Crítica

Trevor Noah: o ódio transforma o amor num crime

Um livro pungente, violento e, tantas vezes, revoltante. Com a leveza que o sarcasmo e perspicácia permitem e muito humor à mistura.

Neste livro, todas as histórias que se cruzam com a história pessoal de Trevor Noah são uma anatomia da despossessão física e simbólica a que os corpos negros foram sujeitos pelo Apartheid
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Neste livro, todas as histórias que se cruzam com a história pessoal de Trevor Noah são uma anatomia da despossessão física e simbólica a que os corpos negros foram sujeitos pelo Apartheid

Apresentador de The Daily Show, um dos mais famosos stand-up comedian do mundo, o autor deste livro é ele próprio um condensado da história de uma das maiores vilanias ideológicas do século XIX, arrastada até finais do século XX: o Apartheid.

É um livro comovente, pungente, violento e, tantas vezes, revoltante. Com a leveza que o sarcasmo e perspicácia permitem e muito humor à mistura, vemos como o ódio, enquanto instrumento político de selecção, estratificação, exploração e dominação, tornou a convivência entre brancos e não-brancos numa aventura impossível. Em tom jocoso e dramático, é uma dissecação do esqueleto do que foi o quotidiano da segregação racial, onde a fronteira da identidade começava e acabava entre o branco e o não-branco. Além da clássica autobiografia em que autor, narrador e história se singularizam per si, é sobretudo uma cartografia da África do Sul do Apartheid.

Nelson Mandela disse um dia que “uma autobiografia não é um mero catálogo de eventos e experiências (...), mas serve também como uma espécie de anteprojecto em que os outros podem modelar as suas vidas”, mostrando como a história dos resistentes contra o Apartheid é também a história do país e da sua gente.

Assim se pode ler este livro que, numa história familiar cujo lugar de enunciação parte dum corpo mestiço numa sociedade em que a mistura racial era uma heresia. Trevor nasce do amor que a política do ódio transformou em crime porque, para a ideologia da supremacia racial, ele era o resultado da conspurcação da pureza branca.

Quando nasceu, as relações afectivas inter-raciais eram ilegais segundo leis que tornam a relação dos seus pais num crime, como sugere o título do livro. A mãe chegou a ser presa e multada apenas por ter um filho mestiço. O Apartheid, ideologia da identidade construída na concepção exclusiva da raça, tinha como alicerce a racialização das relações de poder, com uma visão absolutamente obcecada pela necessidade de fabricar o “Outro”, mais projectada na figura do Negro, sustentada pelo culto da diferença como baliza legitimadora da pertença à comunidade política. 

O autor de Sou um crime nasceu em 1984, de mãe sul africana negra e pai suíço germanófono, na township de Soweto, arredores de Joanesburgo, onde 8 anos antes Hector Pieterson, uma criança de 13 anos, fora assassinado pela polícia numa manifestação estudantil. O autor narra a infância durante um regime que mantinha o poder pela violência e terror (“a township vivia num estado constante de insurreição; onde havia sempre alguém a manifestar-se ou a protestar algures e era preciso reprimi-los” (p36), retratando como a violência simbólica e física era presença quotidiana em todas as esferas da vida dos não-brancos, sobretudo negros, e como foi a forma administrativa de gestão política da segregação racial e da manutenção do privilégio branco. Ele nasce 10 anos antes do fim oficial do Apartheid com a chegada ao poder de Mandela, em 1994, e nessa década o regime sul-africano estava cada vez mais isolado, perdendo apoio das antigas potências coloniais ocidentais devido à luta dos movimentos de libertação dos negros, mas também das pressões e mobilizações internacionais contra o Apartheid, num continente quase totalmente livre do jugo colonial.

A chegada ao poder do Partido Nacional, em 1948, com um programa de organização sistemática da segregação racial, consolidara definitivamente a estrutura socioétnica e político-económica da África do Sul, relegando os não-brancos, maioritariamente negros, para lugar de infra-subalternidade, com uma divisão territorial que confinou mais de 80% da população em apenas 13% do território do país. Noah mostra-nos como a política territorial segregacionista que deu origem aos Bantustões, territórios onde eram acantonados os povos autóctones, daria lugar aos townships, guetos construídos ou autoconstruídos nas periferias das grandes cidades e lembra que os bantustões eram, aparentemente, “os locais de origem das tribos sul-africanas, ‘nações’ semi-soberanas onde os negros podiam ser ‘livres’. É óbvio que se tratava de uma mentira. (…) as zonas rurais brancas eram luxuriantes, verdes e irrigadas, as terras dos negros estavam sobrepovoadas, os solos esgotados inférteis e erodidos.” (p68) Ou seja, a política de confinamento das populações autóctones em zonas rurais produziu o confinamento de pessoas negras em guetos periurbanos.

