Conselheiros aplaudiram um líder que se apresentou ao ataque

A noite só acabou depois de esta edição do PÚBLICO estar fechada no papel, mas não sem pelo menos um momento-surpresa: o apoio de Luís Filipe Menezes à direcção nacional.

Conselho nacional teve 75 pessoas inscritas para falar
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Conselho nacional teve 75 pessoas inscritas para falar Nelson Garrido
Rui Rio estava confiante na aprovação da moção
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Rui Rio estava confiante na aprovação da moção Nelson Garrido
O abraço inesperado juntou Rio e Menezes
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O abraço inesperado juntou Rio e Menezes Nelson Garrido
Pedro Pinto entregou requerimento a pedir voto secreto
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Pedro Pinto entregou requerimento a pedir voto secreto Nelson Garrido

Rui Rio jogou ao ataque, no conselho nacional que reuniu perto de três centenas de militantes do PSD, entre participantes e observadores, ontem a partir das 17h num hotel do Porto. Foi um discurso duro que levou Hugo Soares, deputado próximo de Luís Montenegro, a concluir: “Quero dizer-lhe sr. presidente, com muita lealdade, olhos nos olhos como me habituei a falar consigo: se Rui Rio fizesse intervenções como fez contra o dr. Montenegro no último sábado contra o dr. António Costa, hoje não estávamos aqui de certeza”.

Mas a reunião acabou por ser consumida, em grande parte, pela discussão em torno da forma de voto da moção de confiança apresentada por Rui Rio, com os críticos, com Pedro Pinto à cabeça, a pedirem que a votação se fizesse por “escrutínio secreto”. No requerimento apresentado, e a que o PÚBLICO teve acesso, os subscritores invocaram a norma do regulamento do conselho nacional, que prevê a votação secreta no caso de haver um pedido dos conselheiros nesse sentido. 

Para eles, nem sequer seria preciso haver uma apreciação desse requerimento por considerarem que a excepção ao “braço no ar” confere “o direito impositivo, logo inoponível”, de as votações serem secretas desde que tal seja pedido por um décimo dos membros do conselho nacional presentes. Mas a dúvida instalou-se com a mesa a demorar a chegar a uma decisão. Houve, inclusivamente, um apelo à mediação do conselho de jurisdição. A questão não foi dirimida antes do fecho desta edição. 

Ainda antes desta discussão e, claro, muito antes da votação da moção de confiança (que também não se realizou até ao fecho desta edição), os alvos de Rio foram os críticos internos. O líder do PSD falou em “guerrilha”, “terramoto” e em “pura dramatização”, desvalorizou sondagens e pediu responsabilidade e maturidade. “Temos de criar as condições para ganhar. Construir uma verdadeira alternativa à governação socialista. Com a guerrilha que temos tido e o terramoto que estamos aqui a resolver não é atingido aquilo que está ao nosso alcance”, disse na intervenção inicial. Rio pediu que dessem oportunidade à direcção para trabalhar e prometeu "acentuar" a oposição ao Governo. Foi aplaudido, mesmo sem trazer ao discurso nenhuma das suas bandeiras do último ano.

Ao seu lado teve os companheiros de partido esperados, como Paulo Rangel, Francisco Pinto Balsemão, Mota Amaral, José Silvano, Álvaro Amaro, Nuno Morais Sarmento ou José Manuel Fernandes, mas também apoios improváveis.

Luís Filipe Menezes interveio ainda antes do jantar para se mostrar inequivocamente ao lado de Rui Rio, de quem tem sido um feroz inimigo político. A intervenção de Menezes, durante a qual o ex-líder se disponibilizou para integrar a lista de deputados à Assembleia da República pelo Porto, em último lugar, originou um abraço emocionado entre os dois antigos rivais, já fora do hotel, quando Rio saiu da sala.

O momento-surpresa teve o efeito de agastar os críticos e causar-lhes desânimo. De tal forma que ainda antes do intervalo e de se saber se a moção seria votada por voto secreto ou braço no ar, a ideia generalizada era a de que a direcção de Rui Rio seria reconfirmada pelo conselho nacional, independentemente da forma que tomasse a votação.

Montenegro ausente

Com Luís Montenegro ausente (no seu escritório de advocacia) a 500 metros do hotel Porto Palácio, onde tudo se passou, e sem convite para assistir à reunião, coube a Hugo Soares fazer um dos mais violentos ataques ao líder.

“O que estamos aqui a fazer hoje é política”, disse o deputado que foi líder parlamentar a seguir a Montenegro. Hugo Soares questionou os conselheiros sobre se “entendem que o caminho que esta direcção política está a fazer é capaz de levar o PSD a uma vitória eleitoral” e partilhou a sua opinião. “Vejo um carro que vai contra a parede, não o acelero, tento travá-lo. É esta a minha convicção, de que a aproximação ao PS é uma estratégia errada”.

Além de Hugo Soares, também Pedro Pinto, líder da distrital de Lisboa do PSD, foi claro nas críticas. “Entra pelos olhos adentro que António Costa se está a divertir com o PSD e que Rui Rio lhe dá um jeitão”, disse. E sobre o discurso do líder, assumiu que quando ele “fala para os companheiros agride-os” com acusações de falta de coragem e golpes. “Podia guardar essa força para atacar o PS”, sugeriu.

A histórica Virgínia Estorninho foi ao conselho nacional dizer uma frase que já fez as delícias das redes sociais: “O banho de ética é uma banhada de ética”.

Cá fora, antes do repasto rápido que o preparou para a segunda parte da reunião, Rio confidenciou aos jornalistas: “Tenho confiança em ter um bom resultado na forma como o conselho nacional está a decorrer, mas só no fim é que se sabe”.