O novo Daily Show com Trevor Noah: esperar para ver

Primeiras reacções ao sucessor de Jon Stewart são positivas mas inconclusivas.

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Comedy Central

“Um novo Daily Show é como uma actualização do iOS. Toda a gente se queixa do tipo de letra, mas a vida continua.” A afirmação é de Dave Itzkoff, do jornal New York Times, no Twitter, depois da estreia do sul-africano Trevor Noah a apresentar o programa do canal Comedy Central, que Jon Stewart tornou numa das referências da televisão contemporânea.

O comediante sul-africano de 31 anos, muito popular na África do Sul (onde chegou a apresentar um talk-show) mas um relativo desconhecido no resto do mundo, fez na segunda-feira à noite a sua estreia à frente do programa, substituindo Stewart, que comandara o Daily Show durante 16 anos e anunciara a sua saída em Fevereiro.

Noah foi anunciado como novo anfitrião do programa em Março, com a “bênção” do seu predecessor, e tornou-se o alvo dos holofotes mediáticos ao longo dos últimos meses, com inúmeros artigos de opinião, perfis e entrevistas de fundo. A questão central a que todos procuravam responder: será Noah capaz de se meter na pele de Stewart?

Trevor Noah começou o programa lembrando exactamente o homem de que todos sentem falta. “Posso assumir que isto é tão estranho para vocês como é para mim. Jon Stewart foi mais do que apresentador. Foi tantas vezes a nossa voz, o nosso refúgio e, de várias formas, o nosso pai político”, começou por dizer Noah, admitindo que é “estranho” o pai ter-se ido embora. “Agora é como se a família tivesse um padrasto — e ele é negro, o que não é ideal”, brincou o sul-africano. E aproveitou para agradecer a sua escolha a Stewart: “Obrigado por acreditares em mim.” “Não sei muito bem o que viste em mim, mas vou trabalhar duro todos os dias para o descobrir. Vou fazer com que não pareças o tipo de velho maluco que deixou a sua herança ao acaso a um miúdo em África.”

Escreve Brian Moylan, no The Guardian, que as melhores piadas de Noah foram estas do monólogo inicial. Moylan compara depois a prestação do sul-africano a comentar a actualidade com aquilo que Jon Stewart fazia tão bem, e, para o jornalista, Noah ainda tem algum trabalho pela frente. De lembrar que Stewart, com o seu olhar satírico sobre a realidade — sem pudor à esquerda e à direita —, era visto como uma fonte credível, cuja opinião interessava ouvir.

Trevor Noah não ignorou a demissão do presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, John Boehner, que muitos republicanos consideravam não ser conservador o suficiente. “É como a cocaína dizer à metanfetamina que não é demasiado viciante.”

Um dos momentos controversos da noite deu-se aqui, quando Noah aludiu na piada à cantora Whitney Houston, que morreu em 2012. “Eu deitei abaixo a Whitney Houston”, brincou, como se fosse a metanfetamina a responder à cocaína. Foram públicos os problemas da cantora com metanfetaminas. “Demasiado cedo?”

O apresentador passou depois para a visita do Papa Francisco aos Estados Unidos. Passou imagens da visita do Papa e dos milhões de pessoas que o seguem para depois brincar com as palavras, colando o Papa a alguns dos festivais de música mais conhecidos do país: “Popechella, Pope-by-Popewest.” Noah fez ainda uma piada sobre a masculinidade de Francisco por conduzir um carro muito pequeno.

As primeiras reacções à primeira emissão conduzida pelo sul-africano, que manteve quase toda a equipa de produção e criação e teve como convidado de fundo o comediante Kevin Hart, não são concludentes, mas são no geral positivas. E podem ser resumidas na opinião de Erik Davis, do site AV Club, que sublinha que não faz sentido usar o programa de estreia como bitola de um work in progress que leva tempo a estabelecer: “Foi um primeiro programa cauteloso.”

Para Daniel d’Addario, da revista Time, “é como se Noah soubesse que iria haver uma revoada de críticas comparando-o negativamente a Stewart e tivesse procurado contornar o problema referindo-o o mais frequentemente possível”. Na revista Hollywood Reporter, Daniel Fienberg diz: “Não é particularmente chocante que o sul-africano (...) não tenha conseguido ultrapassar a fasquia nos seus primeiros 20 minutos à secretária.” O crítico aponta que “a melhor coisa, e a mais honesta, que se pode dizer sobre a estreia de segunda-feira é que ele não deu cabo do programa”. “Também não tentou fazê-lo.”

E Brian Moylan chamou-lhe “uma primeira noite mediana, sem triunfar nem embaraçar completamente”, sublinhando que “vai levar meses até encontrar o seu ritmo”.

Talvez o apontamento mais significativo seja que mesmo nas redes sociais a estreia de Noah não mereceu reacções violentas, com a maior parte dos comentadores a adoptarem uma postura de “esperar para ver”.

Em Portugal, o Daily Show era até agora transmitido pela SIC Notícias. Questionado pelo PÚBLICO, o gabinete de comunicação da SIC informou que desta vez o canal não comprou o programa, desconhecendo-se assim se o novo Daily Show passará na televisão portuguesa.


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