Um presidente em directo num programa da manhã choca ou agrada?

Marcelo telefonou a Cristina Ferreira na estreia do seu programa televisivo. Entrou na guerra de audiências ou usou apenas a comunicação directa, como tantos outros? Os especialistas dividem-se.

Marcelo voltou a surpreender ao telefonar para Cristina Ferreira
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Marcelo voltou a surpreender ao telefonar para Cristina Ferreira

O Presidente da República entrou em directo por telefone na estreia do programa de Cristina Ferreira na SIC, esta segunda-feira, para lhe desejar felicidades. Fê-lo, disse fonte de Belém ao PÚBLICO, porque quis estabelecer alguma paridade com o concorrente directo, o programa da TVI apresentado por Manuel Luís Goucha, a quem tinha concedido uma entrevista na véspera de Natal. A polémica estalou nas redes sociais, mas será um gesto assim tão criticável?

Os especialistas em comunicação política ouvidos pelo PÚBLICO dividem-se. A mais crítica é Felisbela Lopes, professora de Jornalismo na Universidade do Minho. “É um momento particularmente infeliz do Presidente, pois tomou parte numa guerra de audiências, o que não devia acontecer”, diz ao PÚBLICO. “Não foi um dia bom para o Presidente, mas foi um óptimo dia para a SIC, que transformou o momento em notícia no telejornal e conseguiu ter toda a gente a falar de um programa no dia de estreia.”

Nem a explicação presidencial convence a investigadora, pois considera que não são momentos comparáveis: a Goucha “deu uma entrevista antes da guerra de audiências”, enquanto a Cristina fez “uma intervenção laudatória, pois telefonou para desejar boa sorte e sublinhar que era uma boa apresentadora”. E já agora, pergunta: “Como fica a RTP? Não existe? Devia ser alvo de uma atenção especial, por ser serviço público.”

Precedente aberto

Que Marcelo abriu um precedente diz também Arons de Carvalho, ex-vice-presidente do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social: “A partir de agora, terá a mesma responsabilidade perante programas idênticos, pelo menos em termos de popularidade.” Isso levanta outra questão, a do critério: “Não telefona para programas de grande qualidade, mas de grande popularidade, e também será criticado por questões de gosto.”

Para este professor universitário, Marcelo “cedeu à tentação do insólito e de estar sempre presente, em particular nos media”. Mas também pensa que é uma questão “de consequências quase irrelevantes”, pois “não belisca minimamente a avaliação da função presidencial”. Apenas acentua um pouco o estilo, “talvez demasiado presente nos media, talvez demasiado opinativo”, avalia.

Quem já considerou Marcelo uma espécie de “populista institucionalista” foi o politólogo António Costa Pinto. Agora, acrescenta que este episódio apenas “confirma o estilo político que pré-ocupa toda a panóplia de espaço público de intervenção” do Presidente da República. “Nós estamos habituados aos presidentes nas feiras, nas inaugurações, nos ranchos folclóricos – porque é que não havemos de estar habituados aos presidentes nos media?”, questiona. Habituem-se, portanto, porque na sua opinião “Marcelo continuará sempre a inovar na ocupação do espaço comunicacional”. E, aos poucos, “a sociedade e a própria elite política, critique ou não critique, vai-se preparando para um presidente que não deixa nenhum espaço de lado”.

Presidente instantâneo

O que, afinal, não é nada de novo, junta Vasco Ribeiro, ex-assessor do PS e investigador em Comunicação Política: “Aos olhos da política tradicional, conservadora, [a atitude do Presidente] não bate certo, porque o tempo da política não é o tempo dos media. Só que esse tempo já não é assim há muito tempo: a voragem das notícias, ainda para mais partilhadas, acaba por dar azo a que a política se adapte à velocidade da comunicação pública.”

Marcelo encaixa-se nestes padrões actuais, afirma: “É instantâneo e por vezes superficial e até fútil, mas, por outro lado, temos um presidente que consegue chegar às pessoas e que comunica como nunca outro conseguiu comunicar. Lembra que também Barack Obama foi criticado pelo uso que fazia das redes sociais, tal como hoje é Trump, por motivos mais negativos. Na sua opinião, o que deve ser analisado é o conteúdo da mensagem, e, sendo Marcelo um “democrata e responsável, os efeitos não são tão malévolos”.

“Durante 40 anos andámos a construir uma enorme barreira entre os políticos e o país real, queixamo-nos disso todos os dias. Este Presidente quebrou esta barreira, e agora estamos a queixar-nos?” A observação é de Rodrigo Moita de Deus – que integrou a equipa de candidatura de Marcelo e hoje é director do News Museum –, para quem a proximidade do Presidente “é com o país real e não com o país do Príncipe Real”. Ou, por outras palavras, “o choque das pessoas diz muito mais sobre o país do que o telefonema do Presidente”.