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Reportagem

Querem gerir hotéis, mas começam por servir à mesa e limpar quartos

Pagam mais de 20 mil euros por semestre para serem os melhores gestores de hotéis do mundo. Mas, como manda o sistema suíço, antes têm de pôr as mãos na massa — na cozinha, nas limpezas, na recepção. Após os estudos, 87% dos alunos saem da Les Roches Marbella com várias ofertas de emprego.

A praia de areia dourada, o calor, os hotéis e restaurantes de luxo, os campos de golfe. Nos últimos anos, Marbelha tem-se afirmado como um dos pontos turísticos mais importantes da Costa do Sol, Espanha. Mas esta varanda sobre o Mediterrâneo, na província de Málaga, não é apenas destino daqueles que procuram descanso. É lá que fica a Les Roches Marbella, onde estudam mais de 900 estudantes (de mais de 80 nacionalidades) que aspiram a, um dia, singrar na área do turismo e lazer. Cerca de 10% são portugueses.

Numa das cozinhas do campus, debaixo do olhar atento de um professor, uma aluna tira as espinhas ao salmão. Do outro lado da sala, um par maneja cuidadosamente os sacos de pasteleiro. Outros vão mantendo a cozinha asseada por entre colegas que vigiam as panelas a ferver. A máquina parece bem oleada para o almoço que se avizinha. É uma típica manhã num dos quatro restaurantes da escola — feitos somente por e para alunos — que mimetizam aqueles que se encontram nos resorts. Mas nenhum destes aprendizes é estudante de Culinária. Todos estão no primeiro ano da licenciatura em Gestão Hoteleira Internacional. O lema é simples: antes de aprender a gerir um hotel, o aluno tem de pôr as mãos na massa e passar por todos os ofícios do negócio — quer se trate de cozinhar, de lavar os pratos, de servir à mesa, de fazer uma cama ou de receber um cliente na recepção e lidar com as suas queixas. Este método de ensino, baseado na prática, foi importado da Suíça, país onde surgiu a primeira escola Les Roches, considerada a sexta melhor escola do mundo na área de gestão hoteleira.

Num outro piso do campus de Marbelha há algumas salas especiais. Numa delas, vêem-se dois tipos de balcão, atrás dos quais os alunos praticam o discurso e os modos de um bom recepcionista, como um ensaio para uma peça de teatro. A uns passos dali encontramos um quarto-modelo de uma suite. “A manutenção dos quartos é como um trabalho de ninjas. Ninguém o vê, as pessoas aparecem depois de já estar feito, mas tem de estar impecável”, comenta o professor. Lá, os alunos aprendem coisas tão simples como fazer uma cama, que produtos de limpeza usar para diferentes superfícies, como limpar uma banheira ou uma sanita.

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Nem Inês Fonseca nem Mónica Ferreira, portuguesas de 19 anos, foram apanhadas de surpresa pela variedade da componente prática, contam-nos, enquanto esperamos o almoço num dos restaurantes da escola. “Se estamos a gerir um hotel e temos uma pessoa que não sabe fazer algo, temos de saber demonstrar como se faz, não basta mandar”, explica Inês. Para a jovem portuense, que está a acabar o primeiro ano, a cozinha foi o mais difícil. “Só sabia fazer um ovo estrelado, um arrozinho”, admite entre risos, quando a puseram a trabalhar num buffet para 600 pessoas. Hoje sente falta da adrenalina dos restaurantes. Mónica, de Lisboa, ainda não teve tempo para ter saudades – “Nesta semana, trabalhei à volta de 12 horas por dia”, confessa. Está a servir à mesa no restaurante de fine dining, aquele que considera ser “o mais puxado”, devido a todos os detalhes exigidos a quem serve à mesa: postura, disposição dos talheres ou discurso.

A conversa com as alunas portuguesas é interrompida pela apresentação dos pratos que vão sendo colocados na mesa. Inês e Mónica ouvem atentamente a descrição da colega e sorriem. Há respeito pelo trabalho dos pares – afinal, já todos passaram por ali. No total, são 20 semanas intensas de trabalho dedicadas ao restaurante e ao funcionamento de resorts e gestão de quartos. É “preparação para o mundo real”, resume Inês. Mundo que vão enfrentar no segundo semestre, altura em que todos passam por um estágio obrigatório num desses serviços operacionais. Só após o primeiro ano é que os alunos começam a mergulhar na teoria da gestão e do negócio e vão subindo na pirâmide de responsabilidade – até chegarem ao almejado lugar directivo. No curso de três anos e meio têm ainda de passar por um segundo estágio, onde já é permitido que os alunos optem por ficar em departamentos “de escritório”, como Marketing ou Financeiro.

