Marcelo experimenta por um dia a vida de camionista de longo curso

Presidente da República fez a viagem Lisboa-Porto a bordo de um camião e almoçou com outros profissionais em Condeixa-a-Nova para conhecer a realidade de quem anda nas estradas nacionais e internacionais.

Marcelo vai de Lisboa ao Porto em camião TIR
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Marcelo vai de Lisboa ao Porto em camião TIR Daniel Rocha
A bordo vão também jornalistas e um segurança
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A bordo vão também jornalistas e um segurança Daniel Rocha
O Presidente quer conhecer de perto a realidade desta profissão
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O Presidente quer conhecer de perto a realidade desta profissão Daniel Rocha

Marcelo Rebelo de Sousa fez nesta segunda-feira a viagem entre Lisboa e Porto a bordo de um camião de mercadorias para conhecer as condições de vida dos camionistas de longo curso. Foi esse o desafio que aceitou de Fernando Frazão, fundador do grupo Motoristas do Asfalto, que quis mostrar ao Presidente da República “a realidade da vida de motorista, as dificuldades do dia-a-dia”. Marcelo já sabia de algumas – “os horários difíceis, as cargas e descargas complicadas” – mas quis conhecer mais de perto esta realidade.

Para isso, o chefe de Estado embarcou num camião que, desta vez, viajou sem carga, mas percorrendo o percurso habitual – pela Estrada Nacional 1 em direcção a Norte, parando em Condeixa-a-Nova para almoçar com outros motoristas de longo curso. Dali, a viagem rumo ao Porto passou a ter Alexandrina Santos o volante, o que permitiu a Marcelo perceber "os problemas específicos das mulheres camionistas de longa distância, que são muito menos” do que os homens.

O primeiro problema de que Fernando Frazão fala é o da “escravidão” que diz viver-se nos entrepostos comerciais nacionais, onde muitas vezes são obrigados a descarregar a mercadoria ao fim de longas viagens e usando porta-paletes “sem ter formação para isso”. E isso é um facto da vida tanto dos homens como das mulheres desta profissão: “Nisso somos iguais”, confirma ao PÚBLICO Rita Brás, uma das mais antigas mulheres camionistas profissionais, que já não está no activo.

E esse é outro problema desta profissão de grande desgaste, mas com uma idade de reforma igual às outras. “Uma pessoa com 65 anos já não tem a destreza de andar com um camião de 40 toneladas na estrada”, alerta Frazão, para quem a idade da reforma nesta profissão devia baixar, pelo menos, para os 60 anos de idade. E se essa é uma questão de segurança, há outras, como a ausência de parques para repouso ao longo das estradas nacionais, mas também a vigilância nesses parques, onde há frequentes roubos, sobretudo de gasóleo dos camiões. 

Problemas que ficaram fora do acordo colectivo de trabalho, negociado em Setembro do ano passado, e que o Presidente da República quis perceber melhor: “Continua a haver muitas questões que têm a ver com a lei, com a experiência do dia-a-dia deles. Não há nada como conhecer, e é isso que vou tentar fazer hoje”, dizia o chefe de Estado antes da viagem. 

"Se houvesse união, outro galo cantaria"

Esta iniciativa do Presidente e dos Motoristas do Asfalto terá gerado interesse, alguma curiosidade, mas também muita desconfiança no sector. Frazão pensa que isso acontece por falta de união: “Esta profissão é um bocadinho… talvez pelas dificuldades que passamos, pela solidão, por ser monótona…”  Luís Brás, que já foi camionista, completa a ideia: “É falta de união – se houvesse união, outro galo cantaria”.

Luís Brás é locutor do único programa de rádio dirigido à classe. Chama-se Longo Curso – Estrada Fora, vai para o ar todos os dias entre as 10 e as 12h na Rádio Quinta do Conde e é ouvida online pelos profissionais do asfalto.

Com a sua longa experiência dos dois lados, Brás acrescenta problemas ao elenco: “Os baixos salários, pois a categoria máxima foi agora actualizada para 630 euros como ordenado base. Depois, têm outras abébias, mas são coisas por fora que não contam para a Segurança Social, por isso, se alguém ficar doente ou se reformar, isso não conta.”

Nas viagens internacionais, somam-se problemas com os horários de paragens obrigatórias considerados excessivos, sobretudo em França, assim como as violações dos períodos de descanso para descarregar os camiões. Este será mesmo o principal problema da profissão: é um trabalho extraordinário, mas não será pago, nem pelos transportadores, nem pelos destinatários da mercadoria.

O último troço da viagem de Marcelo Rebelo de Sousa a bordo de um camião de longo curso foi feito já em auto-estrada, e não pela EN1. Numa breve paragem junto à portagem de Grijó, em Gaia, para falar com os jornalistas, o Presidente declarou: “Estou mais rico, primeiro porque fiquei a conhecer o que não conheci; percebi que há problemas e que alguns deles são mais fáceis e outros mais difíceis. Compreendi melhor a posição dos camionistas. Humanamente foi muito gratificante”, resumiu em jeito de balanço Marcelo.

Ao mesmo tempo, Presidente da República deixou a garantia de que vai tentar sensibilizar as autoridades empregadoras e também o próprio Governo para os problemas que identificou no dia que dedicou aos motoristas de longo curso. A redução da idade da reforma é uma questão prioritária, a par do problema das cargas e descargas.

Questionado se não corre o risco de ter outros sectores a reivindicar iniciativas semelhantes, como os condutores do metro ou os maquinistas, o Presidente da República assumiu que sim: “Corro, corro, corro, mas alguns deles já estavam no meu pensamento", assegurou, lembrando, de seguida, que, como Presidente, andou de metropolitano e que, "oportunamente", vai dar uma "especial atenção a outros problemas”. A propósito do transporte ferroviário, Marcelo Rebelo de Sousa disse pretender “acompanhar atentamente” os problemas que se sentem neste sector.

Relativamente às queixas no sector da saúde, com destaque para os enfermeiros, o Presidente da República disse conhecê-las bem e que a sua vontade é estar mais próximo daqueles profissionais que enfrentam problemas. Mas não revelou o que pretende fazer. “Tenho várias ideias para breve, mas tenho que organizá-las”, declarou, apressando-se para assistir à apresentação do projecto de reconversão do antigo matadouro industrial do Porto, na freguesia de Campanhã, num centro empresarial, cultural e social.