Miguel Manso
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Miguel Manso

Eles vão percorrer Portugal ao encontro de quem já trata de um amanhã sustentável

Série documental quer dar a conhecer o que de melhor se faz em Portugal em matéria de sustentabilidade, desde a alimentação, moda e floresta à educação, economia e energia. Nos próximos meses andam à procura de sugestões.

O vasto leque de problemas ambientais entra-nos casa dentro em noticiários e documentários. E o que se faz com isso? “O medo paralisa-nos. São os exemplos positivos que nos fazem querer mudar, fazer melhor.” A ideia de “celebrar sucessos” para inspirar mudanças é o motor da viagem de seis jovens que vão percorrer o país ao encontro de pessoas e iniciativas que tratam diariamente de construir um futuro mais sustentável – desde a alimentação, moda e floresta à economia, educação e energia. Daí vai resultar a série documental É p’ra amanhã, cuja ideia foi apresentada esta quarta-feira, 16 de Janeiro, em Lisboa.

Em todos eles o documentário francês Demain (Amanhã em português, de 2015) despertara a vontade de reproduzir a receita em Portugal. Buscar, tal como Cyril Dion e Mélanie Laurent fizeram em dez países, os exemplos de quem já está a fazer diferente, a viver de forma mais sustentável. Luís Costa, formado em Engenharia Biomédica e consultor em avaliação de impacto social, deu o empurrão ao desafiar o realizador Pedro Serra, quando este acabava de apresentar o documentário Wasted Waste (2017) sobre estilos de vida freegan — assentes no consumo consciente de recursos e no combate ao desperdício. Foi fácil juntar amigos com preocupações semelhantes e todos se tornaram produtores do documentário. Pedro realiza, Luís coordena, Francesco Rocca é o gestor, Teresa Carvalheira e Verónica Silva tratam da comunicação, Edgar Rodrigues do design.

O primeiro sinal de que fazer isto em Portugal era possível veio do programa No Planet B da AMI, que em Novembro lhes deu 49 mil euros. Precisavam de mais seis mil para completar o orçamento. E estão quase lá. Através da campanha de crowdfunding que lançaram com uma meta de 3500 euros tinham recebido, até ao final da tarde desta quarta-feira, mais de cinco mil euros de 215 contribuições.

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Francesco Rocca, Verónica Silva, Edgar Rodrigues, Pedro Serra, Teresa Carvalheira e Luís Costa Miguel Manso

A cada uma destas pessoas prometem dar algo de volta. Desde um agradecimento público, plantar uma árvore, ir almoçar ou partilhar uma experiência com quem contribui — as sete vagas para acompanhar as rodagens ou fazer parte do percurso é que já estão preenchidas. O crowdfunding é assim uma forma de incluir outros nesta viagem.

Antes de partirem para a estrada em Abril, vão começar a recolher contributos — oficialmente, pois todos os dias lhes chegam sugestões — para juntar a uma base de dados que já tem mais de 250 possíveis pontos de paragem. Depois há que seleccionar alguns tendo em conta que, além de “celebrar sucessos”, como diz Francesco, meio italiano, meio alemão, que integra o Impact Hub Lisbon e se tem dedicado à investigação de produtos sustentáveis, querem dar “visibilidade aos invisíveis”, completa Teresa, designer de moda e membro do movimento Fashion Revolution. “Há gente que nos fala do vizinho da quinta ao lado que vive de forma diferente. Do primo que faz permacultura. Da amiga que produz a própria roupa. Quem são estas pessoas?”

“São elas que nos mostram como as mudanças são fáceis e que não é preciso termos sido ambientalistas a vida toda para as pormos em prática”, diz Verónica, produtora de conteúdos freelancer. “Há pessoas que sozinhas mudam uma comunidade só porque começaram a fazer diferente.”

São elas que desconstruem a tendência de, “para bem ou para o mal”, se apontar o dedo aos órgãos de poder ou organismos institucionais, refere Luís. “O problema, tal como a solução, está nas nossas mãos. Aquilo que gostaríamos que associações ambientalistas ou autarquias fizessem está muitas vezes ao nosso alcance individual.”

Há muito tempo que os seis põem isso em prática. Procuram que o seu consumo tenha o menor impacto possível no ambiente, desde o lixo que produzem, a alimentação que fazem ou a forma como se deslocam. Com o documentário não podia ser diferente, por isso vão andar sempre de transportes públicos ou num carro eléctrico. As bicicletas também vão ser usadas para as distâncias curtas.

No Outono esperam ter o documentário completo e que este chegue às televisões. Aí o trabalho não termina. A ideia é continuar a mapear o Portugal sustentável e, ao mesmo tempo, mostrar este país nas escolas. Sendo eles “fruto do que o Demain procura”, torna Luís, a intenção é inspirar outros.

A pergunta que o documentário francês levanta é a mesma que eles repetem: “E se mostrar soluções e contar uma história positiva fosse a melhor forma de resolver as crises ecológicas, económicas e sociais?”