A sua história demonstra como a biologia ao serviço da política delimitou não apenas fronteiras físicas, mas também fronteiras de pertença em que o grau de melanina determinava sempre o lugar, onde até o próprio corpo era uma fronteira para definir a posição de cada sujeito político na sociedade sul africana. Na verdade, a história de Trevor ilustra bem como a raça é uma construção política. Ele assume-o ao dizer “sei que sou negro e identifico-me como negro, mas a verdade é que não é a cor da minha pele”. (p231) Enquanto mestiço, não podia ser branco para o regime racista que via na pureza racial o elemento chave da constituição da comunidade política e projectava o branco como superior, nem era suficientemente negro para ser totalmente reconhecido como parte da comunidade negra porque a história da branquitude ergueu a melanina como último reduto da pertença identitária. Apesar disso, muitas vezes a comunidade negra percebia ser uma parte sua que estava a ser usada contra si própria e mostrava-se disposta a resgatá-la.

A mestiçagem em contexto colonial é uma história de violência física e simbólica e corresponde, quase sempre, à extensão da dominação colonial e patriarcal sobre o corpo da mulher negra. Mesmo quando resulta da liberdade e da vontade íntimas dos envolvidos, ela embate sempre nas relações de poder construídas ao longo da história da dominação colonial. No tempo colonial, a engenharia social através da mestiçagem fez com que o mestiço fosse muitas vezes visto como intermediário do poder por colonos e colonizados, remetido para um não-lugar que convinha ao sistema de dominação, servindo de instrumento de intermediação para a manutenção do seu poder sem lhe reconhecer legitimidade de pertença.

Todos os episódios contados com a avó e com o avô, mas, sobretudo, com os colegas negros e brancos da escola em que para estes era negro e para aqueles era branco, são o resultado da cultura da ideologia da raça que definiu a dimensão cromática como uma fronteira de identificação. Trevor percebeu bem cedo que tinha de se posicionar face ao não-lugar que o Apartheid lhe atribuía: “Apesar de tudo, tinha de escolher. Porque o racismo existe e temos de eleger um lado. Podemos afirmar que não escolhemos lados, mas, mais cedo ou mais tarde, a vida obrigar-nos-á a escolher” (p231) “e com os miúdos negros, não estava constantemente a tentar ser. Com os miúdos negros, simplesmente era”. (p 63)

Ao longo de todo o livro, Trevor Noah esmiúça, através da sua experiência familiar, como o regime do Apartheid construiu “o mais avançado sistema de opressão racial jamais visto”, e como “era um estado policial totalitário, um sistema de vigilância e de leis desenhado para manter os negros sob controlo. Na América, deu-se a deslocação forçada dos nativos para reservas, acompanhada de escravatura, seguida de segregação. Imaginem essas três coisas aplicadas ao mesmo grupo de pessoas e ao mesmo tempo. Era isso o Apartheid” (p28).

Em nenhum livro caberá toda a história de vida de alguém e muito menos a história inteira de um país e sua gente, mas este livro é uma metáfora desassombrada da dor que foi o inferno do Apartheid, partilhada pessoal e colectivamente pelos não-brancos, em particular os negros. O autor assume de forma transparente e crua que contar a sua história é, ao mesmo tempo, uma homenagem à mãe e um elogio à responsabilidade e à coragem, mas é também uma tomada de posição sobre a violência de género. Com a mesma coragem com que desafiou o destino que as tradições familiares reservam às mulheres e o Apartheid reservava aos negros, Patricia Noah fez-se à estrada da vida contra todas as imposições, saindo de casa ainda jovem e solteira para viver sozinha numa zona reservada a brancos, escolhendo namorar e ter um filho com um branco, quando isso era um crime punível com a prisão.  “Era um espírito livre. Insistia em ir à aldeia, visitar os lugares onde os homens se reuniam e conversar com eles de igual para igual” (p241).

