Crítica

Rebeldia à beira-Tejo

Selvagens está mais preocupado com a fotogenia das protagonistas do que com um trabalho consistente sobre a sua densidade enquanto personagens.

Uma quantidade de diálogos que acumula clichés sobre  a “liberdade”, a “rebeldia”: <i>Selvagens</i>
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Uma quantidade de diálogos que acumula clichés sobre a “liberdade”, a “rebeldia”: Selvagens
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Dennis Berry, realizador americano que tem trabalhado sobretudo na televisão e fez uma parte substancial da sua obra em França (onde o seu pai, John Berry, se exilou depois de ter ido parar à lista negra do mccarthysmo), assina em Selvagens o seu primeiro made in Portugal. Em Portugal, e numa geografia bastante circunscrita: o centro do filme é uma casa à beira-Tejo, na zona das docas, e é entre essa casa e as imediações que se passa o essencial do filme. Que consiste no encontro de duas raparigas, cada uma com um passado de que procura fugir: a personagem de Catarina Wallenstein é uma vedeta popular de má reputação, ainda pior depois de um ex-namorado ter publicado vídeos íntimos dela na internet; a de Nadia Tereskiewicz vem de uma estada na prisão, aonde foi parar em consequência do envolvimento romântico com um terrorista basco.

Selvagens pretende, também pelo perfil das personagens, colocar-se sob o signo romântico da marginalidade “existencial”, o espaço isolado da casa onde as raparigas se refugiam e se relacionam a servir também de espaço “metafórico” para um longo cerimonial quase teatral, às vezes cantado e bailado. Mas se não se nega uma certa habilidade do filme para captar alguns elementos materiais (a luz lisboeta e as cores do Verão dão alguns momentos bonitos), Selvagens fica bastante longe de parecer conseguido, mais preocupado com a fotogenia das suas protagonistas do que com um trabalho consistente sobre a sua densidade enquanto personagens, assente numa estrutura “livre” que talvez queira evocar um espírito nouvelle vague mas encontra apenas a amorfia, e sobretudo numa quantidade de diálogos que acumula clichés sobre a “liberdade”, a “rebeldia” e outros temas sempre bastante “gritados”.