Mónica ainda não faz ideia de que especialização gostaria de escolher no último semestre – se empreendedorismo, se marketing digital ou gestão de resorts. Mas já sabe que, em breve, – e apesar de ter recebido propostas de Inglaterra e Espanha – vai regressar a Portugal para estagiar no Ritz Four Seasons, em Lisboa. Já Inês ainda está indecisa entre Londres e Praga. Nenhuma delas equacionou estudar hotelaria em Portugal. Mónica ainda procurou universidades do país, mas rapidamente mudou de ideias – “Era tudo tão, mas tão teórico. E a maioria dos estágios que se arranjam lá não são internacionais, nem em grandes cadeias.” “Em Portugal, falta internacionalidade”, completa Inês: “Nesta área é importante conhecer novos cantos do mundo, novas nacionalidades, fazer networking”. Na Les Roches Marbella, apenas cerca de 30% dos alunos são espanhóis. 15% vêm do Médio Oriente e África, 8% das Américas e 4% da Ásia e Austrália. “Isto é um mundo completamente diferente daquilo a que estamos habituados em Portugal”, comenta a estudante portuense que, no futuro, gostava de ir para os EUA e montar a sua empresa de eventos.

“Sabem que vão ter um emprego à espera deles”

Tanto os pais de Inês como os de Mónica têm feito um esforço para pagar as propinas, que são bastante elevadas comparativamente aos valores praticados em Portugal. Frequentar o primeiro semestre na Les Roches custa para cima de 22 mil euros, já com estadia e refeições incluídas, valor que desce ligeiramente nos restantes semestres. Mas as portuguesas acreditam que “é um bom investimento” – principalmente porque sabem que é provável terem ofertas de trabalho à espera após a licenciatura. 87% dos alunos que saem de Marbelha ficam imediatamente empregados ou, então, têm múltiplas ofertas em mãos – dizem as estatísticas de 2017 fornecidas pela escola. Dados que não são surpreendentes, visto que mais de 40 cadeias hoteleiras e empresas visitam escola a cada semestre. No dia em que o PÚBLICO esteve no campus, encontrou 12 bancas representativas de hotéis da Marriott – entre eles os portugueses Pine Cliffs (Algarve) e Penha Longa (Sintra). Um representante deste último sintetiza o que distingue estes alunos: “São miúdos muito práticos.”

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Nos corredores, os estudantes circulam vestidos a rigor, todos identificados por um pequeno crachá ao peito. Espalhados pela escola estão vários pósteres com regras apertadas acerca da indumentária – a não ser que os alunos estejam a ter aulas práticas, são obrigados a usar fato clássico e escuro, camisa em tons de pastel e a seguir várias restrições quanto ao uso de acessórios. A atenção ao detalhe é a máxima, principalmente perante quem acaba de chegar. Durante seis meses, às 8h45 em ponto, todos os alunos do primeiro semestre têm de se apresentar na chamada Roll Call. Lá, são passados a pente fino – “se a barba está bem-feita, se a camisa está bem passada, se os alunos que estão em serviço têm uma caneta, papel para apontar pedidos, um isqueiro e um saca-rolhas” – e “afere-se acerca da postura do aluno”, explica Mano Soler, antigo aluno e actual director de operações da Les Roches Marbella.

Uma postura que já foi destacada pela positiva em alunos portugueses, como é o caso de Diogo Côrte-Real, de 21 anos, que está agora no seu último semestre. Falou connosco depois de uma cerimónia que o elegeu como um dos melhores alunos do seu ano – foi um dos 23 que passou a integrar a sociedade internacional Eta Sigma Delta, que a cada ano reconhece os melhores alunos da indústria de gestão hoteleira. No secundário, enveredou pela área da Economia, mas o gosto pela “interacção com as pessoas” e a “curiosidade pelos bastidores do mundo da hotelaria” fizeram com que começasse a procurar opções dentro esta área. Considerou a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, mas excluiu-a em prol da “importância de uma experiência internacional”.

Por saudades e por questões financeiras, fez o seu primeiro estágio em Portugal – esteve seis meses no Hotel Cascais Miragem, na recepção, no serviço de quartos e a servir à mesa – e vai voltar ao país-natal para fazer o segundo, no departamento financeiro do Sheraton Lisboa Hotel & Spa – estágio que decidiu adiar até o final do curso, uma decisão estratégica adoptada por vários alunos, que usualmente são convidados a ficar.

Sara González, gestora do Aleysa, eleito pelos Trivago Awards como o Melhor Hotel de 5 Estrelas de Espanha durante três anos consecutivos, é uma das antigas alunas da Les Roches. Depois de uma licenciatura em Direito, e de ter visto que aquilo não era para ela, investiu numa pós-graduação na escola de Marbelha. Hoje, os colegas brincam com “a pilha de prémios” que tem arrecadado com o seu trabalho no Aleysa. Dez anos depois de ter estudado em Marbelha, continua a acreditar que o investimento foi “excelente” e resume porquê: “Uma das grandes diferenças entre a universidade pública e uma escola como a Les Roches é a motivação que se sente nos alunos. Eles sabem que vão ter um emprego à espera deles.”

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O P3 viajou a convite da Les Roches Marbella.