Neste livro, todas as histórias que se cruzam com a sua história pessoal são uma quase anatomia da despossessão física e simbólica a que os corpos negros foram sujeitos pelo Apartheid que se desdobra em negação da humanidade e privação material. Trevor conta como as comunidades negras foram encurraladas num ciclo vicioso de pobreza: “É a maldição de ser negro e pobre, e é uma maldição que passa de geração em geração. A minha mãe chama-lhe ‘o imposto negro’. Uma vez que as gerações anteriores foram saqueadas, gastamos tudo a tentar voltar à estaca zero, em vez de usarmos as nossas aptidões para seguir em frente” (p 69).

No Journal of Contemporary African Studies, em The politics of being a human being in Soweto: Identity as a social capital, Michael Onyebuchi Eze sublinha que a política colonial do Apartheid era um capitalismo racial cuja racionalidade interna das políticas era assegurar os privilégios económicos e a sobrevivência sócio-política da minoria branca.

O regime percebeu muito cedo como a estratégia de despossessão física e simbólica tinha de se ancorar no sistema educativo, pois sabia que “um homem culto é um homem livre ou, pelo menos, um homem que anseia pela liberdade. Logo, a única maneira de fazer o Apartheid funcionar era estropiar a mente dos negros” (p 65).

Também surge no livro de Noah a questão da língua, questão complexa num continente que foi culturalmente dominado e num país tão multiétnico, em que o africânder e o inglês, foram — ainda são — instrumentos de poder. Paradoxalmente, em muitos casos o idioma da opressão colonial transformou-se em língua de libertação e até de construção do projeto nacional, como o defendera Cabral relativamente ao português, mas de forma transitória, no contexto da luta da libertação nacional. A este propósito, Trevor convoca de novo o seu ídolo: “Nelson Mandela disse certa vez: ‘se falarmos com um homem numa língua que ele entende, isso chega-lhe à cabeça. Se falarmos com ele na sua língua, isso chega-lhe o coração.’ Tinha muita razão. Quando fazemos o esforço de falar a língua de outra pessoa, ainda que seja apenas expressões básicas e soltas, o que estamos a dizer é: entendo que tens uma cultura e identidade que existe para lá de mim. Vejo-te como um ser humano” (p228). O autor parece seguir as pisadas de Mandela, crendo que a linguagem pode significar a encarnação da democracia e, para tal, acreditando que o uso do inglês pode significar esta possibilidade, já que o africânder é a língua do opressor. Porém, Ngugi wa Thiong’o lembra em Decolonising the Mind que a questão da língua é crucial e esteve sempre no coração das violências feita à África.

Esta visão inscreve-se numa tradição que procura resgatar a possibilidade de um outro humanismo que carrega o conceito do Ubunto, segundo o qual a “humanidade é uma qualidade que nos devemos uns aos outros” e qualquer violência humana constitui uma afronta à humanidade. Inspirado neste conceito que plasmou na Constituição, Mandela, que no seu discurso de investidura integrou versos do poema A Criança da escritora branca africânder Ingrid Jonker, encarou a ideia de reconciliação como a única capaz de erguer um projecto nacional num país multirracial como a África do Sul. Esta disponibilidade para a reconciliação influenciará uma parte importante da geração da classe média urbana pós-Apartheid, onde se inclui obviamente o próprio Noah. No entanto, para a maioria dos negros, as consequências do Apartheid continuam presentes: “é fácil para Mandela perdoar — sua vida mudou; mas para uma mulher que ainda vive numa favela, não é possível” (resume a senhora Charity Kondile em Country of My Skull de Antjie Krog).

No fundo, mais do que um mero diagnóstico do deficit de igualdade com que se confrontam os negros na África do Sul, o livro de Noah pode ser lido como um desafio de reparação da injustiça cometida contra os africanos.

Se o livro pode ser um exercício de reencontro entre Trevor Noah e a sua memória de infância e, por essa via, uma exorcização dos seus fantasmas, o certo é que a sociedade sul africana está longe da catarse sobre o Apartheid cujas feridas continuam abertas, como o provam as desigualdades profundas que ainda persistem, apesar do fim formal do regime segregacionista.