado manter-se próximo. “A minha orientação é a seguinte: eu sou da proximidade”, disse Marcelo Rebelo de Sousa, acrescentando que procura ter “proximidade física, estar o mais próximo possível das pessoas”, bem como “proximidade comunicacional, estar próximo dos meios de comunicação social” e também “proximidade institucional”, com as instituições “mais antigas ou mais recentes”, para “saber o que se passa.

Desde que tomou posse, faz três anos a 9 de Março, Marcelo Rebelo de Sousa fez com que as comemorações do 10 de Junho fossem divididas entre uma cidade portuguesa e outra estrangeira, onde exista uma comunidade lusa. Este ano, as comemorações serão divididas entre Portalegre e o arquipélago de Cabo Verde.

Como interpreta o desafio que lhe foi feito pelo Presidente da República para presidir à comissão das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades?
Como costumam dizer os políticos profissionais, “essa é uma questão que tem de lhe ser colocada a ele”. Eu não tenho de interpretar o Presidente de República, nem o devo fazer neste caso, até porque o que não costumam faltar são oportunidades para ele próprio partilhar com o país as suas intenções, se assim o entender. Limitei-me a ficar perplexo com o convite e a pedir alguns dias para pensar.

O que o levou a aceitar o convite e com quem vai trabalhar?
Vou trabalhar com a equipa de Belém, que já tem vários 10 de Junho atrás de si. Aceitei o convite por vários motivos, o principal dos quais é não ter qualquer motivo para não aceitar. Consigo lembrar-me de inúmeras razões para o Presidente não me convidar, mas nenhuma razão para eu recusar. Por isso, aceitei. Além disso, as comemorações são em Portalegre, cidade onde nasci e vivi até aos 18 anos, e esse foi um factor muito relevante.

Nas redes sociais, a sua designação não foi pacífica. Como interpreta as críticas de que a sua nomeação tem sido alvo? É apenas uma questão de tendência política?
A nomeação iria ser naturalmente polémica, e imaginar a cara de espanto de tantas pessoas ao saberem da notícia foi mais uma razão para dizer que sim. Há 40 anos que existe um determinado perfil de presidente das comemorações do 10 de Junho e eu não encaixo nele nem a martelo. Só mesmo a Marcelo, que anda há três anos a reconstruir o papel tradicional do Presidente da República — eu sou apenas mais um tijolo. Não acho que as críticas sejam uma questão de tendência política, embora a tendência política ajude. Penso que no essencial é uma questão de Clube do Bolinha, onde é suposto estar vedado o acesso a quem não é senador, grande intelectual ou catedrático. Tenho 45 anos, escrevo opinião nos jornais há 16 anos e há 16 anos que ouço isso. Todas as semanas me dizem que eu não deveria estar a escrever no PÚBLICO (jornal bom de mais para mim), nem a falar no Governo Sombra (companhia boa de mais para mim). As críticas que tenho escutado nos últimos dias são apenas uma variação generalizada de algo que me é aconselhado desde sempre, e que varia entre “está calado” e “fala mais baixo”. Sei que sou um corpo estranho e irritante no meio jornalístico, político e intelectual lisboeta. Felizmente, também é essa estranheza que justifica que continue a escrever e a falar. 

Qual a mais-valia que entende poder dar para estas comemorações?
Posso fazer o papel de romeiro, e, sempre que me perguntarem quem sou, responder: “Ninguém.” Tenho vindo a afeiçoar-me a essa ideia de um tipo banal, pai de quatro filhos, que vive de escrever nos jornais, e que não é ninguém, poder presidir a uma comemoração como esta. Escrevi várias vezes sobre discursos do 10 de Junho e sempre me incomodou uma certa pomposidade, que me parecia distante e artificial. Pomposo certamente não serei, o que já é uma mais-valia.

O modelo das comemorações será o habitual ou pensa introduzir elementos novos de comunicação?
É prematuro adiantar alguma coisa a esse respeito, embora o essencial do modelo já esteja definido pelo Presidente, com as celebrações a desdobrarem-se por Portugal e Cabo Verde. O aspecto mais relevante do meu cargo são os discursos, que basicamente consistem em colocar ideias numa folha de papel e em defendê-las com argumentos desejavelmente consistentes. Não é nada que me assuste. Costumo fazê-lo três vezes por semana aqui no PÚBLICO.