Montenegro desafia Rio, um líder que perdeu aliados

Movimentação das distritais já tem assinaturas para um conselho nacional extraordinário.

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Montenegro vinha dizendo até esta semana que Rio devia disputar as legislativas na liderança do PSD. Agora considerou que, se antes era cedo, amanhã seria tarde demais Miguel Manso

A pergunta soa na cabeça de muitos: porque é que Luís Montenegro avança agora? Na tese dos mais próximos, o timing só podia ser este, mais tarde era impossível. E porque esperou que a “degradação” do partido se estancasse e isso não aconteceu. O ex-líder parlamentar do PSD desafiará Rui Rio a ir a eleições no partido, muito antes de este terminar o mandato como líder. Caso Rui Rio não aceite, será convocado um conselho nacional extraordinário para tentar destituir a comissão política nacional. Todo o processo deverá ser rápido, para que já seja o novo líder a ter uma palavra na escolha dos candidatos às europeias. No arranque de um ano eleitoral, o partido está a ferro e fogo.

Pouco tempo depois de o movimento das distritais ter conseguido as assinaturas necessárias para a convocação de um conselho nacional extraordinário para destituir a direcção de Rui Rio, foi confirmado o rosto do challenger: Luís Montenegro. O ex-líder parlamentar vai pedir uma clarificação. O anúncio está marcado para esta sexta-feira à tarde, no Centro Cultural de Belém.

A movimentação das distritais ganhou corpo no dia 4, como noticiou esta semana o PÚBLICO, através de uma reunião em que estiveram vários dirigentes distritais, alguns dos quais ex-apoiantes de Rui Rio. Ao longo dos tempos, o líder do PSD foi perdendo os seus aliados. Alguns ficaram muito desiludidos logo no congresso, quando consideraram que estavam a ser desvalorizados nas estruturas e órgãos do partido. Outros foram acentuando a sua decepção com a forma como Rio fazia oposição ao Governo ou com as propostas que apresentou, como a da taxa contra a especulação imobiliária, colada ao BE. E, num almoço em Lisboa, concluíram: Rio chegou a um ponto de não retorno e já não tem capacidade para inverter a situação a favor do partido até às eleições.

Nada é ainda certo

Luís Montenegro quer protagonizar uma mudança no PSD de Rui Rio que se encostou à esquerda e que tem sido suave na oposição ao Governo de António Costa. O antigo líder da bancada é conhecido como um defensor de uma oposição vigorosa ao PS e de uma maior proximidade com o CDS e essa deverá ser uma das linhas de força da sua proposta. No centro-direita há quem já fale numa proposta de coligação com o CDS para as eleições legislativas, apesar de Assunção Cristas já ter rejeitado esse cenário

Mas até se poderem colocar esses cenários, há várias etapas no PSD que Montenegro tem de ultrapassar e nem todas estão garantidas. O que é expectável é que Rui Rio rejeite ou até ignore este desafio de Luís Montenegro. O líder do PSD estará numa reunião do Conselho Estratégico Nacional, neste sábado, em Coimbra, mas uma nota de imprensa já fez saber que não deverá haver declarações aos jornalistas.

A estratégia de “apertar o cerco” à actual direcção pode não resultar e nesse caso é que serão entregues as assinaturas (mínimo de 33) para convocar um conselho nacional extraordinário. Nessa reunião terá em cima da mesa uma proposta de moção de censura e datas para directas e congresso. Os apoiantes de Luís Montenegro querem um processo rápido. Segundo Pedro Pinto, líder da distrital de Lisboa, é possível dar todos estes passos em 45 dias, um prazo que considerou ser compatível com a entrega de listas às eleições europeias, que será em meados de Abril. Pedro Pinto falava aos jornalistas, no Parlamento, sobre o momento que vive o partido, admitindo que, “se as pessoas estivessem satisfeitas com o papel que o PSD desenvolve na sociedade portuguesa, e se achassem que a situação era favorável”, uma disputa eleitoral interna nesta altura “seria ridículo”.

Para os apoiantes de Rui Rio, esta movimentação de Luís Montenegro não faz sentido. O ex-líder parlamentar terá de explicar porque recuou há um ano e avança agora sem deixar que o mandato de Rio termine. Há dois dias, o ex-deputado já deu um sinal da sua visão sobre a liderança do partido: “Assim o PSD não se consegue afirmar.”

Se os apoiantes de Montenegro conseguirem convocar um conselho nacional, não é líquido que a moção de censura seja aprovada. Mesmo que a votação seja secreta. O PSD está dividido entre os que querem uma mudança antes das eleições e os que, apesar de criticarem a estratégia de Rio, defendem que este deve ser sujeito ao teste das urnas. “Nunca vi o partido assim”, comentava um social-democrata, que foi dirigente durante vários anos e acompanhou de perto várias mudanças intempestivas de liderança.

Morgado à espreita

Caso sejam convocadas eleições directas, Montenegro pode não ir sozinho a votos. O ex-adjunto de Passos Coelho, Miguel Morgado, assume estar a ponderar uma candidatura. O deputado tem sido crítico de Rui Rio e já disse recear que o PSD se torne irrelevante no sistema político. Na ala de Montenegro esta disponibilidade é desvalorizada e há quem lembre que são precisas 1500 assinaturas para se apresentar uma candidatura.

Neste cenário de convulsão do PSD, o Presidente da República ressalvou ontem não querer comentar especificamente a situação no partido, mas disse manter a convicção de que é bom haver “oposições fortes” e “alternativas de poder”. “É bom para a democracia e é bom para um Presidente da República, porque quanto mais alternativas houver em termos de governação e de poder, naturalmente, mais escolha têm os portugueses e mais fácil é resolver situações de crise”, disse Marcelo Rebelo de Sousa, que foi líder do PSD. Tal como Passos Coelho — de quem Montenegro foi líder parlamentar —, que não quis fazer nenhum comentário a esta movimentação no partido.

Nos últimos dias, os apoiantes de Montenegro têm feito uma contagem de espingardas entre os conselheiros nacionais. Caso se concretize a destituição da comissão política nacional, já será o novo líder a conduzir a elaboração das listas de deputados para as próximas legislativas. A direcção de Rui Rio considerou, desde o início, que a actual bancada lhe era hostil. Agora, entre muitos deputados a satisfação é indisfarçável.