Um ano de Rio e o PSD “na terra de ninguém”

Um ano após ter sido eleito presidente do PSD, que balanço fazem Miguel Morgado, Pedro Duarte e Miguel Pinto Luz da liderança de Rui Rio?

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Rio é líder há um ano MÁRIO CRUZ/LUSA

Fazendo “um balanço negativo” do primeiro ano de mandato de Rui Rio à frente do PSD, Miguel Morgado considera que, “com o refúgio no Bloco Central, o PSD está numa terra de ninguém do ponto de vista estratégico”. Assumindo que é este o principal ponto das suas discordâncias, o deputado que foi adjunto de Passos Coelho no anterior governo diz que “foi feita uma mudança radical de orientação estratégica do partido”, tendo sido “abandonada a vocação histórica do PSD, que é de ocupar um lugar de formulação e proposta de governação essencialmente diferente do projecto de poder da esquerda e do PS em particular”.

E dá como exemplo “iniciativas estratégicas”, que não percebe “em que beneficiam o país, como o pseudo-acordo dos fundos estruturais e o pseudo-acordo da descentralização”. Com “o fracasso dessa orientação estratégica, passados seis meses, ficou patente a descaracterização e indiferenciação do partido”. A que se seguiu “uma desorientação no sentido literal”, garante.

Morgado defende que “desde o momento da eleição não houve tentativa de unir, pelo contrário”. E considera que Rio “seguiu o seu caminho como se existisse uma pureza ideológica do PSD que vai ao arrepio da história e da composição sociológica do partido, que é heterogénea e que fez sempre a força do PSD”. Na sua opinião, Rio “chegou ao ponto de dizer que quem não defende a pureza ideológica do PSD deve sair”. Um gesto que “alienou a base do PSD”, provocando mesmo “duas dissidências que vão concorrer com o PSD, a Aliança de Pedro Santana Lopes e o Chega de André Ventura”.

Também para Pedro Duarte, que desde cedo divergiu de Rio, “a estratégia que o partido está a seguir não é a correcta e não é a que serve o interesse do país”. O antigo líder da JSD sublinha também que ela “não serve os interesses eleitorais do PSD”, se bem que acrescente que essa “é uma questão secundária”.

Pedro Duarte considera que “o país precisa de uma alternativa clara à actual governação”, a qual deve ter “uma agenda e um programa de futuro, com uma visão que, de facto, prepare o país para os desafios e oportunidades que aí vêm”. O que, frisa, “não tem acontecido porque o PSD se tem, em certo sentido, limitado a tentar candidatar-se a ser melhor suporte do Governo do que têm sido o BE ou o PCP”. Uma estratégia que classifica de “muito redutora para o PSD”, que deveria ter tido “uma atitude de se afirmar como alternativa clara a esta governação”.

Menos violento no tom, Miguel Pinto Luz, outro dos nomes que surge como eventual candidato a líder, considera que o PSD devia “estar a fazer mais oposição”. Afirmando que “António Costa tem vindo a vender um país de ilusões aos portugueses”, Pinto Luz assume aquilo que considera dever ser o discurso do PSD como principal partido da oposição. “Os portugueses hoje já perceberam que afinal as vacas não voam em Portugal e que há falta de qualidade de vida, dos serviços públicos, o Estado falha recorrentemente, como falhou em Borba, no SNS, nos incêndios, falha todos os dias, este Estado cada vez mais enxuto, menos eficiente a prestar o serviço que deve prestar aos nosso concidadãos”, afirma Pinto Luz, acrescentando que “os portugueses já perceberam" e que "é preciso fazer uma oposição mais presente, mais activa, mais combativa, e é isso que falta neste primeiro ano de mandato” de Rio. Mas acrescenta: “Acho que ainda há tempo de fazer essa oposição.”

O eurodeputado Paulo Rangel, apontado para liderar a lista do PSD às europeias, não quis falar sobre o primeiro ano de mandato de Rio, mas na sexta-feira, no seu programa habitual da TVI24 Prova dos 9, não deixou de censurar o facto de ter sido aberta uma crise política destas em pleno período eleitoral e quando, disse, “estamos com um líder que foi legitimamente eleito e que está a meio do seu mandato”. “Uma coisa é ter divergências tácticas, estratégicas, ideológicas relativamente à direcção do partido (...)”, outra coisa é “provocar uma crise que é negativa para o partido, para as instituições e para a democracia política”.

Já José Eduardo Martins disse na sexta-feira à TSF que se uma clarificação “for rápida, pode não ser penalizadora para o PSD”. E acrescentou que os sociais-democratas têm de combater o risco de uma "paz podre".