Harvey Weinstein fez lista secreta com 91 pessoas para espiar

Produtor norte-americano elencou 91 nomes como alvos, alegadamente para demovê-las de denunciar publicamente o seu assédio sexual.

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Harvey Weinstein LUSA/GUILLAUME HORCAJUELO / POOL

É mais um capítulo nas revelações do "caso Harvey Weinstein", que tem marcado a rentrée informativa no mundo do cinema: o produtor norte-americano fez uma lista secreta com 91 nomes de figuras, maioritariamente mulheres, que estaria a investigar, através de detectives, com o objectivo de evitar a denúncia pública do seu comportamento sexual ao longo das últimas décadas.

A revelação é agora feita pelo The Guardian, que no sábado noticiou a existência desta lista, a que o Observer [edição de domingo do mesmo jornal londrino] teve acesso.

“A lista até agora desconhecida contém 91 nomes de actores, agentes de relações públicas, produtores, investidores financeiros e outros que trabalham na indústria cinematográfica, todos eles alegadamente identificados por Weinstein como parte de uma estratégia que visava impedir que se tornassem públicas as acusações contra o seu comportamento sexual”, diz o Guardian.

Fazendo a ligação com a notícia, revelada no início de Novembro pela revista New Yorker, de que Weinstein tinha recorrido a uma agência de investigação privada israelita fundada por ex-agentes da Mossad, a Black Cube, o diário britânico avança que esses nomes eram então distribuídos por uma equipa de detectives, para que eles tratassem de condicionar a liberdade de expressão e de investigação do caso.

Ronan Farrow, o repórter que é filho da actriz Mia Farrow e foi o autor do artigo na New Yorker, partilhou entretanto, igualmente este sábado, uma mensagem no Twitter explicando que a lista divulgada pelo Guardian é apenas uma de diversas versões, de que ele teve também conhecimento, e que usou no seu trabalho.

O referido documento foi criado no início de 2017, cerca de nove meses antes da revelação do caso Weinstein num artigo do New York Times de 5 de Outubro. Mas o Guardian não revela os nomes que aí estão citados, a não ser os das actrizes e outras mulheres que já testemunharam publicamente as suas experiências e as suas queixas contra o produtor. É o exemplo de Rose McGowan, que acusou Weinstein de a ter violado, e de Laura Madden, alegadamente assediada em hotéis de Dublin e de Londres, em 1991 – estas duas actrizes foram das primeiras a virem a público, em Setembro, e a acusarem o produtor de agressões sexuais.

Uma nota acrescentada à lista de Weinstein sugere que, já em Fevereiro de 2016, Madden teria sido fixada como alvo da intervenção dos detectives contratados pelo produtor, que se referia à actriz como uma mulher “muito amarga”.

A actriz inglesa Sophie Dix e uma antiga assistente de produção dos escritórios da Miramax em Londres, Zelda Perkins, estão também na lista. Em Outubro, Perkins revelou que tinha decidido quebrar o acordo de confidencialidade com o produtor para falar dos episódios de assédio sexual que sofreu durante anos e que a levaram mesmo a demitir-se do seu posto de trabalho, em 1998.

Já Sophie Dix queixou-se de que a carreira foi “drasticamente afectada” após o que descreveu como uma agressão sexual num hotel de Londres.

O documento contém uma primeira enumeração de 85 nomes – 50 dos quais sublinhados a vermelho –, aos quais foram depois acrescentados mais seis, durante o mês de Agosto. É nesta adenda que surge a norte-americana Annabella Sciorra, que em Outubro disse ter sido violada no seu próprio apartamento por Weinstein, nos anos 90. E a actriz Katherine Kendall, que se disse atacada na sua casa de Nova Iorque, em 1993. E ainda uma ex-funcionária do produtor, Laureen O’Connor, que em 2015 descrevia o ambiente de trabalho na Miramax como “tóxico para as mulheres”.

No conjunto dos nomes listados, a maioria – 48 – são mulheres, residentes em Nova Iorque, mas há também figuras de Los Angeles e uma dezena que mora em Londres.

Surge também citado o nome do realizador Brett Ratner, que no início de Novembro foi acusado pela actriz Ellen Page e por outras mulheres de assédio e violação e de comportamento sexual “homofóbico e abusivo”.

Harvey Weinstein tem negado “inequivocamente" todas estas acusações, dizendo – através do seu porta-voz – que todos os encontros foram de “sexo consensual”. Também negou o recurso a qualquer agência de detectives, e classificou como “pura ficção a ideia de que qualquer pessoa tenha sido alvo de espionagem".