O predador Harvey Weinstein foi personagem no Festival de Sundance

Untouchable acrescenta mais vozes àquelas que já tinham quebrado o silêncio acerca daquele que foi em tempos um dos homens mais poderosos de Hollywood. Mas outra história de abusos sexuais fez a sua aparição neste festival: horas antes, Leaving Neverland exibiu o lado negro de Michael Jackson.

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Quando o Festival de Sundance anunciou que Untouchable, o documentário da realizadora britânica Ursula Macfarlane sobre Harvey Weinstein, ali faria a sua estreia, os espectadores anteciparam que novas revelações pudessem vir a lume. Exibido esta sexta-feira à noite, ainda sobre as brasas de outro escaldante documentário britânico estreado em Sundance – Leaving Neverland, em que dois homens detalham os abusos que terão sofrido às mãos de Michael Jackson quando eram jovens –, Untouchable é sobretudo um documento que acrescenta novas vozes às muitas que já tinham vindo quebrar o silêncio.

Três antigos funcionários da Miramax partilham agora com a câmara as suas memórias, embora alegando que desconheciam as actividades de Weinstein, que em breve enfrentará pela primeira vez as suas acusações em tribunal. As actrizes Rosanna Arquette e Paz de la Huerta são particularmente assertivas quanto aos abusos que sofreram por parte do ex-titã de Hollywood, agora caído em desgraça.

Arquette, que se tornou uma voz proeminente dos movimentos #MeToo e Time’s Up, integrou o elenco de Pulp Fiction, produção de Weinstein que em 1994 ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

O que a fez falar? “Ronan Farrow foi decisivo, na fase inicial”, diz Arquette ao PÚBLICO. “Foi a compaixão dele que me persuadiu. Mostrou-se muito sensível, creio que percebe bem o que está em causa por causa da experiência terrível da sua própria irmã [Ronan é irmão de Dylan Farrow, que acusa Woody Allen, pai dele e padrasto dela, de abusos sexuais continuados; foi também, enquanto jornalista, dos primeiros a expor, na New Yorker, a conduta de Harvey Weinstein]. Nunca insistiu em fazer-me falar apenas para ter a história o mais depressa possível.” Quanto à sua decisão de participar neste filme, a actriz justifica-a assim: “A verdade tem de continuar a ser contada.”

Em Untouchable, Ursula MacFarlane entrevista Ronan Farrow, assim como Jody Kantor e Megan Twohey, cujos trabalhos de investigação para a New Yorker e o New York Times expuseram as práticas que Harvey Weinstein cultivou durante décadas.

À multidão que assistiu à estreia mundial do seu documentário, a realizadora disse ter falado também com Bob Weinstein, a outra metade da Weinstein Company, que alegou desconhecer as práticas do seu irmão e declinou participar no filme.

“Teríamos adorado poder contar com o testemunho de Harvey, para que ele pudesse falar-nos dele, dizer-nos quem é, mas rejeitou os nossos pedidos”, acrescentou MacFarlane. “Estranhamente, não deu muitas entrevistas [desde que o escândalo rebentou]. E acaba por ser mais poderoso ouvir a sua inconfundível voz-off enquanto o vemos a deambular por Nova Iorque.”

Curiosamente, a maneira como Harvey Weinstein ameaça uma das suas vítimas numa mensagem de voz dada a ouvir no filme é muito semelhante ao tom que escutamos a Michael Jackson em Leaving Neverland. Ambos usaram a fama e o poder de que dispunham para anular os seus acusadores.

PÚBLICO -
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Leaving Neverland, de Dan Reed, também teve a sua estreia mundial no Festival de Sundance DR

A principal revelação de Untouchable é a exposição das medidas que Weinstein tomou para desacreditar e difamar aqueles que o acusam, incluindo Ronan Farrow, contratando advogados dispendiosos e empresas de segurança. Um dos seus alvos foi Lauren O’Connor, uma antiga caça-talentos da Weinstein Company cuja queixa formal, um documento interno dirigido à empresa para a qual trabalhava, apareceu reproduzida no artigo do New York Times.

“Ele fez tudo para tentar destruir a Lauren”, contou uma Rosanna Arquette lavada em lágrimas no Festival de Sundance, abraçando O’Connor enquanto esta explicava como contraiu uma dívida de cerca de 300 mil dólares [cerca de 264 mil euros] para lutar contra Weinstein: “O preço a pagar pela integridade é gigantesco.” Tal como a actriz, assegura que não deixará de lutar: “A única saída é encontrar uma maneira de transformar isto em algo de bom.”

Ao PÚBLICO, Arquette admite que não é coincidência que o documentário sobre Michael Jackson e o documentário sobre Harvey Weinstein apareçam ao mesmo tempo. “Quero vê-lo. É mais do que altura de as pessoas começarem a encarar os pedófilos que durante tanto tempo saíram ilesos. A luz começa agora a penetrar na escuridão, e de repente tudo vem de cima, não é? Afinal não são apenas os padres.”

Também são realizadores como Bryan Singer, aponta. “O Corey Feldman tentou dizer a toda a gente, mas foi silenciado. Tinha razão. Mas eu diria que ainda não vimos nada do que está para vir.” 

E Weinstein, em tempos um reverenciado campeão do cinema, o pioneiro por trás de sucessos como Sexo, Mentiras e Vídeo e filmes oscarizados como O Meu Pé Esquerdo e O Paciente Inglês? Perdeu a cabeça? O que aconteceu?

“O que aconteceu foi que ele conseguiu esconder-se atrás do seu poder, e isso só piorou as coisas. Ele sempre foi assim. Não sabemos se já nasceu assim. Não sei o que lhe aconteceu quando era criança. Mas o homem claramente precisa de ajuda.”